Quando a web se torna um julgamento público: suicídio por causa de um vídeo. Artigo de Michela Marzano

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16 Setembro 2016

"Ainda há muito caminho a se fazer. Falta uma educação responsável à utilização das mídias sociais. Falta a capacidade de entender que uma vida pode ser destruída quando a própria reputação é atacada."

A opinião é da filósofa italiana Michela Marzano, professora da Universidade de Paris V – René Descartes. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 14-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No fim, a vergonha e a dor levaram a melhor, e Tiziana se matou, enforcando-se com um lenço no porão da casa. Ela tinha apenas 31 anos de idade. E ainda tinha toda a vida pela frente.

Mas que vida?, ela deve ter pensado enquanto tentava desesperadamente sair de uma história feita de vídeos duros que nunca deveriam ter circulado on-line, de curiosidade mórbida e de insultos repetidos, de exposição em praça pública e de um direito ao esquecimento que tarda em se afirmar como tal.

Que vida?, ela deve ter pensado antes de cometer o irreparável, naquela nova casa onde ela se iludia de que poderia recomeçar tudo de novo.

Quando se faz de tudo para ser esquecido, mudando de cidade e iniciando as práticas para modificar nome e sobrenome, mas, depois, nada muda, porque os vídeos não são removidos, e a ferocidade da web não tem limites, é difícil para qualquer um acreditar ainda na vida e na possibilidade da redenção.

Acontece com todas as pessoas cometer erros, comportar-se de maneira superficial ou de não se dar conta das consequências que uma piada ou uma bravata podem ter. Acontece, pagamos a conta, às vezes também fazemos muito mal, mas, depois, levantamos e recomeçamos. Pelo menos, era assim que acontecia antes da internet. Antes, justamente.

Porque, desde que existe a internet, desde que as barreiras entre a vida privada e a vida pública entraram em colapso e desde que qualquer um se sente no direito de ofender e de insultar os outros com base em imagens, ruídos e vídeos que circulam on-line – como se os insultos e as ofensas não tivessem consequências importantes sobre a vida de uma pessoa – parece que não se pode fazer mais nada para voltar atrás, e as eventuais culpam traçam o caminho de uma vergonha sem fim, inevitável, perene.
 
É claro que, no caso de Tiziana, os juízes, no fim, reconheceram a existência de um direito ao esquecimento, contestando o fato de que esses vídeos não tinham sido removidos das mídias sociais. Mas a decisão, mais uma vez, chegou tarde demais. Exatamente tarde mais como o mundo dos adultos está se dando conta do sofrimento daqueles que, exposto em praça pública na internet, busca desesperadamente uma ajuda, gostaria de voltar atrás, gostaria de ser esquecido e recomeçar do zero.

Ainda há muito caminho a se fazer. Falta uma educação responsável à utilização das mídias sociais. Falta a capacidade de entender que uma vida pode ser destruída quando a própria reputação é atacada. Falta a consciência do fato de que certas imagens e certos vídeo que circulam on-line, independentemente da própria vontade, pode, destruir a própria identidade de uma pessoa, impedindo-a de mudar, de se transformar, de se redimir e de se tornar "outra".

Mesmo que o valor da nossa vida seja infinitamente superior ao julgamento que uma pessoa pode fazer sobre nós, é difícil, senão até impossível, saber disso e ter consciência disso em um mundo que reduz tudo ao "diz-se que" e ao "vê-se que".

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Quando a web se torna um julgamento público: suicídio por causa de um vídeo. Artigo de Michela Marzano - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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