"The young pope": a solidão da fé em Sorrentino e a luz de Caravaggio. Artigo de Alberto Melloni

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21 Outubro 2016

"Ao contrário de grande parte do cinema e da literatura que explora os vínculos apenas para contar a sua inconsistência banal, Sorrentino sempre tentou entender como é ‘possível’ a solidão irremediável até mesmo onde há uma ‘plenitude’. Como agora, na plena religiosidade de The young pope, o papa que se subtrai da visibilidade e da fé, em um desígnio repugnante ao qual, pouco a pouco, personagens e espectadores se rendem, quase até torcer por Lenny, antes de um final que promete muitos desdobramentos."

O comentário é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 20-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Para desfrutar de The young pope, o longa-metragem de Paolo Sorrentino disfarçado de série televisiva, seria preciso, primeiro, ir ver a vocação de Mateus de Caravaggio, na Igreja de San Luigi dei Francesi, em Roma. Uma obra-prima que dispõe os personagens em torno da luz que parece quase criá-los e que, quando as lâmpadas focais se apagam, reaparece, lentamente, na penumbra, como naquele hino matinal das freiras de Vitorchiano que dizia que "vestidas de luz e silêncio as coisas se despertam da escuridão como era no princípio do mundo".

E mesmo a um leitor ingênuo e inexperiente como eu, parece muito claro que tudo, até mesmo o contraste dos trajes dos personagens, serve para dizer que o coração da obra não é um Jesus perfeitamente identificado com os modelos da arte "sacra", muito menos os transeuntes colocados em outro presente, mas a luz, somente a luz. Eu o sugiro porque, para mim, essa obra serviu de viático em uma série de encontros e intercâmbios que me permitiram, com alguma distância e intermitência, ver nascer The young pope, graças à confiança de Paolo Sorrentino.

Um amigo muito querido foi o discreto fiador, marcando um encontro comigo, há quase dois anos, junto com um acompanhante dele, não mais bem identificado. Lugar marcado, o hotel Santa Chiara de Roma: sede de nascimento do Partido Popular de Sturzo e lugar que, quando o Ministério da Educação estava na Piazza della Minerva, fazia com que um irônico Croce dissesse que, talvez, era por causa da sua concentração ali em busca de favores que os professores universitários eram abordados sendo chamados de "claríssimos".

Mas, tendo errado os cálculos, como sempre acontece em Roma, sobrava-me tempo para chegar a San Luigi dei Francesi, para rever Caravaggio. E, assim, não cheguei tarde ao compromisso, em que descobri que o terceiro interlocutor da conversa seria Paolo Sorrentino. Que tinha na cabeça um filme, que hoje é The young pope: e do qual me falou de um modo que logo me fez conectá-lo com a obra-prima de Caravaggio.

Era o início do papado de Bergoglio, e a primitiva ideia do seu filme de 10 horas tinha sido preterida pela eleição de Francisco. Sorrentino tinha imaginado muito tempo antes, quando Bento XVI era reinante, que o "seu" papa devia ser um papa nos antípodas da realidade. O conclave o obrigava, assim, a reformular a proeminência narrativa a partir da qual começava o seu filme, percorrendo até o outro extremo em relação a Francisco o pêndulo do conclave.

Para fazer isso, ele buscava duas coisas para depositar a sua intuição criativa, que, como a luz em Caravaggio, precisava de exatidões e precisões inúteis em si mesmas. Eram-lhe necessários fragmentos de história e ortografias eclesiásticas para retratar o seu papa, Lenny Belardo, em uma tela de mais de 10 horas: mas o ponto daquela obra não seria nem a história nem os detalhes, que eram simplesmente os solventes para se lavar os seus pincéis interiores.

Assim, nos intercâmbios conviviais, na leitura dos roteiros dos cinco blocos narrativos, nos telefonemas, parecia cada vez mais evidente até mesmo para a minha ingênua e inexperiente leitura do trabalho cinematográfico que Sorrentino não se importava nada com o papa ou o papado. Esse objeto, ao contrário, só servia para estender sadicamente uma armadilha ao primeiro padrezinho complexado ou frágil, que diria poucas e boas ao achar desagradáveis ou "irrealistas" certas cenas: porque ao infeliz toda essa história irá lhe pedir para dizer se o nariz de Deus de Rembrandt é realista ou se as bocas do Inocêncio X de Bacon são exatas. Ficando claro que nem Bacon nem Rembrandt se interessam por isso; assim como Sorrentino não se interessa.

Para Sorrentino, é evidente que aquilo que ele perimetra é a "grande feiúra" que povoa a paisagem interior de homens e mulheres em que a dor cavou cisternas de indiferença e necessidades de amor que nem mesmo a perversão do poder e do sexo sabe mais preencher. A grande feiúra da solidão tem um ponto extremo e revelador na orfandade – que é o destino daqueles que têm pais abençoados por Deus. E, depois, se despedaça em cascata nas solidões, lidas dentro das "sorrentinices" (que, no "papa jovem", não faltam, tendo à disposição o imaginário dos palácios e dos jardins vaticanos).

Ao contrário de grande parte do cinema e da literatura que explora os vínculos apenas para contar a sua inconsistência banal, Sorrentino sempre tentou entender como é "possível" a solidão irremediável até mesmo onde há uma "plenitude": o pleno poder do Divo (fácil); o pleno esteticismo de Jepp (menos fácil); e agora a plena religiosidade de Lenny, o papa que se subtrai da visibilidade e da fé, em um desígnio repugnante ao qual, pouco a pouco, personagens e espectadores se rendem, quase até torcer por Lenny, antes de um final que promete muitos desdobramentos.

Assim como o Divo não era um filme "sobre" Andreotti, mas "através" de Andreotti e, portanto, sem qualquer obrigação reconstrutiva; ou assim como "A grande beleza" não era um filme sobre Roma, mas sobre uma Roma vazia; ou Youth não falava da velhice, mas do corpo; assim também The young pope não é um filme sobre o papado.

Embora sempre haja em cena o Palácio e a Corte, em um Vaticano abalado com a escolha do novo pontífice de se tornar invisível, através de Jude Law surpreendentemente credível e um Silvio Orlando soberbamente rebaixado no papel de um secretário de Estado que, com a devoção pós-maradoniana pelo Napoli e o santo cinismo do homem de aparato, deve gerir a metamorfose autoritária do homem que ele fez se tornar papa.

Já se percebia que seria assim desde os roteiros: mas, depois, quando o filme se tornou tal, a percepção se tornou experiência. Que, para este que escreve, se consolidou no privilégio de vê-lo por inteiro, em uma tarde quente e uma noite romana, com um mínimo de gêneros de conforto à disposição: 12 horas passadas sem esforço, porque, embora na constrição da tela pequena, a força do relato capturava até mesmo aqueles que sabiam como iria terminar. Se vai provocar o mesmo efeito aos espectadores, saberemos em breve.

E também saberemos como uma consciência católica superficialmente papista como a italiana e instintivamente antipapista como a estadunidense vão reagir a um filme que, para contar a solidão na fé, não hesita em retratar a mesquinha escuridão que a cerca. O desafio e a armadilha não são pouca coisa: e um ponto de detalhe me confirmou isso.

Quando revi o filme inteiro, um detalhe me chamou a atenção: a batina de Pio XIII, a partir de um certo ponto, não é a branca que estamos acostumados a ver: ela traz um gracioso bordado dourado nas lapelas, que não me parecia jamais ter visto e que constitui um pequeníssimo erro gramatical icônico. Desejado? Talvez nem mesmo Sorrentino saberia dizer: depois, eu voltei a Caravaggio para rever aquela pluma que decora o chapéu e entendi tudo.

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