Colômbia. "Continuem trabalhando pela paz", diz bispo diante do resultado do referendo

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05 Outubro 2016

Depois que os colombianos chocaram o mundo ao votar contra o acordo de paz entre o governo e os guerrilheiros das Farc, o principal bispo do país nas negociações pediu que ambos os lados evitem reagir de formas que possam reabrir o conflito civil de décadas da Colômbia.

A reportagem é de Austen Ivereigh, publicada no sítio Crux, 04-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O bispo, que tem sido um ator-chave nas negociações da paz colombiana pediu que todos os lados reiterem o seu compromisso com a paz depois de uma rejeição surpresa ao acordo histórico entre o governo e o principal grupo guerrilheiro do país no referendo de domingo passado.

Luis Augusto Castro, arcebispo de Tunja e presidente da Conferência Episcopal da Colômbia, também insistiu que o resultado do referendo não afetará uma visita papal prevista para o próximo ano.

Castro, que dirige a Comissão de Reconciliação Nacional – que coordena o trabalho multifacetado da Igreja pela paz na Colômbia – disse à Rádio Caracol nessa segunda-feira que tanto os vencedores quanto os derrotados no referendo "devem dar uma demonstração clara e franca de que pretendem continuar trabalhando pela paz" e a todo o custo "devem evitar a impressão de que estamos voltando para a guerra".

Convidados a darem a sua opinião sobre o histórico acordo de paz alcançado em agosto na capital cubana, Havana, depois de quatro anos de negociações, 50,2% dos colombianos votaram para rejeitar os acordos, com uma pequena margem a mais, contra 49,8% que votaram para aceitá-los.

A campanha do "não", liderado pelo ex-presidente Alvaro Uribe – que continua sendo popular – argumentou que a rejeição do acordo significava a reabertura das negociações com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e a alteração das condições do acordo. Uribe afirmou que os acordos concediam muito para as Farc, o mais antigo e maior exército rebelde da América Latina, que esteve envolvido por muito tempo em sequestros e no tráfico de drogas.

Tanto os guerrilheiros quanto o governo do presidente Juan Manuel Santos fizeram campanha com uma mensagem de que esse era o melhor e único acordo possível e que não havia um plano B. Desde o resultado, Santos e as Farc disseram que estão dispostos a continuar negociando para chegar a um acordo de paz que a maioria dos colombianos aceitaria.

No entanto, Uribe – que é muito mais popular do que Santos, e cuja posição foi grandemente fortalecida pelo resultado do referendo – diz querer uma revisão radical de questões mais amplas, como a justiça, a participação política dos rebeldes, assim como as políticas sociais apresentadas no acordo, que incluem um plano de redistribuição de terras.

As argumentações sobre os termos do acordo provavelmente vão durar anos e podem se resolver apenas na próxima eleição presidencial em 2018. Nesse meio tempo, o status das Farc – que tinha concordado em entregar as suas armas e em compensar as vítimas em troca de cadeiras no Congresso e imunidade em termos de prisão – ainda não ficou claro.

"Há uma enorme necessidade de reconciliação no país, isso é muito claro", disse o arcebispo Castro, acrescentando: "Este é um momento em que os políticos, em especial, precisam ser muito prudentes naquilo que dizem e em como analisam o resultado".

Ele disse que tanto os políticos quanto os guerrilheiros devem reafirmar o seu compromisso com a paz, apesar dos resultados, e "evitar confrontos ou qualquer coisa de que possam se arrepender".

Enquanto isso, outro ator eclesial chave no processo de paz entrevistado pelo Crux antes do referendo disse que o resultado é uma razão para redobrar os esforços para alcançar uma paz duradoura, mas garantindo, desta vez, que os objetores sejam ouvidos.

Escrevendo de Roma, onde está participando da Congregação Geral dos Jesuítas, o padre Francisco de Roux SJ disse que tanto o processo quanto os elementos-chave do acordo de Havana "continuam sendo válidos", mas "o resultado da votação mostra que os acordos devem ser revistos para torná-los política e institucionalmente viáveis na Colômbia de hoje".

O resultado do referendo também colocou em dúvida a visita papal esperada para o início do ano que vem.

Falando antes de o resultado ter sido anunciado, o Papa Francisco, no voo de volta do Azerbaijão a Roma, no domingo à noite, pareceu sugerir que a sua visita planeada, mas até agora não programada, à Colômbia poderia estar condicionada a um resultado positivo.

"Eu disse que, se o processo de paz tiver sucesso, quando tudo estiver blindado, se o plebiscito vencer, quando tudo estiver seguro e não se puder voltar atrás, eu poderia ir", disse ele aos jornalistas, acrescentando: "Mas, se estiver instável, não. Tudo depende do que o povo disser, que é soberano".

O arcebispo Castro, no entanto, insistiu que a visita papal estava "acima de um sim ou de um não", e não dependia dos processos políticos.

"O papa nunca condicionaria a sua visita pastoral a uma motivação política", disse. "Ele, sim, quer a paz, mas ele vai vir, quer haja paz ou guerra. E, obviamente, esperamos claramente que haja paz."

"Se ele não encontrar a Colômbia em paz, então, ao menos, ele poderia nos encontrar trabalhando pela paz", acrescentou.

Os bispos colombianos têm mantido uma posição neutra sobre o referendo, argumentando em favor de uma solução negociada ao conflito armado que dura décadas, mas sem expressar um ponto de vista sobre os acordos de Havana.

Os bispos, no entanto, insistiram que os colombianos informassem as suas consciências e votassem.

No fim, no entanto, a participação foi inferior a 38%, a mais baixo em mais de 20 anos, o que sugere que o acordo de 297 páginas de Havana era muito complexo, assim como era ampla a decepção com os políticos.

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