Trump & o 'Agnosticismo Constitucional' dos Bispos

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28 Outubro 2016

"O que há por trás desse fenômeno de "agnosticismo constitucional"? Primeiro, está o papel central de "valores inegociáveis" ao longo dos últimos anos e o abafamento das conferências episcopais de João Paulo II e Bento XVI" escreve Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado no sítio Commonweal, 25-10-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis o artigo.

A apenas duas semanas do fim da campanha presidencial, pode ser hora de os católicos terem uma quinzena de liberdade - não menos importante do que as outras quinzenas pela liberdade organizadas pela Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos desde 2012. Mas a quinzena que vai até o dia 8 de novembro terá de ser organizada pelo rebanho católico sem os seus pastores, que têm permanecido calados sobre a ameaça à democracia apresentada por Donald Trump. A explicação mais provável para o seu silêncio é o medo de até mesmo aparecer para endossar Hillary Clinton e as políticas de aborto do Partido Democrata. Mas eu acho que na ausência de comentários dos bispos há mais do que um ângulo de escolha contra ou a favor.

A Igreja Católica não tem sido capaz de provar que está confortável com a democracia de maneira definitiva e a contento de todos (é interessante que a aprovação do The New Yorker a Hillary Clinton destaca dois católicos, Pe. Coughlin e Joseph McCarthy, como "demagogos americanos do século passado que mais se assemelham a" Trump). Enquanto o sentimento anti-democrata entre os bispos de meados do século XX não está retornando, muitos no episcopado de hoje parecem engajados em uma postura estratégica (ou covarde) que poderia levar, a longo prazo, a uma renúncia silenciosa da política. O que há alguns anos atrás foi chamado de "agnosticismo institucional e constitucional" pelo historiador italiano da Igreja, Alberto Melloni, a respeito dos bispos italianos, agora parece aplicar-se também aos bispos americanos. Mas a situação nos Estados Unidos hoje é mais grave do que na Itália de Berlusconi de vinte anos atrás, por causa das diferenças entre Berlusconi e Trump, e por causa da diferença na importância global da Itália e dos Estados Unidos. E agora o agnosticismo constitucional dos bispos dos EUA parece estender-se à ameaça de Trump de não aceitar os resultados das eleições.

Este agnosticismo constitucional - a aparente indiferença do episcopado frente às regras básicas que regem a democracia, incluindo o Estado de direito - não se limita aos bispos dos Estados Unidos. Em países onde a igreja historicamente teve um papel importante na transição de regimes autoritários para democracias liberais, a liderança agora parece passiva (se não pior) em suas respostas aos danos causados pelas administrações atuais sobre o Estado de direito e sistemas saudáveis de freios e contrapesos.

Na Itália, por exemplo, o governo de Matteo Renzi propôs uma controversa reforma constitucional que será votada pelos italianos em referendo no dia 04 de dezembro, mas os bispos italianos decidiram não se posicionar porque não há "valores inegociáveis" em jogo, apenas regras constitucionais. Na Hungria, os bispos têm sido bastante complacentes frente aos gestos autoritários do primeiro-ministro Viktor Orban e seu discurso antirrefugiados, ao apoiar o político controverso a fim de repreender o Papa Francisco. Na Polônia, os bispos uniram-se ao governo em sua rejeição ao Papa Francisco e de qualquer resposta humanitária à crise dos refugiados.

O que há por trás desse fenômeno de "agnosticismo constitucional"? Primeiro, está o papel central de "valores inegociáveis" ao longo dos últimos anos e o abafamento das conferências episcopais de João Paulo II e Bento XVI. Isto levou os bispos a desenvolver uma atitude por vezes arrogante em relação à questão fundamental do aspecto processual da democracia liberal, como se o processo e o conteúdo constitucionais não tivessem relação; como se o constitucionalismo liberal levasse essencialmente e inevitavelmente à oposição da igreja aos "valores inegociáveis"; como se regimes não democráticos fossem respeitar mais esses "valores inegociáveis". Eu acredito que o foco em "valores inegociáveis" e, mais tarde, seu colapso (não provocado por Francisco, mas revelado em sua sinceridade usual quando ele disse que "nunca realmente entendeu a expressão 'valores inegociáveis'") têm enfraquecido significativamente a voz do magistério. Este é um legado do ensinamento complexo de Bento XVI sobre a política, especialmente em alguns países ocidentais onde as derrotas das guerras culturais, a ascensão do Islã como uma questão de política interna relacionada à segurança nacional e a crise dos refugiados, resultaram em uma reflexão interna nos episcopados católicos. Os bispos da Alemanha e da França estão entre as exceções, enquanto a falta de posicionamento dos bispos do Reino Unido sobre o Brexit parece mais problemática para mim. Se o populismo e o neo-nacionalismo são as características que definem esse momento político, me parece que alguns episcopados católicos disseram muito pouco, porque eles sabem que muitos católicos partilham estes sentimentos populistas e neo-nacionalistas, e porque temem uma onda de populismo mesmo dentro da igreja e contra as elites clericais da igreja.

Depois, há a cultura política dos bispos, que detém um poder monárquico e monocrático em suas dioceses, mas que agora trabalham menos em conjunto, como uma conferência nacional, (e em questões menos importantes) do que antes. Assim como as instituições, as conferências episcopais são relativamente novas, tendo surgido principalmente com o Vaticano II. Mas o desenvolvimento da cultura política dos bispos, de agir colegialmente dentro da igreja, na segunda metade do século XX, foi o mesmo desenvolvimento da cultura política dos países em transição para a democracia na Europa e em outros lugares, dos países em descolonização durante a década de 60 e de países que se tornaram democráticos após o Concílio Vaticano II (como a Espanha). Durante as duas últimas décadas, no entanto, como a cultura da colegialidade foi enfraquecida por razões eclesiológicas, através de uma recentralização do governo da igreja (ver motu proprio Apostolos Suos, de João Paulo II, em 1998), o ethos democrático dos bispos também foi enfraquecido. Neste sentido, o apelo do Papa Francisco para uma igreja mais colegial e sinodal contém uma mensagem política clara que é "contra-cultural" (se realmente quisermos usar esse termo), não só em termos globais, de acordo com o que Francisco chama de "paradigma tecnocrático", mas também para a cultura política de muitos bispos católicos.

Também é interessante ver, em contraste com o enfraquecimento do espírito colegial entre os episcopados, a tendência das ordens religiosas em eleger seus superiores da América Latina, África e Ásia - não apenas o recém-eleito superior geral dos jesuítas, mas também dos salesianos, dos dominicanos, dos Padres Combonianos, dos Padres Brancos, entre outros. As ordens religiosas governam-se com um sistema que é diferente da igreja territorial, mais colegial e representativo de um catolicismo mais internacional e internacionalista; eles parecem ser menos impregnados das guerras de cultura e seu fracasso; eles parecem estar mais conscientes dos lugares onde a democracia e as eleições estão em jogo, e mais livres para se posicionar sem ser identificados com a Igreja institucional. Basta comparar as declarações dos bispos dos EUA sobre a eleição americana com as dos Padres Paulistas e as da Conferência de Liderança de Mulheres Religiosas, a LCWR. Na Itália, os jesuítas da Civiltà Cattolica têm sido muito mais ativos que os bispos na promoção de um debate substancial sobre o referendo constitucional. A igreja global do Papa Francisco - colegial, sinodal, menos focada em questões biopolíticas, com um papel maior para com as ordens religiosas - é também uma resposta ao catolicismo ocidental politicamente complacente e suas medalhas de contra-culturalismo concedidas por eles mesmos.

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