Respeita a nossa existência ou aguarda resistência. Histórica mobilização de mulheres em Washington contra o presidente Donald Trump

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23 Janeiro 2017

“Este é um dia marcado pelo pedido de justiça, igualdade e democracia na maior marcha de mulheres de que se tem memória”, escreve Claudia Salazar Jiménez, em artigo publicado por Página/12, 22-01-2017.

Claudia Jiménez é escritora peruana e vencedora do Prêmio Las Américas de Novela. Atualmente, mora nos Estados Unidos e conta sua experiência na marcha de mulheres em Washington em protesto contra o novo presidente estadunidense. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Janelas quebradas, latas de lixo queimadas, a polícia jogando gás lacrimogêneo contra os manifestantes. Algumas ruas de Washington DC estavam completamente tomadas pela fumaça e as pessoas saíam correndo desordenadamente. O excesso de frustração após o juramento de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos ao meio-dia de 20 de janeiro.

Este foi um panorama muito diferente daquele do dia de ontem. Um dia marcado pelo pedido de justiça, igualdade e democracia na maior marcha de mulheres de que se tem memória. Esperava-se a participação de cerca de 200 mil pessoas, mas as primeiras contagens afirmavam que o número não ficaria abaixo de 500 mil e que provavelmente se aproximaria do milhão. De acordo com o que pude ver, o milhão é um número mais perto desta explosão de indignação e reivindicação. Um milhão de vozes.

O dia começou às 4h30 em Nova York, ainda com o céu escuro, quando pegamos os ônibus que nos levariam à marcha. Curiosamente, meu ônibus recebeu o nome de “ônibus dos artistas” e era um dos muitos que pegariam as estradas às 5 horas da manhã, em uma caravana repleta de feministas adormecidas. A chegada a DC estava programada para as 10h, hora oficial do início da marcha, com uma assembleia da qual participariam personalidades de renome, ativistas, artistas e celebridades.

De manhã, fomos surpreendidos em pleno tráfego da rodovia. A rodovia estava cheia de ônibus, que estavam lotados de pessoas com cartazes. Todos estavam indo à marcha! Talvez tenhamos sido acordadas pela velocidade do ônibus, a sensação de que avançávamos mais lentamente ou de que estávamos praticamente parados. Embora pareça contraditório, o corpo não se irrita apenas com a velocidade; também é suscetível a lentidão. A vida pede para continuar avançando.

E, de repente, uma maré rosada. A onda de “pussy hats” nos deu as boas-vindas a Washington. Muitas mulheres de diferentes cidades do país fizeram para si mesmas e para suas amigas e companheiras da marcha gorros de mil tons de rosa, com duas orelhinhas que simulavam um gato (também chamado “pussy” em inglês, palavra que também denomina os órgãos genitais, a “vagina”). Os pussy hats eram democráticos, não discriminavam pela idade, orientação sexual, raça; havia tantos tons de rosa quantos grupos de manifestantes. Pussy hats como resposta indignada à infeliz frase do agora presidente Trump, que disse se podia  iria “pegá-las [as mulheres] pela buceta”. Descemos do ônibus e um dos primeiros cartazes dizia “Não vai pegar nem merda”, em letras douradas, levado por três moças totalmente vestidas de gatas. Não apenas o gorro, mas as máscaras, a pose, as caudas, seus corpos gritando rotundamente NÃO! ao desprezo misógino manifestado por Trump durante a sua campanha eleitoral.

Outras amigas chegariam em seguida em outros ônibus, e confiávamos em nossos telefones e nas redes sociais para nos encontrar. Assim que nos dirigimos ao ponto de partida da marcha, no cruzamento da Avenida Independência com a Rua Três. A maré humana era impressionante, não apenas por sua quantidade, mas por sua diversidade. Os cartazes expressavam, em diversos tons e estilos, os pedidos e as preocupações de quem decidiu participar, colocar o corpo na capital do império.

A palavra “feminista” repetia-se em camisetas, banners, cartazes, desenhos. Não diziam que era uma palavra que provocava medo e até rejeição? “Meu corpo, minha decisão”, invocavam algumas jovens universitárias que vinham de Austin e marchavam para defender seu direito de escolher e ter acesso à Planned Parenthood, uma organização sem fins lucrativos que oferece o acesso à saúde reprodutiva das mulheres. Trump e os congressistas republicanos têm como alvo a retirada dos fundos do Estado que esta instituição recebe, o que deixaria sem cobertura mulheres de baixa renda.

“Somos velhas mulheres repugnantes” (Nasty old woman), reclamavam as camisetas rosadas de três senhoras que já eram veteranas nas lutas feministas da década de 1960 e que temem uma ameaça a estes direitos com o governo de Trump.

Se os pussy hats foram o objeto símbolo da marcha, a frase “Nasty woman) (mulher repugnante) transformou-se no emblema. Em plena campanha presidencial, Trump não soube o que responder às ideias de Hillary Clinton durante um debate e só conseguiu chamá-la de “Nasty woman”. A partir dali, o ‘repugnante’ foi recuperado pelos movimentos feministas e tornou-se um significante que as mulheres carregam com orgulho. “As mulheres repugnantes seguem lutando”, “As mulheres repugnantes conseguem fazer as coisas”, “Continua sendo repugnante”, e isso em cartazes e até faixas que usávamos como se fôssemos ganhadoras de concursos (abjetos) de beleza.

A maré humana não nos permitiu chegar ponto de partida da marcha, pois foi se tornando sempre mais compacta à medida que nos aproximávamos da Avenida Independência. Pela Rua Três foi impossível, assim que tentamos pela Rua Seis, onde colocaram um enorme telão. Nesse momento, falava Gloria Steinem, um dos luminares do feminismo estadunidense, tomada também ela por essa multidão que continuava aumentando e a aplaudia. Em seu discurso reconheceu a forte energia dos manifestantes, a resposta clara ao novo presidente. Mais aplausos. E disse também algo fundamental, que é importante estar presente com o corpo e não dar apenas “clics”. Mais aplausos. Nesse momento, me dei conta de que não havia cobertura de internet. Como se fosse um conjuro da Steinem, não mais clics, nem tuítes, nem Facebook. Mas corpo. Pernas para continuar caminhando, pele para continuar enfrentando o frio, braços para levantar os nossos cartazes.

A Avenida Independência resistia, e já que era central no caminho da marcha, era preciso entrar nela. Enquanto isso, suas margens, as avenidas paralelas viam também a marcha sem as celebridades. Uma menina carregada nos ombros por seu pai trazia o cartaz “Basta. Eu sou suficiente”; uma mãe e sua filha compartilhando “Luta como uma menina”; um menino de olhos brilhantes reclamando “Protejamos os meninos trans”; a jovem afro-americana sem pussy hats, mas com o bigode desenhado no rosto; o menino de saia e seu “Beija-me, sou queer”; diversidade de reivindicações, diversos motivos pelos quais estávamos ali.

Paralelamente, a diversidade também se organizou em grupos de tambores. Um muito especial foi o Grupo Batalha, de DC. Ajeitou-se em um lado da calçada e, sob a direção de uma mulher que parecia ter saído de um filme hippie (vestido delicado, como não sentia frio?), impregnou o ar úmido da ressonância de seus tambores. Rápidos no início, e cada vez mais fortes, mais e mais até que os corpos se converteram em uma extensão dessas vibrações. Os corpos eram percussão e o frio virava em nada, ao passo que atrás da banda um cartaz resumia a cena: “Apenas amor”.

Outra tentativa para entrar na Independência; mas as margens já fizeram a sua parte: a marcha teve que mudar sua rota. Nesse momento, a internet foi reativada e entrou a mensagem de uma amiga: “Claudia, o que está acontecendo; estamos parados aqui. Estamos perto do palco”. Eu estava pronta para responder quando a rede caiu novamente. Houve um novo desborde.

Aconteceu que a rota preestabelecida não conseguiu nos conter. Nem os muçulmanos repetindo “Não somos terroristas”, nem os afro-americanos com seu combativo “Black Lives Matter”, nem os latino-americanos com cartazes escritos em espanhol “Os migrantes não são estupradores”. Menos ainda as crianças que corriam envoltas nas bandeiras do arco-íris e os milhares de homens que caminhavam ao lado de suas esposas, amigas, mães, avós, com cartazes “Eu apoio o que elas dizem” e setas apontando para todas nós que marchávamos. Ou aquele menino magro com pinta de roqueiro: “Os homens de qualidade não temem a igualdade”.

No seu ritmo pacífico, também houve espaço para o dissenso e as manifestações medievais em meio à marcha: grupos religiosos conservadores que nos chamavam de pecadoras e abominação, lendo em voz alta passagens bíblicas e ameaçando-nos para voltar ao nosso papel natural de mulheres santas, adjudicadas pelo bom Senhor dos céus, e cartazes repetindo a mesma coisa; aproximou-se uma mulher com flores e a frase: “Querido Branco supremacista patriarcal. Não somos nós, é você. Saia”. E a poucos metros, um deles carregando orgulhoso seu cartaz: “O feminismo é uma rebelião”. Todas passamos ao seu lado e fizemos uma foto com ele, sorridentes. Em sua ignorância conservadora, o cara disse tudo.

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