No dia da festa de São Francisco, grupos católicos desinvestem em combustíveis fósseis

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06 Outubro 2016

Na terça-feira, 04-10-2016, sete grupos católicos de cinco continentes anunciaram a intenção de desinvestir no ramo dos combustíveis fósseis, no que é a maior e mais ampla declaração conjunta até hoje feita dentro da Igreja.

A reportagem é de Brian Roewe, publicada por National Catholic Reporter, 04-10-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A decisão pelo desinvestimento foi anunciada na Festa de São Francisco de Assis, que também marca o último dia da celebração cristã Tempo da Criação, e horas antes de a União Europeia aprovar a ratificação do Acordo de Paris, preparando para que entre em vigor o acordo mundial firmado para ajudar a combater as alterações climáticas.

Além do compromisso de desinvestimento, grupos de alunos em cinco campi universitários jesuítas dos EUA organizaram ações no mesmo dia instando as suas instituições a seguirem o exemplo.

As promessas de desinvestimento incluem a primeira diocese católica a declará-la (a Diocese de Umuarama no estado do Paraná, Brasil) bem como a Sociedade Missionária de São Columbano, sediada em Hong Kong, e os jesuítas da província inglesa do Canadá.

“A mudança climática já está afetando comunidades pobres e marginalizadas em todo o mundo, com a seca, o aumento do nível do mar, fome e condições meteorológicas extremas. Somos chamados a assumir uma posição”, disse o padre jesuíta Peter Bisson, provincial dos jesuítas canadenses de língua inglesa, que irá evitar investimentos futuros em combustíveis fósseis, removendo-os por completo dentro de cinco anos.

O bispo de Umuarama, Dom João Mamede, considerou o desinvestimento como uma “maneira prática de alcançar” aquilo que o Papa Francisco pede em sua encíclica “Laudato Si’, sobre o cuidado da casa comum”.

“Não podemos ficar acomodados e continuar permitindo que interesses econômicos, que buscam lucros exorbitantes ao invés do bem-estar das pessoas, destruam a biodiversidade e os ecossistemas, e nem podemos permitir que continuem ditando o nosso modelo energético baseado em combustíveis fósseis”, disse o bispo.

Unindo-se à iniciativa esteve uma instituição americana: a SSM Health Care, que tem 20 hospitais em quatro estados, disse que vai desinvestir os seus fundos atualmente aplicados no ramo carvoeiro.

A unidade da SSM Health em St. Louis, fundada pelas Irmãs Franciscanas de Maria, está entre os 10 maiores sistemas hospitalares católicos do país. A unidade havia primeiramente anunciado em abril a intenção de desinvestir as suas participações financeiras em empresas produtoras de carvão e de aumentar os investimentos em outras “que geram um impacto social ou ambiental benéfico e mensurável”.

Junto com o desinvestimento, a SSM Health uniu-se à iniciativa Healthier Hospitals e comprometeu-se em aumentar os esforços nas áreas da reciclagem, da redução do desperdício médico e a diminuir o gasto de energia em 3%.

O anúncio de desinvestimento, coordenado pelo Movimento Católico Global pelo Clima, veio na Festa de São Francisco, data mais tradicionalmente associada com a bênção aos animais. Nos últimos anos, grupos católicos preocupados com as alterações climáticas têm dado passos para associar esse dia – que geralmente serve para homenagens ao santo padroeiro da ecologia – aos animais também, propondo ações de conscientização sobre as ameaças ao planeta causadas pela atividade humana e, juntamente com isso, a ameaça às pessoas que o habitam.

No início deste ano, o Movimento Católico Global pelo Clima – uma rede de mais de 300 organizações de todo o mundo – formou um grupo de trabalho voltado ao desinvestimento para ajudar dioceses, congregações e organizações a explorarem a viabilidade dessa opção financeira.

O movimento de desinvestimento em empresas de combustíveis fósseis, que remonta a 2012, procura afastar o mundo da dependência das fontes energéticas emissoras de gás carbono – como o carvão, o petróleo e o gás natural – e movê-lo no sentido de alternativas mais limpas. O dióxido de carbono é o principal gás de efeito estufa a contribuir para as alterações climáticas, sendo o responsável por mais de 3/4 das emissões globais – em grande parte a partir da queima de combustíveis fósseis e processos industriais.

Em outubro passado, na dianteira da COP-21 que produziu o Acordo de Paris, representantes de seis conselhos episcopais católicos continentais pediram pelo “fim da era dos combustíveis fósseis”.

De acordo com o projeto “Go Fossil Free”, da ONG 350.org, cerca de 600 instituições desinvestiram US$ 3,4 trilhões no setor, com grupos religiosos representando a maior parcela (24%). Entre elas estão a Igreja da Inglaterra, o Conselho Mundial de Igrejas e a Federação Luterana Mundial.

O movimento de desinvestimento em empresas de combustíveis fósseis começou em campi universitários. Alunos de cinco instituições jesuítas organizaram eventos na terça-feira instando as próprias faculdades e outras também dos jesuítas a vincular os valores da Companhia de Jesus com respostas às mudanças climáticas, incluindo uma reavaliação dos investimentos atuais.

Atividades estudantis, organizadas pela rede Jesuit Divestment Network, devem acontecer na Loyola Marymount University (Los Angeles); na College of the Holy Cross (Worcester, Massachusetts); na Loyola University New Orleans e na Universidade de Scranton (Pensilvânia). Alunos da Universidade de Georgetown, onde atividades promovidas pelos estudantes levaram a instituição desinvestir em empresas carvoeiras, organizaram um evento solidário com outras instituições de ensino jesuítas.

Outras comunidades que fazem parte do anúncio de desinvestimento feito terça-feira incluem duas da Itália – a Federação dos Organismos Cristãos para o Serviço Voluntário Internacional, e as Irmãs Salesianas de Dom Bosco (Filhas de Maria Auxiliadora, em Milão e Nápoles) – e a Sociedade das Irmãs da Apresentação, da Austrália e Papua Nova Guiné.

A Irmã Marlette Preto, presidente da Sociedade das Irmãs da Apresentação, disse que os investimentos em combustíveis fósseis aconteciam “em detrimento do meio ambiente, dos direitos humanos, da segurança pública e das comunidades locais. (...) A cura do planeta só virá com o cuidado à Terra e a toda a comunidade de vida”.

A Sociedade das Irmãs da Apresentação estava seguindo os passos de quatro ordens religiosas da região do Pacífico que fizeram planos de desinvestimento público em junho, quando celebraram o aniversário de um ano de Laudato Si’. O lançamento da encíclica no ano passado levou a ideia de desinvestimento a um número maior de católicos, onde várias outras religiões e instituições seculares já haviam tomado a iniciativa.

Antes de a encíclica ser publicada, a Universidade de Dayton e a Universidade de Georgetown anunciaram planos de desinvestimento. As Irmãs de Loretto votaram a favor do desinvestimento um mês depois da encíclica.

Numa coletiva de imprensa sobre a mensagem do papa para Dia Mundial da Oração em 1º de setembro, o Cardeal Peter Turkson disse que para conseguir o aumento da temperatura média global abaixo dos 2 graus Celsius, em relação aos níveis pré-industriais, conforme descrito no Acordo de Paris, “exigir-se-á uma mudança completa da dependência dos combustíveis fósseis para energias renováveis por volta de 2070”. Um cronograma mais ambicioso seria necessário para atingir a meta de 1,5 graus C, também incluída no acordo climático.

“Este acordo é um compromisso importante. Mas nós, como uma sociedade, deliberamos verdadeiramente sobre o que ele significa, e o que será preciso para chegarmos lá?”, perguntou.

Turkson, presidente do Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, falou que cabe aos cidadãos exigir que os objetivos do Acordo de Paris sejam postos em prática, apontando para um trecho de Laudato Si’ onde Francisco disse que certos movimentos dos consumidores, como os boicotes, podem “se [tornar] eficazes na mudança do comportamento das empresas, forçando-as a reconsiderar o impacto ambiental e os modelos de produção”.

“A mesma lógica anima o movimento de desinvestimento de combustíveis fósseis”, disse Turkson.

Um outro trecho de Laudato Si’ tornou-se um grito de guerra para grande parte do movimento de desinvestimento católico: “Sabemos que a tecnologia baseada nos combustíveis fósseis – altamente poluentes, sobretudo o carvão mas também o petróleo e, em menor medida, o gás – deve ser, progressivamente e sem demora, substituída”.

Enquanto defensores do meio ambiente salientam o “sem demora”, outros do lado dentro da Igreja, inclusive Turkson, têm procurado suavizar as palavras do papa, dizendo que Francisco foi sensível às regiões do mundo economicamente dependentes de combustíveis fósseis e que a intenção não é desempregar massas de trabalhadores da noite para o dia.

Até agora, o Vaticano não debateu um eventual desinvestimento, disse Turkson ao National Catholic Reporter em junho.

O esforço mundial para enfrentar a mudança climática ganhou força na terça-feira quando a União Europeia aprovou a ratificação do Acordo de Paris – acordo climático alcançado em dezembro passado por 195 estados-membros das Nações Unidas. A votação permite que os Estados-membros da UE ratifiquem o acordo, levando-o além dos 55 países que representam 55% do limite de emissões globais, número necessário para que o acordo possa entrar em vigor.

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