Bergoglio vai além de Wojtyla: arquivada totalmente a hipótese da "guerra justa". Artigo de Alessandro Santagata

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22 Setembro 2016

"O apelo à oração assinado pelas autoridades religiosas presentes em Assis assume um significado político explícito, que interroga com precisão as escolhas da comunidade internacional."

A opinião é do historiador italiano Alessandro Santagata, professor da Universidade de Roma Tor Vergata, em artigo publicado no jornal Il Manifesto, 21-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Passaram-se 30 anos desde que João Paulo II abria em Assis um "canteiro de obras da paz", ao qual chamava a participar "não só os especialistas, os sábios e os estrategistas", mas também todos os fiéis, através dos representantes das principais religiões do mundo.

Era 1986, e, no cenário da contraposição atômica, tinha-se falado de uma "internacional das religiões", pensada (também) em oposição ao bloco soviético. Às costas, havia a lição do Concílio Vaticano II, que Wojtyla interpretava fielmente (ao menos nesse ponto), quando indicava para as religiões um caminho que não fosse "o resultado de negociações, de compromissos políticos ou de mercadejos econômicos".

A profecia da paz, anunciada na oração, devia prevalecer sobre a via diplomática que tinha caracterizado o posicionamento da Igreja nas guerras do século XX.

Só nesse plano era concebível aquele fronte unitário que deveria propor as "Igrejas" (e, mais em geral, as confissões) como agências mundiais de paz, sem, no entanto, impedir o Vaticano de continuar nas suas operações de política internacional.

Ao longo dos anos, o evento de Assis foi renovado graças ao compromisso da comunidade romana de Santo Egídio. O discurso proferido nessa terça-feira pelo Papa Francisco, nesse marco já "tradicional", quis relançar o projeto wojtyliano no novo contexto global, evidentemente modificando alguns de seus conteúdos.

A ideia de constituir uma rede dos cristianismos havia sido proposta por Bergoglio ainda por ocasião da viagem a Lesbos de abril passado, que tinha se concluído com a declaração conjunta com o Patriarca Bartolomeu, em que se denunciava "a catástrofe humanitária mais grave desde a Segunda Guerra Mundial".

Também não são novas algumas das passagens mais penetrantes dos dois discursos proferidos nessa terça-feira na missa matinal em Santa Marta e no encontro na Basílica de São Francisco. Em primeiro lugar, voltou a dissociação clara entre fenômeno religioso (em todas as suas expressões) e a violência política e terrorista: uma condenação sem apelo às guerras religiosas, expressada não casualmente citando as palavras de João Paulo II no encontro de 2002 e, portanto, no meio da escalada estadunidense contra o "terrorismo internacional".

Como em outras ocasiões, Francisco, porém, parece ir além, quando recorda que a violência não só não representa a "verdadeira natureza da religião", mas também constitui "uma deturpação que contribui para a sua destruição".

Se a referência direta é ao Estado Islâmico, pode-se imaginar que, no alvo do pontífice, também se enquadram as forças políticas neoidentitárias, dos Estados Unidos à Europa, das direitas radicais. Precisamente sobre a questão da legitimidade da guerra, registra-se, de fato, mais um distanciamento com a tradição. Se os pontificados dos últimos 50 anos já tinham se movido na direção de uma progressiva deslegitimação da guerra como instrumento para a resolução dos conflitos (pense-se nas campanhas da Santa Sé contra as guerras humanitárias e preventivas), o Papa Francisco arquiva totalmente a hipótese de uma guerra justa (ou mesmo legítima), descrevendo a realidade de um conflito permanente e sistemático que ultrapassa as fronteiras nacionais e assume formas ingovernáveis.

Trata-se de uma guerra "muito próxima" – explica o papa – mas que "não vemos", porque não somos capazes de inserir o terrorismo no quadro do conjunto. A partir desse ponto de vista, o apelo à oração assinado pelas autoridades religiosas presentes em Assis assume um significado político explícito, que interroga com precisão as escolhas da comunidade internacional.

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