O dilema de Putin e a sombra de Constantino. Artigo de Alberto Melloni

Revista ihu on-line

Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

Edição: 541

Leia mais

Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

Edição: 540

Leia mais

Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

Edição: 539

Leia mais

Mais Lidos

  • 23 razões para participar da Greve Climática desta sexta-feira

    LER MAIS
  • Às leitoras e aos leitores

    LER MAIS
  • Cisma: uma noção que mudou ao longo dos séculos. Artigo de Massimo Faggioli

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

13 Junho 2016

A luta que vai ser combatida nesta noite entre o Kremlin e o patriarcado será uma parte da mais clássica luta pelo Concílio pan-ortodoxo: o Pentecostes é quinta-feira.

A opinião é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 12-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Entre a noite deste domingo e esta segunda-feira, Vladimir Vladimirovich Putin deve decidir de que lado quer estar na Igreja: na segunda-feira de manhã, o Sínodo da Igreja Russa deve decidir se vai aderir ao pedido de adiamento do Concílio pan-ortodoxo, que deve abrir seus trabalhos em Creta na quinta-feira, levantado "espontaneamente" pela Igreja Búlgara; ou se dará a luz verde ao Concílio que, pela primeira vez depois de mais de 12 séculos, verá reunidos todos os patriarcas da Ortodoxia e, pela primeira vez desde sempre, verá se sentar naquela mesa conciliar, rigorosamente redonda, também o Patriarca de Moscou e de todas as Rússias.

Putin decide. Ele sabe muito bem o que está em jogo para ele no plano internacional. O presidente russo enviou para Roma duas figuras de maior calibre que podem lhe explicar o que poderia acontecer nas relações com Roma e, portanto, com o Ocidente, se o jogo de reforço da tensão escapasse das mãos da Rússia e da Igreja Russa.

Tanto Sergey Razov (que tem no currículo uma longa missão em Pequim e que foi vice-ministro das Relações Exteriores, embaixador na Itália por três anos), quanto Alexander Avdeev (na mesma época, embaixador junto da Santa Sé, embaixador em Paris e, depois, vice-ministro da Cultura quando o cardeal Betori, com a assistência direta e discreta de Napolitano e de Renzi, levaram ao Batistério de Florença um ícone de Rublev que não tivera culto há um século) também foram credenciados para acompanhar um caminho de comunhão que, depois de Cuba, aguarda confirmações simbólicos, teológicas e políticas de maior porte.

Com o papado de Francisco e na Secretaria de Estado de Parolin, a antiga tentação de usar as tensões entre o Patriarcado de Moscou e o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla foi expurgada de modo metódico: Roma quer fazer parte de um processo de comunhão da ortodoxia por motivos teológicos, que dizem respeito à natureza e à reforma do ministério petrino.

Putin esteve à altura desse desafio, e algo mais do que o seu beneplácito favorecer aquele primeiro passo histórico. Os tempos do segundo passo dependem, na realidade, do Concílio de Creta: Roma – a Antiga Roma, como se diz no Oriente – não poderia senão tirar todas as consequências de um jogo que fizesse efetivamente explodir o Concílio que a Ortodoxia prepara há meio século e que a "sinaxe dos patriarcas" (a reunião dos 14 chefes das Igrejas autocéfalas e dos patriarcados) convocou em 2008 e fixou para poucos meses depois, deslocando a sua sede de Istambul para Creta, justamente para não expor o Concílio à crise política entre Turquia e Federação Russa.

Putin decide, sobre si mesmo e sobre o Concílio. A menos que o palco dessa segunda-feira não seja um palco que Vladimir Vladmirovic tenha preparado precisamente para fazer pesar o perfil "constantinano" a que ele ambiciona, e não apenas hoje. No cerimonial televisivo do seu primeiro juramento presidencial, ele tinha disseminado o palco com referências aos ícones de Constantino (o imperador venerado como santo no Oriente): degraus, enquadramentos, perfis que, quando eu editei para a editora Treccani os três volumes sobre Constantino publicados no centenário do chamado "Édito de Milão", permitiam dizer que o mito cristão do imperador cristão tinha entrado intacto na era televisiva.

Gerindo as imagens com aquela que, para nós, pobres filhos da barbárie carolíngia, parece um cálculo e que, no Oriente, é um instinto espiritual, Putin queria desde, desde então, se credenciar como um protagonista da história da Igreja: e, quer ele o tenha construído ou não, este domingo deve decidir de que modo ele irá escrever o seu nome nela.

Fazer com que se diga de Putin que, no encontro com a história, ele mostrou ser um autocrata caprichoso que perdeu uma oportunidade histórica de favorecer um movimento conciliar de consequências incalculáveis e se colocou do lado dos fundamentalistas ortodoxos que amaldiçoam a praga ecumênica, que temem a invasão de um ética libertina com que o Oriente não teria muito a aprender e que olham com alguma inveja para o fundamentalismo islâmico.

Ou se apresentar realmente como um ícone neoconstantiniano que permite que o Concílio inicie e marque uma etapa na lenta reconstrução da comunhão dos patriarcas, das Igrejas, dos cristãos.

Se ele fizer isso, poderá pensar que roubou a cena do Patriarca Ecumênico Bartolomeu, cuja santa paciência na costura do milagre conciliar nunca deixa de surpreender aqueles que não conhecem a sua densidade espiritual; mas, no fim, ele terá permitido justamente que essa santa paciência alcance o seu objetivo: que não é o de fazer do trono de André uma espécie de minipapado do Oriente, mas de mostrar "verbis et operibus" também ao sucessor de Pedro e aos seus irmãos bispos que a sinodalidade é o caminho da unidade.

"A luta pelo Concílio." Assim se intitulava o primeiro volume da história do Concílio de Trento de Hubert Jedin, e assim o seu melhor aluno, Pino Alberigo, tinha escrito sobre o Concílio Vaticano II. Tratava-se da confirmação empírica de algo que acompanha as dores de todo grande concílio: porque todo concílio que não seja mero congressinho religioso, só nasce diante de um verdadeiro conflito. Onde se revelam resistências motivadas a passar pela porta estreita do consenso, em vez da porta larga da autoridade. Onde entram em jogo visões do passado e do futuro, e questões que são expostas ao vento ardente do Espírito que abate e cria.

A luta que vai ser combatida nesta noite entre o Kremlin e o patriarcado será uma parte da mais clássica luta pelo Concílio: o Pentecostes é quinta-feira.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

O dilema de Putin e a sombra de Constantino. Artigo de Alberto Melloni - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV