"Trump? Não o julgo. Interessa-me apenas se ele vai fazer os pobres sofrerem." Entrevista com o Papa Francisco

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12 Novembro 2016

Escrevo este artigo no dia seguinte à imprevista vitória eleitoral de Donald Trump contra Hillary Clinton. É um grande evento que ocorreu em um grande país democrático, com procedimentos democráticos, o que significa que a maioria dos eleitores escolheu um novo presidente para o sucesso de Barack Obama.

A reportagem é de Eugenio Scalfari, publicada no jornal La Repubblica, 11-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Não era possível fazer uma escolha política tão diferente. Ainda mais que Obama, por um mês, trabalhou duro em todas as principais regiões dos Estados Unidos em favor do Partido Democrata, por ele relançado desde a sua primeira campanha eleitoral que o levou à Casa Branca.

Trump não tem nenhum carisma e nenhuma competência política. A liderança lhe foi dada pelos eleitores, enquanto foi Obama quem convenceu os estadunidenses e o mundo ocidental inteiro. A diferença, portanto, é total.

Quanto a nós, europeus e italianos, a vitória Trump é catastrófica. Trump é o anjo branco, discute contra os establishments de todos os Estados americanos, contra todos os imigrantes e as suas famílias, e reforça todos os movimentos na Europa que se opõem aos VIPs e às classes dominantes dos seus países, fortalece Grillo, fortalece Le Pen, a Liga de Salvini e os partidos que determinaram o Brexit e os movimentos que, de direita e de esquerda, assediam a chanceler Angela Merkel.

Na Itália, ele deveria favorecer o "não" ao referendo desejado por Renzi, pois uma crise italiana beneficia a posição internacional que Trump defende. Quanto mais confusão houver por toda a parte, melhor para ele, que deve impor ao mundo inteiro uma nova estratégia de conflitos e de alianças.

Na Itália, esse risco poderia até aumentar o "sim", mas, ao mesmo tempo, reforça o "não" que colocaria o nosso governo em crise, com ainda mais dificuldade para resolvê-la. Uma crise italiana também poria em dificuldades a moeda comum, porque o nosso movimentismo, começando com Grillo, é decididamente favorável ao retorno a uma moeda local, colocando a zona do euro sob ataque também por parte dos países que nunca entraram nela, como a Polônia e os outros do Leste da União Europeia.

Essa minha breve premissa era necessária. O nosso jornal já contou e analisou todos os novos aspectos da situação que foi criada com a vitória Trump, e me parecia oportuno que eu também fizesse um exame, mas muito breve. O verdadeiro tema deste artigo, de fato, não diz respeito ao caso estadunidense, mas a um convite desejado por mim há muito tempo para um encontro com o Papa Francisco.

Eu tive com ele, na semana passada, um longo telefonema, porque Sua Santidade quis discutir comigo a visita que ele faria três dias depois à Suécia, com os representantes mundiais da religião luterana e da reforma da qual ela nasceu há meio milênio. Eu já relatei essa conversa, apenas para dizer que tenho a honra de receber telefonemas frequentes do Papa Francisco, mas não nos vemos pessoalmente há mais de um ano e, portanto, o seu convite me deixou feliz.

Encontramo-nos na segunda-feira, 7, e ficamos juntos por mais de uma hora. Dois dias antes, ou seja, sábado, 5, o papa tinha se encontrado com os representantes do Movimento Popular. Trata-se de um movimento que conta com centenas de milhares de adeptos nos principais países onde a presença cristã é muito generalizada.

O discurso do Papa Francisco a esses voluntários da fé ocupa seis páginas do L’Osservatore Romano. Naturalmente, dois dias depois, quando eu o encontrei, eu já tinha lido o texto integral daquele discurso. Várias vezes eu escrevi que Francisco é um revolucionário, mas, desta vez, muito mais do que revolução…

E agora vejamos como e por quê.

Eis a entrevista.

Abraçamo-nos depois de tanto tempo. "Vejo que o senhor está bem", disse-me ele.

O senhor também está muito bem, apesar das contínuas dificuldades da sua vida.

É o Senhor quem decide.

E "a nossa irmã morte corporal".

Sim, corporal.

Era a conversa que começava a entrar logo em profundidade.

Santidade – perguntei-lhe – o que o senhor pensa de Donald Trump?

Eu não faço julgamentos sobre as pessoas e sobre os homens políticos. Quero apenas entender quais são os sofrimentos que o seu modo de proceder causa aos pobres e aos excluídos.

Então, qual é, neste momento tão agitado, a sua preocupação principal?

A dos refugiados e dos migrantes Em pequena parte cristãos, mas isso não muda a situação que nos diz respeito, o seu sofrimento e o seu desconforto. As causas são muitas, e nós fazemos o possível para removê-las. Infelizmente, muitas vezes, são apenas procedimentos contrariados por populações que temem perder o emprego e que seus salários se reduzam. O dinheiro é contra os pobres, além de ser contra os imigrantes e os refugiados, mas também há os pobres dos países ricos, que temem a acolhida dos seus semelhantes provenientes de países pobres. É um círculo perverso e que deve ser interrompido. Devemos derrubar os muros que dividem: tentar aumentar o bem-estar e torná-lo mais difundido, mas, para alcançar esse resultado, devemos derrubar esses muros e construir pontes que permitam diminuir as desigualdades e aumentar a liberdades e os direitos. Mais direitos e mais liberdade.

Perguntei ao Papa Francisco se as razões que forçam as pessoas a emigrar se esgotarão mais cedo ou mais tarde. É difícil entender por que o homem, uma família e comunidades e povos inteiros queiram abandonar a própria terra, os lugares onde nasceram, a sua língua.

O senhor, Santidade, através dessas pontes a serem construídas, favorecerá a reagregação dos desesperados, mas as desigualdades nasceram em países ricos. Há leis que tendem a diminuir o seu porte, mas não têm muito efeito. Esse fenômeno nunca vai ter fim?

O senhor falou e escreveu várias vezes sobre esse problema. Um dos fenômenos que as desigualdades encorajam é o movimento de muitos povos de um país a outro, de um continente a outro. Depois de dois, três, quatro gerações, esses povos se integram, e a sua diversidade tende a desaparecer totalmente.

Eu chamo isso de uma mestiçagem universal, no sentido positivo do termo.

Bom, é a palavra certa. Eu não sei se será universal, mas, mesmo assim, será mais difundido do que hoje. O que nós queremos é a luta contra as desigualdades. Esse é o mal maior que existe no mundo. É o dinheiro que as cria e é contra aqueles procedimentos que tendem a nivelar o bem-estar e, assim, a favorecer a igualdade.

Há algum tempo, o senhor me disse que o preceito "Ama o teu próximo como a ti mesmo" devia mudar, dados os tempos escuros que estamos atravessando, e tornar-se "mais do que a ti mesmo". Portanto, o senhor anseia por uma sociedade dominada pela igualdade. Esse, como o senhor sabe, é o programa do socialismo marxiano e, depois, do comunismo. Portanto, o senhor pensa em uma sociedade de tipo marxista?

Muitas vezes foi dito, e a minha resposta sempre foi que, no máximo, são os comunistas que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade em que os pobres, os fracos, os excluídos, que sejam eles que decidam. Não os demagogos, não os barrabás, mas o povo, os pobres, quer tenham fé no Deus transcendente ou não, são eles que devemos ajudar para obter a igualdade e a liberdade.

Santidade, eu sempre pensei e escrevi que o senhor é um revolucionário e também um profeta. Mas eu acho que entendo, hoje, que o senhor desejaria que o movimento dos populares e, principalmente, o povo dos pobres entre diretamente na política propriamente dita.

Sim, é isso. Não no chamado politiquês, as disputas pelo poder, o egoísmo, a demagogia, o dinheiro, mas a política alta, criativa, as grandes visões. Aquilo que Aristóteles escreveu na sua obra.

Eu vi que, no seu discurso aos "movimentos populares" de sábado passado, o senhor citou o Ku Klux Klan como um movimento vergonhoso e, assim também, o de sinal oposto, mas análogo, das Panteras Negras [No vídeo e no texto que circularam na rede, inclusive nos disponibilizados pela Santa Sé, tais citações não constam em nenhum momento. Nota da IHU On-Line]. Mas citou Martin Luther King como admirável. Ele também é um profeta, que faz sentido por aquilo que dizia na América livre?

Sim, eu o citei porque o admiro.

Eu li aquela citação; penso que também seja oportuno recordá-la também para aqueles que leem este nosso encontro: "Quando te elevas ao nível do amor, da sua grande beleza e poder, a única coisa que buscas derrotar são os sistemas malignos. Amas as pessoas que caíram na armadilha desse sistema, mas tentas derrotar esse sistema [...] Ódio por ódio só intensifica a existência do ódio e do mal no universo. Se eu te golpeio e tu me golpeias, e eu te devolvo o golpe e tu também me devolves, e assim sucessivamente, é evidente que se continua até o infinito. Simplesmente nunca acaba. Em algum lugar, alguém deve ter um pouco de bom senso, e esta é a pessoa forte. A pessoa forte é aquela que pode romper a corrente do ódio, a corrente do mal".

E agora voltemos à política e ao seu desejo de que sejam os pobres e os excluídos que transformem aquela política de uma vontade democrática de realizar os ideais e a vontade dos movimentos populares. O senhor defendeu esse interesse pela política, porque é Cristo que a quer. "Os ricos deverão passar pelo buraco da agulha." Cristo quer isso não porque também é filho de Deus, mas principalmente porque é filho do homem. Mas haverá um confronto, no entanto, está em jogo o poder, o senhor mesmo disse, isso envolve a guerra. Portanto, os movimentos populares deverão sustentar uma guerra, mesmo que política, sem armas e sem derramamento de sangue?

Eu nunca pensei em guerra e armas. O sangue, sim, pode ser espalhado, mas, eventualmente, serão cristãos a serem martirizados, como está acontecendo em quase todo o mundo por obra dos fundamentalistas e terroristas do Isis. Os carnífices são horríveis, e os cristãos são as suas vítimas.

Mas o senhor, Santo Padre, sabe muito bem que muitos países reagem também com as armas para derrotar o Isis. Além disso, as armas também foram usadas pelos judeus contra os árabes, mas até mesmo entre eles.

Pois bem, não é esse tipo de conflito que os movimentos populares cristãos levam adiante. Nós, cristãos, sempre fomos mártires, mas a nossa fé ao longo dos séculos conquistou grande parte do mundo. É claro que houve guerras sustentadas pela Igreja contra outras religiões, e houve até mesmo guerras dentro da nossa religião. A mais cruel foi o massacre de São Bartolomeu e, infelizmente, muitas outras análogas. Mas ocorriam quando as várias religiões e a nossa, como e às vezes mais do que as outras, antepunham o poder temporal à fé e à misericórdia.

O senhor, porém, Santidade, incita agora os movimentos populares a entrar na política. Quem entra na política se confronta, inevitavelmente, com os adversários. Guerra pacífica, mas, mesmo assim, trata-se de conflito, e a história nos diz que, nos conflitos, está em jogo a conquista do poder. Sem o poder, não se vence.

Ora, o senhor esquece que também existe o amor. Muitas vezes, o amor convence e, portanto, também vence. Os católicos são um bilhão e meio; os protestantes das várias confissões, 800 milhões; os ortodoxos são 300 mil; depois há as outras confissões como os anglicanos, valdenses, coptas. Com todos eles somados, os cristãos chegam a dois bilhões e meio de fiéis, e talvez mais. São necessárias armas e guerras? Não. Mártires? Sim, e muitos.

E assim vocês conquistaram o poder.

Difundimos a fé, seguindo o exemplo de Jesus Cristo. Ele foi o mártir dos mártires e jogou na humanidade a semente da fé. Mas eu cuido muito para não pedir o martírio àqueles que se arriscam em uma política orientada aos pobres, pela igualdade e a liberdade. Essa política é algo diferente da fé, e são muitos os pobres que não têm fé. Mas têm necessidades urgentes e vitais, e nós devemos apoiá-los, assim como apoiaremos todos os outros. Como pudermos e como soubermos.

Enquanto eu o escuto, cada vez mais confirmo aquilo que eu sinto pelo senhor: houve poucos pontificados como o seu. Além disso, o senhor tem vários adversários dentro da sua Igreja.

Eu não diria adversários. A fé unifica a todos nós. Naturalmente, cada um de nós como indivíduos vê as mesmas coisas de um modo diferente; o quadro objetivamente é o mesmo, mas subjetivamente é diferente. Já dissemos isso várias vezes, o senhor e eu.

Santidade, talvez eu o segurei por tempo demais e agora lhe deixo.

Naquele ponto, nos cumprimentamos com um abraço cheio de afeto. Eu disse a ele para descansar de vez em quando, e ele me respondeu: o senhor também deve repousar, porque um não crente como o senhor deve estar o máximo possível longe da "morte corporal". Era o dia 7 de novembro.

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