Quando o gênero na escola ajuda a combater as discriminações. Artigo de Michela Marzano

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06 Outubro 2016

"O que se escolhe na vida? O que se constrói ou se desconstrói à vontade? De escolhas, ao longo da própria existência, fazem-se muitas. Nenhuma, porém, diz respeito ao próprio ser mulher ou homem, ou à própria heterossexualidade ou à própria homossexualidade. O gênero e a orientação sexual não se escolhem, não se mudam, não se cuidam."

A opinião é da filósofa italiana Michela Marzano, professora da Universidade de Paris V – René Descartes. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 05-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Uma coisa é a pessoa que tem uma tendência homossexual ou mesmo que muda de sexo", disse o Papa Francisco outro dia, para explicar o que ele declarou na Geórgia sobre a ideologia de gênero. "Outra coisa é fazer ensinamentos nas escolas nessa linha, para mudar a mentalidade: eu chamo isso de colonização ideológica", concluiu o pontífice.

Mas a quais ensinamentos exatamente o Papa Francisco se refere? O que significa "mudar a mentalidade"? O que é esse bendito "gender" do qual tanto se fala e que, de fato, é apenas o termo inglês para o qual existe, obviamente, uma tradução italiana, ou seja, a expressão "gênero"?

O Papa Francisco não fez nada mais do que repetir o que ele já disse outras vezes: o gênero na escola é uma ideologia perigosa. Dando crédito, assim, àqueles que defendem que, agora, nas escolas, se ensinaria aos mais pequenos que eles podem escolher se querem ser meninos ou meninas, mudar de sexo à vontade e decidir que tendências sexuais querem privilegiar ou não.

Mas é isso que se ensina na escola hoje? Se realmente fosse assim, eu também ficaria muito preocupada. Por outro lado, como um menino ou uma menina poderia se orientar se lhes fosse dito que tudo se equivale, que não há nenhuma certeza identitária e que é possível ser menino de dia e menina de noite ou vice-versa?

A questão, porém, está justamente aqui: hoje, não passa pela cabeça de ninguém colonizar a mente das crianças com tais falsidades, tais mentiras, tais absurdos. Porque é disso que se trata quando se pretende que sexo, gênero e orientação sexual são apenas o fruto de uma escolha e que, portanto, bastaria ensinar aos menores o valor das decisões individuais para que eles se tornem homossexuais ou trans, "justificando e normalizando todo comportamento sexual", como escrevem associações como ProVita, Giuristi per la Vita ou a Manif Pour Tous Italia.

"Deixem as meninas serem meninas. Deixem os meninos serem meninos", diz o slogan de um vídeo produzido precisamente para explicar "a ideologia de gênero em menos de três minutos", sem se dar conta de que, misturando realidade, ficção e fantasmas, é esse tipo de anúncio publicitário que cria confusão e medo.

Mas avancemos com ordem. O que se escolhe na vida? O que se constrói ou se desconstrói à vontade? De escolhas, ao longo da própria existência, fazem-se muitas. Nenhuma, porém, diz respeito ao próprio ser mulher ou homem, ou à própria heterossexualidade ou à própria homossexualidade. O gênero e a orientação sexual não se escolhem, não se mudam, não se cuidam. São elementos da identidade de cada um de nós, aquela identidade com a qual, mais cedo ou mais tarde, todos nós devemos fazer as contas, mesmo quando há coisas que gostaríamos que fossem diferentes, coisas que, talvez, não suportamos em nós mesmos, coisas com as quais, porém, não podemos fazer nada mais do que conviver.

E então acontece – porque a vida também é isto – que uma criança, desde pequena, está profundamente convencida de ser menino, apesar de se encontrar prisioneira em um corpo feminino, e, então, seja forçada a passar anos e anos tentando resolver a brecha dramática e dolorosa que ela vive entre a própria identidade de gênero e o próprio sexo biológico, sem qualquer vontade de subverter "a ordem natural das coisas", apenas com o objetivo de encontrar alguma harmonia consigo mesma. Exatamente assim como acontece que, desde pequena, uma menina se sinta atraída pelas outras meninas sem, por isso, ser menos menina do que as amigas ou colegas atraídas pelos meninos.

A orientação sexual, exatamente como a identidade de gênero, não é uma "tendência" que se possa ou se deva combater. É um modo de ser e de amar cujo valor não muda só porque se é homossexual, e não heterossexual, e, portanto, se amam pessoas do mesmo sexo, e não pessoas do sexo oposto.

A única coisa que pode ser "construída" ou "desconstruída" é a representação que fazemos do próprio gênero ou da própria orientação sexual, aprendendo ou não a se aceitar pelo que se é, sem ceder às pressões daqueles que gostariam que fôssemos diferentes do que nós somos.

Neste ponto, alguns poderiam se perguntar o que a escola tem a ver com tudo isso, e por que se deveriam abordar temáticas ligadas ao gênero ou à orientação sexual com os menores, em vez de, como muitos repetem, limitar-se a lhes ensinar a ler, escrever e contar. Mas o objetivo da escola não é também, e talvez sobretudo, o de ajudar as meninas e e os meninos a encontrar as palavras certas para qualificar aquilo que vivem, colocar um pouco de ordem no mundo que os cerca e conseguir não se envergonhar por aquilo que são e sentem? Um dos objetivos da escola não é também construir os pressupostos para um viver-juntos em que nos aceitamos reciprocamente, independentemente das próprias diferenças? Não estamos assistindo, justamente nesses últimos meses, a episódios de bullying e de violência verbal ou física contra os "diferentes"?

É estranho que justamente aqueles que tanto querem defender os próprios filhos não sejam, depois, sensíveis às tentativas que estão começando a ser feitas nas escolas, justamente para proteger todos os meninos e todas as meninas, ensinando que ser menina não significa nem ser inferior a um menino nem amar necessariamente as bonecas ou a cor rosa, ou que um menino continua sendo um menino mesmo que não se sinta atraído pelas meninas.

É estranho que até mesmo o papa, que também explica que "a vida é a vida, e as coisas devem ser tomadas como são", tome aos pé da letra as falsidades daqueles que repetem que, na escola, ensina-se a escolher o próprio gênero e a própria orientação sexual, enquanto, de fato, busca-se apenas lutar contra as discriminações e o bullying de que são vítimas inocentes as pessoas homossexuais e trans que não escolheram nada, exatamente como as pessoas heterossexuais.

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