As Igrejas reformadas "filhas" da Reforma de Lutero: um movimento centrífugo

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26 Outubro 2016

Na linguagem comum e mais generalizada, são chamadas de "Igrejas reformadas" as comunidades religiosas cristãs não católicas que remontam, de uma forma ou de outra, à Reforma iniciada com as posições e as teses de Martinho Lutero (31 de outubro de 1517) [1].

A reportagem é de Luis Badilla e Francesco Gagliano, publicada no sítio Il Sismografo, 23-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Essa definição genérica, porém, deve ser articulada com precisão no tempo, de Lutero até hoje, pois não se trata de uma afirmação totalmente precisa. Além do primeiro movimento, do próprio Lutero, que se expandiu de forma relativamente rápida na Alemanha e na Escandinávia, deve ser lembrada a segunda grande corrente do primeiro protestantismo, na Suíça, com os seus três grandes nomes: Ulrich Zuínglio, Guilherme Farel e João Calvino. Depois, haveria a terceira corrente: o anglicanismo.

As correntes principais, mais difundidas no mundo e mais conhecidas são:

  • Calvinismo
  • Igreja Evangélica Valdense
  • Igrejas Evangélicas
  • Reformadas Batistas
  • Igrejas Protestantes
  • Anglicanismo
  • Presbiterianismo
  • Protestantismo
  • Reforma Protestante
  • Zuinglianismo

As Igrejas Reformadas, não centralizadas, não têm uma homogeneidade organizacional entre si, porque, apesar das diversas coordenações, atuam de forma independente em nível local (regional ou nacional) através de sínodos, associações ou assembleias.

Os reformadores: Lutero, Zuínglio, Farel e Calvino

"Logo a doutrina luterana se tornou uma arma de revolta política: os príncipes alemães abraçaram a sua causa vendo a possibilidade, com o apoio ao luteranismo, de destruir o esquema medieval que os subordinava ao imperador e de embolsar, não reconhecendo a autoridade da Igreja de Roma, os bens eclesiásticos. Seguindo o exemplo do ducado da Prússia, que, sendo domínio religioso da ordem dos Cavaleiros Teutônicos, foi secularizado com a passagem para o luteranismo do grande mestre da ordem, Alberto de Hohenzollern, os príncipes alemães aproveitaram a oportunidade para combater Carlos V enquanto ele estava envolvido nas lutas contra a França. À Dieta de Speyer (1529) e à de Augsburg (1530), seguiram-se a Liga de Esmalcalda (1530) e, depois, a luta aberta pelo imperador até a paz de Augsburg (1555), com o reconhecimento do luteranismo e da liberdade de seguir a religião tanto católica quanto luterana. A propagação do luteranismo e do calvinismo foi rápida na Europa:. a Igreja Luterana se afirmou principalmente na Alemanha e nos países escandinavos; mais fraca foi a difusão na Polônia e na Boêmia. O calvinismo penetrou rapidamente em países econômica e socialmente mais avançados, como os Países Baixos, onde a rica burguesia mercantil defendeu a liberdade de culto, junto com os seus privilégios e as suas autonomias, contra o centralismo de Filipe II. Ele também foi abraçado por uma grande parte da nobreza francesa, húngara, polonesa, colhendo sucessos junto aos reis de Navarra (1558), na Alemanha ocidental e, por obra de John Knox, na Escócia: a história do calvinismo se entrelaçou com longas lutas políticas, das quais os momentos de maior destaque são representados pelas guerras religiosas na França (1562-1598) e pela guerra de libertação contra a Espanha na Holanda" (Treccani).

* * *

Suíça – França

Na Suíça, "primeiro Ulrich Zuínglio (1484-1531) convenceu, em 1523, os magistrados de Zurique a adotarem 67 teses que superam Lutero em radicalismo, negando, particularmente, qualquer forma de presença real na eucaristia e promovendo um culto mais despojado e austero. Outras cidades suíças – incluindo Berna e Basileia – seguiram Zurique na Reforma, mas a reação católica se traduziu em uma guerra na qual Zuínglio encontrou a morte em 1531.

"Zurique permaneceu protestante sob a liderança de Heinrich Bullinger (1504-1575), e a Reforma se estendeu aos cantões de língua francesa graças a b (1489-1565) e João Calvino (1509-1564), ambos de origem francesa. Em Genebra, reformada desde 1535, Calvino exerceu de 1541 ao ano da sua morte, 1564, uma autoridade – pelo menos moral – sem precedentes. A expansão na França foi detida por uma violenta e às vezes sangrenta reação católica, mas, no país, enraizou-se mesmo assim uma minoria reformada – chamada de "huguenote" – presente ainda hoje. Calvino e Bullinger concordaram sobre uma doutrina da presença espiritual do Senhor na Ceia eucarística, um consenso – aliás – que os manteve separados dos luteranos. A ênfase na doutrina da predestinação também conferiu às comunidades reformadas uma característica distintiva.

"Na Suíça, os reformados elaboraram um modelo de Igreja em que a autoridade não reside nos bispos, mas em um colégio misto de pastores e leigos no modelo do ‘Concistoire’ de Genebra. Na Grã-Bretanha, a corrente reformada se divide em uma ala ‘presbiteriana’ e em uma ‘congregacionalista’ – em que a autoridade última reside na congregação local, em uma situação de igualdade radical entre pastores e leigos –, e essa distinção se transferiu para o Estados Unidos. John Knox (1505-1572), que tinha sido aluno de Calvino em Genebra, conquista a Escócia ao calvinismo" (Cesnur).

Anglicanos: Inglaterra – Novo Mundo

"Na Inglaterra – diante da reforma anglicana (1532) [2] – os calvinistas propugnam uma Igreja ainda mais "purificada" dos resíduos católicos e, por isso, são chamados – originalmente em sentido pejorativo – de "puritanos". Perseguidos em sua pátria, os puritanos emigraram para as colônias americanas, a partir dos famosos "padres peregrinos" que, em 1620, partiram a bordo do Mayflower. Nem todos, porém, haviam partido. A minoria reformada que permaneceu na Inglaterra constituiria a espinha dorsal de um movimento de oposição ao absolutismo real sancionado pela Igreja Anglicana.

"Esse movimento levou, em 1643, à abolição do episcopado na Inglaterra e, em 1645 – depois da vitória de Oliver Cromwell (1599-1658) à frente de uma coalizão composta por diversos grupos de dissidentes religiosos – à constituição do Commonwealth, que, depois de executar em 1649 o rei Carlos I (1600-1649), aboliu a monarquia. Depois da morte de Cromwell, em 1658, os presbiterianos, mais moderados do que os congregacionalistas, favoreceram o retorno da monarquia em 1660. Presbiterianos e congregacionalistas foram ‘tolerados’ na Inglaterra a partir de 1689 (Act of Toleration), mas a Igreja Anglicana continuou sendo a Igreja nacional.

"Além da Escócia e de alguns cantões suíços, as comunidades reformadas constituíam no século XVII a religião de Estado na Holanda, ou seja, nas Províncias Unidas protestantes que, em 1579, tinham se separado das províncias meridionais católicas fiéis à Espanha, que correspondem em grande parte à atual Bélgica. Em 1618, na Holanda, o Sínodo de Dort condenara o professor de Leiden, Jacob Arminius, pelas suas ideias revisionistas sobre o tema da predestinação. A condenação de Arminius – cujas ideias seriam parcialmente retomadas pelos metodistas – ressaltava como a doutrina da predestinação permanecia central para as comunidades reformadas.

"No século XVIII – muito frequentemente identificado com um protestantismo de Estado frio e formalista – o mundo reformado foi abalado por fenômenos de avivamento, a partir do fenômeno liderado nos anos 1730 nos futuros Estados Unidos por Jonathan Edwards (1703-1758). No século XIX, o avivamento se estende a todas as comunidades reformadas europeias e penetra também na Igreja Valdense.

"O mundo reformado viveu, a partir do século XIX, um processo de reunificação confessional. A primeira etapa foi a Aliança Mundial das Igrejas Reformadas, inicialmente composta apenas por presbiterianos e que, a partir de 1975, acolheu também congregacionalistas. Em 2010, esse órgão se fundiu com o Conselho Ecumênico Reformado (REC) dando origem à Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas (WCRC). Nos Estados Unidos, depois de uma série de fusões – que superaram também as divisões que tinham sido produzidas na época da Guerra Civil –, em 1983, formou-se a Igreja Presbiteriana, que, com mais de 2,5 milhões de membros, é a maior comunidade reformada estadunidense, seguida pela United Church of Christ, que conta com 1,5 milhão de membros, esta também resultado de uma série de fusões em cujas origens se encontra uma série de grupos congregacionalistas.

"São muito fortes as Igrejas ‘de missão’, especialmente na Coreia, Indonésia, África do Sul, Malawi, Congo e Camarões. No mundo, os reformados são cerca de 70 milhões, mas – como para os luteranos – trata-se, particularmente na Europa, de fiéis muitas vezes apenas ‘nominais’. Continuando, no entanto, na tradição de Calvino, as comunidades reformadas ofereceram no século XX ao mundo protestante alguns dos seus intelectuais e teólogos mais influentes, incluindo o suíço Karl Barth (1886-1968) e o estadunidense Reinhold Niebuhr (1892- 1971)" (Cesnur).

Síntese

- Luteranos. As Igrejas pertencentes a essa família preferem ser chamadas simplesmente de "evangélicas" ou "Igrejas da Confissão de Augsburg", ainda mais que Lutero mesmo havia proibido de dar o seu nome às comunidades inspiradas pelo seu pensamento. No entanto, o termo "Igreja Luterana" já entrou no uso comum. A Federação Luterana Mundial (Lutheran World Federation, LWF), que tem sua sede em Genebra (Suíça), reúne 140 Igrejas, representando 78 países (66 milhões de protestantes luteranos) e nasceu em Lund (Suécia), há 69 anos (1947).

- Reformados. As Igrejas reformadas, ao contrário das luteranas e anglicanas, são compostas hoje por um mosaico composto de realidades diferentes entre si. Estão presentes em 108 países do mundo e contam com 80 milhões de membros, distribuídos entre Igrejas presbiterianas, reformadas, congregacionalistas, unidas ou unificadas, aderentes da World Communion of Reformed Churches. A difusão maior ocorreu fora da Europa, particularmente na África (25 milhões) e Ásia (20 milhões, concentrados principalmente na Coreia do Sul e Indonésia). Na Europa, os reformados são 18 milhões, a maioria dos quais na Alemanha, Países Baixos e Suíça, enquanto na América do Norte são 14 milhões.

- Anglicanos. O pertencimento das Igrejas da Comunhão Anglicana ao protestantismo ainda hoje é objeto de debate. Se as raízes da autonomia da Igreja da Inglaterra se encontram na Magna Carta (1215) que estabelecia a independência da sede arquiepiscopal de Canterbury tanto do papa quanto do rei, esta foi afirmada com o Ato de Supremacia (1534), na qual o Parlamento declarava o rei Henrique VIII (e, depois dele, os seus herdeiros e sucessores) "chefe supremo da Igreja da Inglaterra". |Apenas posteriormente, de forma gradual e parcial, penetraram na sua teologia alguns princípios do protestantismo. Depois de 1688, uma grande parte dos anglicanos ingleses partiram, formando outros grupos (presbiterianos, congregacionalistas, batistas, quakers e, posteriormente, metodistas). Dentro do anglicanismo, permaneceram apenas as partes mais moderadas e conservadoras. A formalização da Comunhão Anglicana (Anglican Communion), sob a presidência do arcebispo de Canterbury, ocorreu em 1811. A sua difusão pode ser dividida em duas fases: a primeira, no século XVII, foi caracterizada pela difusão na Grã-Bretanha e nas colônias (América do Norte, Austrália, Nova Zelândia); a segunda, resultado da obra missionária no resto do mundo (América do Sul, África, Ásia). Hoje, a Igreja Anglicana está presente em 160 países e conta com mais de 70 milhões de membros; apenas 26 milhões vivem na Grã-Bretanha e na Irlanda, enquanto nada menos do que 42 milhões são africanos. Afirma Gajewski: "O verdadeiro centro da Comunhão Anglicana não se encontra mais na Inglaterra".

Notas:

[1]. Data muito provável, mas não documentada.

[2]. Na Inglaterra, a Reforma, apesar de infiltrações luteranas e calvinistas, teve fisionomia própria, nascendo da vontade autocrática da monarquia: esse é o sentido da política antipapal de Henrique VIII que se afirmou, em relação ao casamento com Ana Bolena, no ato de supremacia aprovado no Parlamento (1534), com o qual o rei era "aceito e reconhecido como único e supremo chefe na terra da Igreja da Inglaterra". A religião de Henrique VIII, que parecia ter sido erradicada sob o reinado de Maria, a Católica (1553-1558), se consolidou com o advento ao trono de Isabel I (1558-1603), terceira filha de Henrique VIII (Treccani).

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