A encruzilhada geopolítica que aguarda Francisco na Geórgia

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01 Outubro 2016

Aproximar-se ainda mais da Rússia ou apoiar os interesses opostos da Geórgia. Esta é a encruzilhada na qual Francis X. Rocca e Thomas Grove, em um artigo no Wall Street Journal, colocaram o Papa Francisco, antes da visita apostólica que faz ao Cáucaso nesta semana mesmo.

A reportagem é de Cameron Doody, publicada por Religión Digital, 30-09-2016. A tradução é do Cepat.

O dilema passa pelo que o Papa dirá sobre as regiões de Abecácia e Ossétia do Sul, territórios reivindicados tanto pela Geórgia como pela Rússia.

Ainda que os dois países tenham encerrado a guerra em 2008, a contínua presença de tropas russa nas regiões separatistas fez com que haja, atualmente, 200.000 pessoas deslocadas por toda a Geórgia. Contudo, se o Papa – conhecido defensor dos refugiados e migrantes – chamar a atenção do mundo sobre esta tragédia, irritará a Rússia, já que a estabilização dos dois territórios implicaria que Moscou renunciasse sua reivindicação por eles.

E em vista dos passos que Francisco está tomando para uma relação mais estreita com a Igreja ortodoxa, parece improvável que queira irritar o Kremlin, um valioso aliado do Patriarcado de Moscou sob o mandato de Vladimir Putin.

Um caso análogo às armadilhas que o Papa terá que lidar na Geórgia é o conflito que se está vivendo na Ucrânia, na parte oriental em que, desde 2014, separatistas apoiados pela Rússia estão travando uma guerra na Crimeia. Em fevereiro do ano passado, Francisco classificou as tensões como uma “violência fraticida entre cristãos”.

A classificação pegou mal para os católicos ucranianos – segundo denunciou, de imediato, Sviatoslav Shevchuk, primaz da Igreja greco-católica do país – porque fez parecer que se tratava de uma guerra civil e não de uma invasão. Perfeito exemplo dos riscos, e reprovações, aos quais o Papa se expõe caso meça mal suas palavras na visita a Geórgia.


Mapa: Religión Digital

Qual será, então, a estratégia que Francisco adotará em Tbilisi e Mtscheta? Para Rocca e Grove, três ocasiões no passado recente lançam luz sobre a incógnita.

A primeira data da audiência geral do própria quarta-feira, quando o Pontífice denunciou que os “responsáveis” pelos recentes bombardeios na Síria “terão que prestar contas a Deus”. O importante é que o Pontífice não mencionou explicitamente nem a Rússia e nem o governo sírio – os verdadeiros instigadores do ataque –, para garantir que não provocará nenhum rancor por parte dos agressores.

E o Papa Francisco também soube atuar diplomaticamente em suas visitas a Cuba e Uganda, ao não mencionar a opressão política que se respira no primeiro país, nem a discriminação contra os homossexuais que se vive no segundo.

“Guardou-se silêncio sobre os direitos humanos para avançar em outras prioridades estratégicas”, afirmam Rocca e Grove. Solidariedade, então, ou diplomacia? Preocupação humanitária ou geopolítica? Frente a interrogação sobre qual será a política que o Papa adotará na Geórgia, a única certeza é que esta terá implicações até, ao menos, Moscou, se não inclusive além.

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