Temporada final de “The Young Pope”: Sorria, ainda que seu coração esteja parando

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23 Fevereiro 2017

Reproduzimos a seguir os comentários de Matthew Sitman, editor associado da Commonweal, e Dominic Preziosi, editor digital, sobre a minissérie The Young Pope, da HBO, publicados por Commonweal, 18-02-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Nas últimas semanas Matthew Sitman e Dominic Preziosi têm discutido a série The Young Pope. Os links para as discussões realizadas por eles até então encontram-se ao final deste texto.

A seguir publicamos o comentário sobre as duas últimas partes do seriado de Paolo Sorrentino.

Eis os comentários.

Matt

No nosso primeiro debate, Dominic, escrevi que, quando se trata do personagem central de “The Young Pope”, Lenny Belardo, eu vinha tendo “dificuldades para entender suas motivações, o que ele realmente quer” e que “o que não sabemos sobre ele ainda se parece um mistério dramaticamente inútil e uma incoerência possível”. Agora que estamos no final da primeira temporada, que termina com Lenny, agora Papa Pio XIII, tendo – o quê? Um ataque cardíaco? Ataque de pânico? – enquanto discursa a uma multidão reunida em Veneza, achei que devo voltar às minhas hesitações e incertezas.

O episódio final encerrou-se sem revelar definitivamente se Pio estava vivo ou morto. (Será que as nuvens aparentemente abençoadas que vemos aos céus estavam acolhendo-o no paraíso, ou estariam a cuidar de seu corpo?) Quando a temporada dois começar, ficarei tão pouco surpreso com o papa pulando e sorrindo de alegria quanto se o ver no centro de um velório. Se tivesse de dar o meu palpite, no entanto, diria que iremos ver Pio novamente; tem muita coisa que nunca saberemos sobre Lenny, e o que de fato sabemos nos tomou bastante tempo para ser descoberto. Já mencionei o quanto a espera parecia definir os primeiros episódios de “The Young Pope”, e não creio que isso tudo fora feito para preparar uma morte inesperada de Pio.

Durante as últimas semanas, perguntei-me sobre se “The Young Pope” é mais do que uma novela italiana disparatada. Em certo momento, o programa é pateta; em outro, mostra um calor humano, com falas bem pensadas e proferidas caprichosamente. Talvez Pio entre em coma e volte com um sotaque diferente. Mas como quase sempre acontece, mesmo sendo confuso, este programa definitivamente quer ser sério, ou pelo menos ser levado a sério – e no geral ele é muito bem escrito e as suas tomadas são executadas de forma extremamente brilhante para ser deixado de lado como algo sem valor. Se o humor não convencional e a “vibe” sobrenatural/estranha desta série perturbar ou mesmo confundir o espectador em alguns momentos, tal sensação estará fazendo parte do objetivo maior: ela pode ser inclusive pedagógica.

Posso dizer que estou tentando não ler muita coisa – comentários e análises – sobre “The Young Pope”. Mas um pensamento sobre o programa escrito pelo escritor e diretor Paolo Sorrentino tem estado comigo durante este tempo todo. Depois de observar que um papa muito diferente pode vir depois de Francisco, ele disse isto: “Acho ser uma ilusão que a Igreja tenha uma ideia a longo prazo para com a modernidade”. Posso estar exagerando na busca por uma grande teoria em torno da série televisiva, mas o fato é que esse dizer me mostra uma possibilidade: a de que “The Young Pope” assume o “problema” da fé ou da vida religiosa em meio à rotatividade do mundo moderno, e assim o faz explorando um papa complicado, impenetrável que poderia não estar inteiramente convencido da existência de Deus. O seu texto explora uma textura de como é a crença em nosso mundo incerto e, com ele, explora também noções de autoridade – especialmente a autoridade das instituições.

É importante que Pio seja um reacionário. Afinal de contas, o fundamentalismo religioso é um modo distintivamente moderno de acreditar, tanto como um produto do iluminismo quanto um certo tipo de ateísmo. É óbvio que a opiniões morais e teológicas linhas-duras de Pio são formadas em contrariedade ao egoísmo de seus pais hippies – sinônimo para revolução sexual e as piores tendências desta geração. Deveríamos nos sentir tentados às crenças do papa. Não é compreensível que ele assuma uma postura conservadora em relação ao sexo e à família, dado o histórico de sua própria infância? Não é uma contracultura audaz sustentar absolutos em meio à ditadura do relativismo? São perguntas que o programa nos pede que não descartemos de imediato. É também por que o papa é jovem. Pio não é um velho vacilante, mas um padre bastante belo, atraente, uma pessoa na cúspede da meia-idade. Ele não crê no que faz por meio da simples inércia e ignorância. Sabemos que algo de errado aconteceu com o mundo, e ele tenta pelo menos nos dizer o que é.

É claro que não devemos pensar que o tradicionalismo de Pio seja, realmente, viável, mesmo se compreendamos o charme deste mesmo tradicionalismo. Serve, isto sim, como um veículo para explorar outras ideias. Parece que Pio está, ao mesmo tempo, em descompasso com o mundo moderno e, pelo mesmo motivo, parece que é um observador afiado dos modos deste mundo. Ele tem o apelo do silêncio e mistério nestes tempos hiperconectados.

O que finalmente conquista a admiração e a afeição de Pio são dos eventos inesperados: o discurso que profere na África em que, de forma comovente, pede aos ouvintes que olhem para o próximo com “os olhos da alegria” e, no penúltimo episódio, uma tentativa fracassada de chantagem. Quando a revista New Yorker publica as cartas de amor dele enviadas a uma garota na Califórnia – cartas que ele nunca enviou –, o caso não prejudica o papa, mas permite que o mundo o veja de uma maneira renovada. E parece fazer mais do que isso, na verdade: Pio se transforma numa figura de esperança, um alguém que atrai uma enorme multidão, que aguarda as suas palavras de conforto. Quando se põe diante do povo, ele lhes diz para sorrir.

Os cristãos afirmam que Deus é amor. “The Young Pope” me tem feito pensar um pouco mais sobre isso, e sobre como o amor divino é, muitas vezes, experienciado e refratado através do amor que nos é mostrado, ou não, pelas pessoas com as quais compartilhamos a vida.

Dominic

Então, Matt, chegamos ao fim, cinco semanas e dez episódios mais “velhos”, embora não necessariamente mais sabedores. Dados os lembretes periódicos do desejo natural por uma teoria unificadora, irei sucumbir a ele e apresentar a minha própria teoria sobre “The Young Pope”. Nós, e por “nós” quero dizer o público que assiste ao programa, somos Girolamo, o menino deficiente que o Cardeal Voiello acompanha com tanto carinho: não plenamente cientes de tudo o que está se passando; dependentes das atualizações e explicações de um emissário de um mundo por nós desconhecido; por vezes não compreendendo o que está sendo revelado, mas também às vezes ficando um tanto chateado e mesmo apáticos; ocasionalmente chocados com o que aprendemos.

Para mim, dois momentos nas partes finais da temporada ajudam a cristalizar essa noção: o estouro de riso de Girolamo com a profanidade de Voiello deixa escapar; e quando Voiello, numa cena digna de Laurence Sterne, anuncia a Girolamo que irá revelar o destino de Tonino, o pastor estigmatizado porque “é claro que se trata de uma das coisas sobre as quais temos nos perguntado”, somente para reconsiderar e declarar que, obviamente, ele não pode revelá-lo, e que é apenas uma coisa (e, portanto, existem outras) que terá de continuar sem explicação.

Como falei, talvez não tenhamos chegado até aqui mais sabedores. Há algum jeito de antevermos um fim para esta série?

Para mim, de longe o penúltimo episódio é o mais convincente, coerente e comovente. Talvez porque se centrou principalmente em um único personagem com um desafio dramático claramente identificado e tensamente retratado a cumprir. Talvez não tenha sido coincidência que este personagem não é o Pio XIII, de Jude Law. A história da viagem de Gutierrez a Nova York para buscar o pedófilo Kurtwell, arcebispo, lembrou Marlow e Kurtz, dando provas da sedução persistente de “Heart of Darkness” como uma fonte material. Confiado com a missão, o recluso alcoólatra, agorafóbico da Cidade do Vaticano, torna-se, em Nova York, num detetive silenciosamente perspicaz, quem, se a tarefa durasse por muito mais tempo, poderia ter desenvolvido uma apavorante fadiga mundial. Em outros momentos, ele evoca o Pe. Damien Karras, do filme “O Exorcista”, um herói duvidoso. Guarda recortes de jornais sobre casos antigos de abuso; passa suas horas solitárias patinando no gelo; geme despenteado em seu quarto; recruta um informante...

Na verdade, o verdadeira clímax – satisfatório, surpreendente e completamente plausível no contexto da narrativa – acontece com a revelação do esquema de chantagem de Kurtwell: as supostas e escandalosas cartas de amor de Pio XIII nunca foram enviadas. Se tivessem sido, diz o editor da publicação a que Kurtwell quer vendê-las, então não seriam escandalosas; são literatura.

Encerrando a montagem: uma capa da revista New Yorker estampa “Cartas de Amor do Papa Pio XIII”, em seguida uma tomada de uma mulher não identificada observando as páginas, segurando três laranjas com as mãos e fazendo malabarismo diante dos filhos sorridentes (lembremos o malabarismo com laranjas que Lenny executa no começa da temporada).

Só havia mais um episódio para ir ao ar. O final se pareceu mais com o fim de uma série, e não exatamente com o final de uma temporada (sabemos que “The Young Pope” estará de volta). O pior: a dança alegre da Irmã Mary dentro de um círculo de crianças africanas. Pairando sobre tudo aqui estava o “amor” que as cartas de Pio publicadas desencadearam em todo o mundo.

Será que elas também desencadearam algo em Lenny? O ponto alto de sua mui aguardada audiência pública (em Veneza) é a alegre admoestação que profere para que os ali presentes “sorriam”. Se eu tivesse de impor as minhas próprias esperanças e os meus próprios sonhos em tais momentos, diria que essa cena faz lembrar as palavras do Papa Francisco sobre servir com alegria, não com carranca. Juntamente com a audiência que Lenny dá a Spencer sobre ter compaixão ao considerar o aborto, e o aceno que ele dá a Gutierrez reconhecendo que a pedofilia nada tem a ver com homossexualidade, podemos estar diante do surgimento de um Pio compassivo, com uma maior inclinação pastoral – e, assim, talvez com um apoio tácito a uma Igreja mais pastoral, misericordiosa e compassiva.

Apesar das queixas que fiz nestas últimas semanas em torno de “The Young Pope”, admito ter desenvolvido um certo carinho pela série. Foi legal me envolver na antiga prática de “parar para assistir um determinado programa”: estes longos episódios todos os domingos e segundas-feiras à noite me ofereceram uma pausa bem-vinda dos desdobramentos do mundo real que, a cada dia, ficam mais angustiantes. Parte do acordo foi não ter ideia alguma a esperar; a série de desdobrou sem eu ter um mapa previamente conhecido. Foi isso o que a fez um verdadeiro desastre em alguns momentos, enfadonho em outros e tão estranhamente boa em outros. No pior dos casos (rejeição eventual de tramas e personagens; a significação sem explicação do canguru, e sai morte também inexplicável; o clichê de temas de abandono dos pais), a série não só foi risível, mas pior ainda: esquecível. No melhor dos casos – Silvio Orlando como Voiello, a cinematografia de uma beleza inesperada, assombrosa, com um humor bizarro –, a série lembra (como já disse nessa série de debates) Fellini ou David Lynch. A cena final – um panorama sem fim focando Pio na varanda subindo aos céus, e a terra ficando infinitesimalmente pequena –, de fato, pareceu correta. Sabemos que Pio, agarrando o seu coração, não pode estar morto, pois há uma segunda temporada por vir. Mas... e se ele tiver morrido? Girolamo quer saber.

Assista ao trailer:

Nota da IHU On-Line: A série pode ser vista clicando aqui.

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