O sol vai surgir novamente, mas em outra América. Artigo de Paolo Naso

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11 Novembro 2016

"A longa incubação da direita religiosa, nascida nos tempos de Ronald Reagan e que re-emergiu nos anos de George W. Bush, colhe hoje a sua afirmação mais significativa. Barack Obama tem razão ao dizer que amanhã o sol vai surgir de novo, mas isso vai acontecer em uma América muito diferente da que ele sonhou e parcialmente construiu em oito anos na Casa Branca."

A opinião é do sociólogo italiano Paolo Naso, da Comissão de Estudos da Federação das Igrejas Evangélicas na Itália e professor da Universidade de Roma "La Sapienza", em artigo publicado no sítio Notizie Evangeliche (NEV), 10-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Venceu a América profunda, aquela que as elites liberais não souberam compreender, e que nem mesmo a Europa intuiu. A inesperada vitória de Donald Trump narra as inquietações de um país que se sente frágil e assustado e que acreditou que, para resolver a sua crise, era necessário derrubar as escrivaninhas de Washington e do establishment consolidado em oito anos de governo democrata.

A essa vitória contribuiu determinantemente o voto evangélico, de acordo com algumas pesquisas superior a 85%. Estão em clara dificuldade as Igrejas protestantes históricas que, em matéria de ética e social, geralmente têm posições mais próximas às de Hillary Clinton. Mas a diferença, desta vez, foi do voto em avalanche da galáxia evangélica, que foi claramente favorável a um candidato politicamente incorreto, que usou expressões ofensivas contra as mulheres, que tem um preconceito negativo contra as minorias, que despreza os direitos reconhecidos aos gays, que ameaça uma política migratória de absoluto fechamento, até mesmo contra os 14 milhões de imigrantes irregulares que vivem e trabalham nos Estados Unidos.

Nessa galáxia – que se refere a Igrejas livres, independentes, carismáticas e a inúmeras mega-churches – ganharam força as promessas eleitorais de Donald Trump, que deu a entender que iria adotar a plataforma que, há décadas, as organizações da direita religiosa invocam, sem, no entanto, nunca terem conseguido um resultado.

Voltarão a estar em discussão a lei sobre o aborto, os direitos dos casais homossexuais, a pesquisa sobre células-tronco embrionárias, os vários temas relacionados com a política da família e do ambiente.

Principalmente, legitima-se um discurso público hostil às minorias religiosas e, especialmente, ao Islã. As frases repetidamente expressadas na campanha eleitoral levam a temer uma onda islamofóbica que não tem nada a ver com a tradição de liberdade e de pluralismo dos Estados Unidos. Em nome de pretensos valores históricos dos Estados Unidos, concebe-se uma política em matéria de liberdade religiosa claramente antiamericana, discriminatória e lesiva ao princípio fundamental de não ingerência do Estado na vida das confissões religiosas, cuja liberdade, em vez disso, é constitucionalmente tutelada.

Nessa fase, é difícil imaginar grandes mudanças de ordem jurídica e constitucional; porém, certamente é previsível uma significativa mudança no tom do debate público que vai se tornar cada vez mais preconceituoso e agressivo contra os cinco ou seis milhões de muçulmanos que vivem nos Estados Unidos.

Donald Trump reivindica um pertencimento à família presbiteriana, isto é, a uma tradição histórica do protestantismo estadunidense. Na realidade, as suas frequentações e a sua linguagem são mais as da direita religiosa e as daqueles lobbies que, desde os anos da presidência de Barack Obama, haviam entrado em um cone de sombra.

O presidente cessante, de fato, interpretava bem o testemunho de um cristão liberal, atento aos temas do ambiente, da solidariedade social, dos direitos de gênero e das minorias. É memorável o discurso proferido no Cairo, em 2009, no qual indicou o caminho do diálogo com o Islã como estrela-guia de uma estratégia de convivência e de combate ao radicalismo e ao fundamentalismo.

Se não as políticas, pelo menos imediatamente vai mudar de forma radical o discurso público e serão reabertas feridas importantes da sociedade estadunidense, em primeiro lugar a das tensões entre diversos grupos étnicos, questão que também tem implicações religiosas.

Os dados nos dizem que o eleitorado masculino e branco votou com percentuais muito altos em Donald Trump, enquanto as minorias preferiram especialmente a candidata democrata. Essa polarização poderia ter consequências preocupantes no plano de uma coesão social já duramente posta à prova pelos recorrentes conflitos de natureza étnica que eclodiram em inúmeras cidades estadunidenses.

Nesse quadro, o protestantismo histórico norte-americano – as chamadas mainline churches – parece estar em sérias dificuldades, distante do sentimento religioso e social de importantes setores da sociedade estadunidense. As posições liberais repetidamente assumidas sobre questões sensíveis hoje são evidentemente minoritárias na sociedade estadunidense, e é fácil imaginar que isso terá repercussões importantes no seu interior e no plano da sua estratégia de testemunho.

A longa incubação da direita religiosa, nascida nos tempos de Ronald Reagan e que re-emergiu nos anos de George W. Bush, colhe hoje a sua afirmação mais significativa. Barack Obama tem razão ao dizer que amanhã o sol vai surgir de novo, mas isso vai acontecer em uma América muito diferente da que ele sonhou e parcialmente construiu em oito anos na Casa Branca.

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