Uma votação polarizada entre evangélicos nos EUA

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10 Novembro 2016

Temas como direitos humanos, migrações, ambiente, paridade de gênero e direitos das minorias vão mudar radicalmente depois dessa eleição no discurso público. Nos Estados Unidos e no mundo.

A reportagem é de Matteo De Fazio, publicada no sítio Riforma, 09-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Donald Trump é o novo presidente dos Estados Unidos da América. "Devemos superar as divisões", foi uma das primeiras frases proferidas depois dos cumprimentos de Hillary Clinton pelo desafio na campanha eleitoral. Ainda é difícil, neste momento, imaginar que serão superadas as divisões e os muros, que o próprio Trump prometeu construir, tanto físicos quantos culturais.

Enquanto o mundo inteiro comenta os resultados da eleição, voltamos a refletir sobre o voto dos protestantes que, com as devidas distinções, foi atraído várias vezes pelos discursos e pelos raciocínios do candidato republicano.

De acordo com os resultados, o Bible Belt, a área cultural do sudeste dos Estados Unidos onde vive uma grande porcentagem de pessoas cristãs protestantes, em sua maioria evangélicas, apoiou Donald Trump completamente.

Distribuição dos votos na eleição de 2016 nos EUA (fonte: New York Times)

Continuamos o discurso iniciado antes da votação (em que também comentamos a pesquisa do início deste ano do Pew Research Center) olhando para os resultados junto com Paolo Naso, professor de Ciências Políticas e coordenador do mestrado em Religiões e Mediação Cultural da Universidade de Roma "La Sapienza".

Eis a entrevista.

À espera de dados mais precisos, já podemos interpretar as expressões dos evangélicos estadunidenses?

Eu acho que houve uma polarização extrema e radical, assim como na campanha eleitoral, uma radicalização entre os núcleo das Igrejas históricas, penso na Igreja Presbiteriana – à qual Trump, aliás, diz pertencer, mas não há documentos em evidência disso –, em alguns batistas, calvinistas, episcopalianos, luteranos, que, maciçamente, continuaram tendo uma opinião favorável ao Partido Democrata e a Hillary Clinton, e, por outro lado, o contexto das Igrejas evangélicas (a parte carismática, pentecostal, os newborns, ou as Igrejas livres) que, em vez disso, sob o apelo aos valores religiosos dos EUA concederam confiança a Trump, apesar de ser uma das pessoas, do ponto de vista biográfico, menos compatível com essa sensibilidade.

Uma polarização que diz respeito apenas à votação?

Uma votação polarizada que demonstra que a maioria do protestantismo estadunidense, nessa fase, está orientado mais para um vetor evangélico-carismático-livre e tendencialmente conservador, também de um ponto de vista teológico. Por outro lado, o núcleo histórico das Igrejas mainstream que têm fé em uma tradição diferente, que se expressou bem na presidência Obama, crente comprometido que vem justamente desse mundo.

A dimensão religiosa de Trump se expressou, principalmente, com temáticas ligadas ao medo, com a oposição de uma cultura sobre outra. Impressiona notar como o Bible Belt foi inteiramente favorável ao candidato republicano.

Isso não era óbvio. A personalidade e a biografia de Trump dificilmente são compatíveis com uma mensagem de rigor evangélico e cristão. É claro que ele se inspira em valores conservadores (família tradicional, não às famílias gays, não ao aborto e coisas desse tipo), opiniões que são muito caras à direita religiosa, evangélica, carismática e pentecostal, embora o seu estilo de vida parece ser incompatível com isso. Quando essa incompatibilidade veio à tona na campanha eleitoral, houve uma dupla inversão das cúpulas da direita religiosa: disseram que, no fundo, Abraão também tinha várias esposas, ou que o rei Davi não era um exemplo de lealdade exemplar em relação às mulheres, e assim por diante. Representaram Trump como um pecador, mas a altura dos grandes patriarcas bíblicos. Parecia uma tese improvável e ridícula, mas, evidentemente, esse tipo de raciocínio abriu caminho e levou a resultados relevantes.

Pesquisa boca de urna entre eleitores religiosos (fonte: Washington Post)

Falou-se das diferenças na votação entre campanhas e cidades, com grandes polarizações. A leitura superficial que poderia ser feita é "povo culto que vota nos democratas contra povo ignorante que vota nos republicanos". É simples demais reduzir tudo a esse dualismo?

Talvez não. Os Estados Unidos foram investidos por uma crise pesada, da qual saíram parcialmente, pensemos no resgate da indústria automobilística que se deve apenas a Obama. Aquele sonho americano que, nos anos 1970, 1980 e 1990, tornava possível a acumulação de fortunas enormes por parte de alguns setores da classe média: fortunas repentinas que não são mais possíveis. De repente, a classe média em crescimento, que parecia alcançar resultados econômicos únicos e excepcionais, encontrou-se em uma situação de crise. De quem é a culpa? De quem está no poder, foi o raciocínio, neste caso, dos democratas: a alternância pode levar os Estados Unidos a serem novamente grandes, como dizia o lema de Trump. Essa ilusão, o sonho vendido com base no princípio de votar em algo diferente, encorajou a atitude de quem assume como objetivo uma mudança, seja ela qual for. Falamos de pessoas que não conseguem articular uma análise mais sofisticada: se os mercados entraram em colapso, não é culpa de Obama, mas de uma economia mundial que mudou nos últimos anos, de novas consciências, como a ambiental: em um discurso simplificado, em vez disso, a responsabilidade é completamente de quem se senta em Washington. Nesse esquema, a contraposição entre pessoas cultas que conseguem entender a complexidade e pessoas que tendem a simplificar parece-me funcionar.

Alguns defendem que Clinton, para o Mediterrâneo, já fez danos, portanto, Trump é o mal menor. O que devemos esperar para esta área?

Pessoalmente, não acho que pode ficar pior. Não porque eu acredite que vai acontecer sabe-se lá qual revolução. O sistema estadunidense tem a sua solidez, portanto "o sol vai voltar a surgir amanhã", como disse Barack Obama. Eu não temo uma reviravolta política em sentido belicista ou internacional, mas vai mudar o discurso público mundial sobre temas decisivos. Temas como direitos humanos, migrações, ambiente, paridade de gênero, direitos das minorias no discurso público, nos Estados Unidos e no mundo, vão mudar drasticamente depois dessa votação. A partir desse ponto de vista, estamos diante de uma reviravolta, a pior do meu ponto de vista.

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