Ratzinger segundo Ratzinger: a autoabsolvição do papa emérito no seu último livro

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30 Setembro 2016

Provocaram muito barulho as Ultime conversazioni [Últimas conversas] de Bento XVI, papa emérito que, depois da renúncia em 2013, se retirou para uma vida (quase) enclausurada. Quase, porque o livro recém-impresso, publicado pela editora Garzanti e editado pelo jornalista alemão Peter Seewald, autor do livro-entrevista "Luz do mundo" (2010), tem todo o sabor de uma oportunidade oferecida a Ratzinger para se defender sobre alguns aspectos controversos do seu pontificado e de oferecer a "sua" versão dos fatos.

A reportagem é de Ludovica Eugenio, publicada na revista Adista Notizie, 01-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O livro, de 240 páginas de perguntas e respostas, começa pelo fim, isto é, pela renúncia de Bento XVI em fevereiro de 2013, para depois repassar toda a vida e os acontecimentos. O tom é o de uma conversa amigável, pacata, às vezes espirituosa, em que Seewald dá a Ratzinger o direito de reinterpretar os momentos mais complexos do seu pontificado ou afastar para longe de si a responsabilidade por alguns passos infelizes, além de oferecer fugazes traços de pena sobre o Papa Francisco, geralmente descrito com palavras de apreço, mas com alguns traços críticos. Como quando, a propósito da decisão da renúncia, ele explica que "estava claro que eu devia fazer isso e que aquele era o momento certo. E as pessoas aceitaram. Muitos estão gratos porque agora o novo papa tem um novo estilo. Outros, talvez, sentem um pouco a minha falta, mas, entretanto, eles também estão gratos. Eles sabem que o meu momento tinha passado e eu tinha dado o que eu podia dar".

Ratzinger rejeita a acusação de ter abandonado o navio na tempestade (era a época da explosão do escândalo Vatileaks, dentre outras coisas): "Não, não é absolutamente verdade. Ao contrário, as coisas tinham sido totalmente esclarecidas. Uma vez, eu disse, acho que justamente para você, que não podemos renunciar quando as coisas não estão no lugar, mas podemos fazer isso apenas quando tudo está tranquilo. Eu pude renunciar justamente porque, sobre aquele assunto, a serenidade tinha voltado. Não se tratou de uma retirada sob a pressão dos eventos ou de uma fuga por causa da incapacidade de enfrentá-los".

Da mesma forma, ele rejeita as alegações de chantagens e conspirações: "São todos absurdos. Devo dizer que o fato de que um homem, por qualquer razão, tenha imaginado que devia provocar um escândalo para purificar a Igreja é um assunto insignificante. Mas ninguém tentou me chantagear. Eu nem sequer teria permitido. Se tivessem tentado fazer isso, eu não teria ido embora, porque não se deve sair quando se está sob pressão. E também não é verdade que eu estava desiludido ou coisas do gênero. Ou, melhor, graças a Deus, eu estava no estado de ânimo pacífico de quem superou a dificuldade. O estado de ânimo em que se pode passar o leme tranquilamente para quem vem depois".

Quanto ao Papa Bergoglio, Ratzinger afirma que a ideia que ele tinha sobre ele se afastava da realidade: "Eu o conheci como um homem muito decidido, alguém que, na Argentina, dizia com muita resolução: isto se faz e isto não se faz. A sua cordialidade, a sua atenção em relação aos outros são aspectos dele que eu não conhecia. Por isso, foi uma surpresa";

Ele nega que Bergoglio lhe peça conselhos: "Em geral, não há razão para isso. Sobre algumas coisas, ele me fez perguntas, também para a entrevista que concedeu à revista La Civiltà Cattolica. Eu concordo, nesses casos eu expresso a minha opinião. Mas, no geral, eu também fico muito contente por não ser chamado em causa". Como no caso da Evangelii gaudium, que não foi submetida a ele antecipadamente: "Certamente, não é tudo dele, mas há muito de pessoal", comenta.

Também são interessantes as afirmações sobre a sua participação no Concílio Vaticano II: Ratzinger se considera parte da ala progressista, quando "ser progressista não significava ainda romper com a fé, mas aprender a compreendê-la melhor e vivê-la do modo mais justo, movendo-se a partir das origens. Então, eu ainda acreditava que todos queríamos isso. Até mesmo progressistas conhecidos, como Lubac, Daniélou e outros tinham uma ideia semelhante. A mudança de tom já pôde ser percebida no segundo ano do Concílio e, depois, se delineou com clareza ao longo dos anos seguintes".

Palavras bastante duras são reservadas à presença do colega teólogo Hans Küng: "Küng entendeu logo – é a pergunta-comentário "guiado" de Seewald – que se pode obter muito, mesmo sem participar em primeira pessoa das comissões, colocando-se à disposição da mídia quase como um intérprete e desfrutando, desse modo, de maior visibilidade do que outros, que desempenham um duro trabalho sobre os textos". "Sim, sim", responde Ratzinger. E, quanto ao seu "recuo" para a ala mais conservadora no Concílio: "Eu vi que a teologia não era mais a interpretação da fé da Igreja Católica, mas estabelecia ela mesma como podia e devia ser. E, para um teólogo católico, como eu era, isso não era compatível com a teologia", explica.

Um dos pontos em que mais bem se identifica a tentativa de Ratzinger de remover pontos obscuros ou muito discutidos do pontificado é quando lhe é confrontada a declaração Dominus Iesus, sobre a unicidade da Igreja Católica. Aqui, o papa emérito declara ter escolhido "não escrever pessoalmente os documentos do Santo Ofício, para que não se pensasse que eu queria divulgar e impor a minha teologia pessoal. Eles deviam ser fruto do trabalho dos relativos órgãos competentes. Naturalmente, eu também colaborava, oferecia modificações criticamente. Mas, pessoalmente, não escrevi nenhum documento, nem mesmo a Dominus Iesus".

E, quanto ao suposto desacordo do Papa Wojtyla sobre esse documento, que fazia ranger os andaimes sobre os quais tinha sido construído o caminho ecumênico pós-conciliar, Ratzinger rejeita essa hipótese: "Um dia, ele me chamou e me disse: ‘Quero falar a respeito durante um Ângelus e esclarecer que eu concordo com tudo. Por isso, peço que você mesmo prepare o texto que eu vou ler, de modo que não possa haver qualquer dúvida de que o papa está completamente de acordo com você’. Então, eu preparei o texto. No entanto, pensei que não podia ser grosseiro demais. Assim, o conteúdo era claro, mas também tinha uma forma refinada. Ele então me disse: ‘É inequívoco, está certo disso?’. ‘Sim, sim.’ Mas não foi assim. Graças àquela forma refinada, todos disseram: ‘Ah, o papa também se distanciou do cardeal’".

Do mesmo modo, o livro de Seewald tenta afastar o papa da acusação de não ter desejado o mea culpa do ano 2000, com o qual a Igreja pediu perdão pelos erros e pelas omissões cometidas ao longo da história: "Eu estava de acordo. Eu acho que é lícito se perguntar se os muitos mea culpa realmente tinham sentido. Mas eu também achei justo que a Igreja, no modelo dos Salmos e do Livro de Baruch, por exemplo, confessasse as culpas cometidas ao longo dos séculos".

Outro ponto crítico foi o polêmico "discurso de Regensburg", uma lectio magistralis proferida na universidade bávara em que, substancialmente, ele citou uma observação feita pelo imperador bizantino Manuel II Paleólogo a um erudito persa sobre o papel da violência no Islã, provocando protestos em todo o mundo, e não só no muçulmano.

"Eu tinha lido esse diálogo do Paleólogo porque me interessava pelo diálogo entre cristianismo e Islã. Portanto, não foi por acaso. Trata-se realmente de um diálogo. O imperador de que se fala, naquela época, já era vassalo dos muçulmanos, mas tinha a liberdade de dizer coisas que, hoje, não se poderiam mais dizer. Por isso, achei simplesmente interessante trazer o discurso sobre essa conversa de 500 anos de idade. Como eu já disse, eu não tinha avaliado bem o significado político do acontecimento".

Seewald pressiona, em defesa de Ratzinger: "O vaticanista Marco Politi escreveu que o cardeal Sodano o tinha avisado, antes da partida, do poder explosivo daquele texto. Mas o senhor não tinha dado atenção aos seus escrúpulos. É verdade?". "Não. Ninguém nunca me disse nada sobre o texto", nega Ratzinger.

"A partir dessa representação errônea dos fatos – continua SeewaldPoliti deduz, portanto, que o escândalo de Regensburg não foi por acaso. Na questão do diálogo com os muçulmanos, o senhor teria impresso uma inversão de rota à política do seu antecessor. Em apoio da sua tese, Politi traz outro indício: ainda na missa inaugural de pontificado, o senhor teria deixado de citar os muçulmanos intencionalmente". "Não é verdade. Eu não sei nada disso", nega ainda o papa emérito. "Portanto – conclui, satisfeito, o editor – não é correto falar de exclusão, nem de que o senhor queria imprimir uma reviravolta à política do seu antecessor?". "Não. Do modo mais absoluto", é a resposta definitiva de Ratzinger.

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