Os 200 padres pedófilos da Itália: o escândalo que envergonha a Cúria

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17 Janeiro 2017

Pondo no microscópio as crônicas italianas dos últimos meses, documentos judiciais recém-saídos da chancelaria e documentos paroquiais, descobrem-se muitas peças. Olhando para o mosaico de uma certa distância, o desenho se torna mais claro. Comecemos tomando um trem para a ponta do calcanhar da Itália. Na Calábria, perto de Reggio, está o padre Antonello Tropea, ex-pai espiritual do seminário de Oppido Mamertina, que, em março de 2015, foi encontrado pela polícia em um carro com um jovem de 17 anos conhecido graças ao aplicativo Grindr, usado para encontros gays. Vinte euros foi o custo do programa. Investigado por prostituição infantil, o padre continua sendo padre, confidenciando-se de vez em quando com o seu bispo, Dom Francesco Milito. “Evite falar com os policiais sobre essas coisas”, sugere-lhe o superior, sem saber que está sendo ouvido.

A reportagem é de Emiliano Fittipaldi, publicada pro La Repubblica, 16-01-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Também na Calábria, na diocese de Locri, está o bispo Francesco Oliva, nomeado por Francisco em 2014: foi ele que, em 2015, mandou para uma paróquia em Civitavecchia um sacerdote dele, o padre Francesco Rutigliano, que a Congregação para a Doutrina da Fé, no passado, suspendeu por quatro anos, em 2011, por “abuso de menor com o agravante de abuso de dignidade ou ofício, cometido no período entre 2006 e 2008”, obrigando-o à “celebração de 12 Santas Missas com cadência mensal em favor da vítima e da sua família”.

Em Ostuni, está Franco Legrottaglie, condenado no ano 2000 por atos libidinosos violentos contra duas jovens, que nunca foi pego por processos canônicos e que, mais tarde, foi designado, em 2010, pelo bispo emérito Rocco Talucci, como capelão do hospital e padre em uma igreja da cidade: em maio de 2016, ele foi pego com 2.500 imagens de pornografia infantil armazenadas no computador em pastas com os nomes de santos. Ele lançou uma moda: o padre Andrea Contin, investigado em Pádua por indução à prostituição, também etiquetava com os nomes dos papas os filmes caseiros “hard” do qual participavam as suas amantes.

Em Catânia, há um sacerdote que, em agosto de 2016, já suspenso pela Cúria das atividades pastorais, teria ameaçado com uma faca nas costas um jovem de 15 anos, forçando-o a manter relações sexuais com ele. Depois, há o padre Siro Invernizzi, que, em 2013, foi enviado pelo bispo de Como para ser o vice-pároco em Cugliate, perto de Varese, apesar dos dois anos de liberdade condicional negociados por ter abordado na rua um menininho Rom de 13 anos que se prostituía.

E ainda: em Grosseto, há um sacerdote indiciado em julho de 2016 por ter molestado três meninas, às quais ele teria dirigido um “atenção íntima demais”. Em Pietrasanta, em Versilia, desde o ano passado, há outra investigação (ainda em curso) de um padre estrangeiro pertencente à ordem dos carmelitas: a Cúria Generalícia de Roma foi citada nos tribunais civis como responsável pelos danos por não ter exercido o controle sobre o religioso.

Ao longo da última década, contando apenas os condenados e os investigados, são mais de 200 os sacerdotes italianos denunciados por atos de luxúria com adolescentes. Muitos mais do que aqueles que foram descobertos pelos jornalistas do Boston Globe, que deram início à investigação inquérito Spotlight de 2002... Mas, na Itália, o escândalo nunca explodiu, ao contrário dos Estados Unidos, da Austrália, da Irlanda ou da Bélgica, em toda a sua gravidade.

“O que me preocupa aqui é uma certa cultura do silêncio”, disse Dom Charles Scicluna, quando era o promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé. Uma tendência à aquiescência que parece envolver as vítimas, as famílias dos fiéis, as hierarquias e até mesmo parte da mídia: de acordo com alguns observadores, não é por acaso que são precisamente os países tradicionalmente mais católicos – como a Itália, a Espanha e os da América do Sul – em que o fenômeno da luxúria contra os menores parece ter, a partir dos pouquíssimos dados oficiais disponíveis, uma dimensão contida.

Na realidade, o “sistema” que encobre e protege os monstros e os cofres da Igreja também funciona na Itália. Ainda hoje. E melhor do que em outros lugares. Um exemplo: se a arquidiocese de Los Angeles pagou há alguns anos, em um acordo extrajudicial, 660 milhões de dólares para 508 vítimas de abuso sexual por padres (o período das supostas violências vai de 1950 a 1980) como compensação pelos atos de luxúria, em Verona, os 67 ex-alunos do Instituto Provolo, surdos-mudos que denunciaram à Cúria os monstruosos abusos dos quais teriam sido objeto por parte de 25 religiosos de 1950 a 1984, não receberam nem mesmo um único euro. Para a lei italiana, os crimes prescreveram, e uma ação judicial é tecnicamente impossível. A comissão de inquérito “independente” não acreditou nos seus relatos.

Pode ser acaso, mas, há alguns dias, um dos sacerdotes indicados pelas testemunhas como um suposto agressor, Pe. Nicola Corradi, foi preso na Argentina, na sede sul-americana do instituto, para onde ele havia se transferido há algum tempo, com a acusação de “abuso agravado” e “corrupção de menores”.

Ainda hoje, o Vaticano não prevê que sacerdotes e bispos tenham a obrigação de denunciar os colegas maníacos à justiça comum. E os casos geridos pela Congregação responsável permanecem secretíssimos. Em Cremona, o padre Mauro Inzoli, poderoso monsenhor do Comunhão e Libertação, em 2016, foi condenado em primeira instância a quatro anos e nove meses de prisão. Removido do sacerdócio pelo Papa Ratzinger, apesar do processo penal contra ele, ele apelou à Congregação e ganhou: Francisco o readmitiu ao clero.

Isso não é tudo: o juiz pediu ao Vaticano os documentos do processo canônico e, depois de meses de espera, teve o seu pedido recusado: “Os autos processuais e instrutórios são ‘sub segreto pontificio’”, foi a única explicação, lacônica. A mesma dinâmica ocorreu em Palermo, poucos meses antes.

Os encobrimentos ou as defesas de ofício envolvem figurões da hierarquia, como o bispo de Bréscia, de Como, de Castellaneta, o arcebispo emérito de Palermo, o cardeal Paolo Romeo, o de Savona, cardeais de peso como Antonelli, Bertone e Domenico Calcagno. Este último fez carreira com Bento XVI, e Francisco também o confirmou na cadeira de presidente da APSA, a entidade que gere o imenso patrimônio da Santa Sé. Apesar de uma mancha grave, a de ter movido em 2003 de uma paróquia para outra um padre sobre o qual já tinham chegado denúncias pesadas. Um deslocamento ao qual não se seguiram procedimentos concretos: uma pena, porque, dois anos depois, o sacerdote, padre Nello Giraudo, conseguiu molestar outro menino em um acampamento de escoteiros.

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