Abusos sexuais do clero: Papa Francisco deve reorganizar os bispos italianos

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24 Fevereiro 2017

O Papa Francisco está em uma encruzilhada: ou deixa a Igreja italiana na sua anarquia de gestão dos abusos sexuais do clero, ou assume o controle da situação, impondo regras de comportamento eficazes.

A reportagem é de Marco Politi, publicada no sítio do jornal Il Fatto Quotidiano, 20-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Fatos recentes da crônica trouxeram novamente à atenção geral uma situação que contradiz flagrantemente a linha de rigor já pregada por Bento XVI e, posteriormente, reiterada com força pelo Papa Bergoglio. Permanece na Itália um modo de comportamento da hierarquia eclesiástica que oscila entre superficialidade, negligência e, em última análise, subestimação daquilo que o estupro sofrido na infância representa para toda a vida de uma vítima.

Em Nápoles, uma vítima denunciou em 2010 ao cardeal Sepe um abuso sofrido aos 13 anos, e, apenas em 2014, por intimação da Congregação para a Doutrina da Fé, a arquidiocese abriu uma investigação formal, que deveria ter começado imediatamente. Em Foggia, o padre Gianni Trotta foi demitido em 2012 do estado clerical, mas a Congregação para a Doutrina da Fé recomendou “não divulgar os motivos do seu afastamento para evitar escândalo”. É grave o resultado desse silêncio: Trotta, já condenado por abusos, está sendo novamente processado agora por crimes cometidos contra outra dezena de crianças.

Emiliano Fittipaldi, no seu livro Lussuria [Luxúria] (Ed. Feltrinelli), elenca outros casos, que nunca deveriam ter ocorrido. O padre Franco Legrottaglie, de Ostuni, condenado no ano 2000 por luxúria violenta contra duas meninas, foi nomeado em 2010 capelão do hospital e transferido a uma paróquia como se nada tivesse acontecido. O padre Francesco Rutigliano, suspenso por quatro anos das suas funções em 2011 pela Congregação para a Doutrina da Fé por “abuso de menor”, repetido no período de 2006-2008, foi tranquilamente transferido em 2015 da diocese de Locri para uma paróquia de Civitavecchia.

Até agora, a Conferência Episcopal Italiana (CEI) – cujas diretrizes são tão evanescentes a ponto de ter forçado, na época, a Congregação para a Doutrina da Fé a corrigir a primeira versão do texto – recusou-se a se dotar de estruturas específicas para enfrentar a questão dos abusos.

Os eixos da má gestão do fenômeno são dois. Acima de tudo, os bispos italianos não acreditam ter a obrigação precisa de denunciar o crime, sob o pretexto de que não são “funcionários públicos”. Em segundo lugar, não existem nas dioceses pessoas de referência especializadas, às quais a pessoa violentada possa se dirigir, sob o pretexto de que o bispo é “pai de todos” e basta chamá-lo.

Porém, não há nada a se inventar. Nos países do outro lado dos Alpes e na América do Norte, existem em todas as dioceses pontos de escuta com padres e psicólogos, aonde a vítima leva a sua denúncia, sabendo que será aberto um procedimento regular de inquérito. Nessas nações, foram elaboradas diretrizes para o ressarcimento das vítimas (sem se lavar as mãos, dizendo que é um assunto privado do padre criminoso). Nessas nações, a Conferência Episcopal assume um papel ativo no monitoramento constante do fenômeno em nível nacional, e são publicados relatórios anuais para informar a opinião pública sobre a situação. Em vários casos, também foram promovidas investigações para trazer à tona abusos escondidos por décadas.

Nada disso acontece na Itália. Uma única diocese, a de Bolzano-Bressanone, começou há anos uma investigação sobre o passado com iniciativas específicas também em termos de punições e de indenizações. Em vez disso, cada vez que foi interpelada, a CEI se declarou “incompetente”, remetendo à responsabilidade dos bispos individuais e da Congregação para a Doutrina da Fé. Uma forma de não assumir a responsabilidade de arregaçar as próprias mangas.

Francisco, como se sabe, acredita que as Conferências Episcopais devem se autogerir o máximo possível. Mas a CEI é um caso especial. O papa é o bispo de Roma, e Roma faz parte do território eclesiástico italiano. Ou, melhor, o Romano Pontífice tem o antigo título de “primaz da Itália”. Além disso, o pontífice escolhe diretamente o presidente da CEI.

Por isso – em vista de uma reorganização da CEI com a eleição do novo presidente em maio – Francisco não pode deixar enfrentar o problema de fazer com que toda a matéria seja regulada nas dioceses italianas de acordo com os princípios de rigor enunciados por ele.

No dia 28 de dezembro, comemorando o “Massacre dos Inocentes”, ele convidou os bispos do mundo a observarem “lealmente” a linha da “tolerância zero”. Nestes dias, o livro de uma vítima, Daniel Pittet, publicado pela editora Piemme, traz um prefácio do papa argentino, em que se enfatiza o dever de uma “severidade extrema com os sacerdotes que traem a sua missão e com a sua hierarquia, bispos ou cardeais, que os protegeu, como já aconteceu no passado”.

Indicações muito claras, que devem ser aplicadas na Itália. Com a mesma energia que Francisco demonstrou ao gerir os desvios da Ordem de Malta. Deixar a Igreja italiana entregue à sua escandalosa inércia, mais cedo ou mais tarde, acabaria fazendo recair sobre o Vaticano.

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