Inteligência do sacrifício como "sacrificium intellectus"? Uma resposta a Valli e Sarah. Artigo de Andrea Grillo

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17 Setembro 2016

"Em um post recente no seu blog, Aldo Maria Valli retoma com amplitude as palavras de um artigo do cardeal Robert Sarah sobre o sentido do 'intelligere' na Sacrosanctum concilium. É uma boa ocasião para "compreender" o que, nesses textos, não é compreendido, de fato, mas gravemente mal entendido. Reproduzo aqui abaixo o texto de Valli/Sarah, seguido de uma resposta minha."

O comentário é do teólogo italiano Andrea Grillo, leigo, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua.

O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 12-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Para não "escapar da Cruz"

Aldo Maria Valli

No original latino da constituição Sacrosanctum concilium do Concílio Vaticano II, dedicada à Sagrada Liturgia (dezembro de 1963), o termo intellegere (compreensibilidade) retorna cinco vezes, e sabemos muito bem que, em nome da compreensibilidade, foram cometidos muitos abusos e ainda hoje eles ocorrem continuamente.

Mas o significado da expressão intellegere é ilustrado muito bem quando, no texto (n. 34), afirma-se que os ritos, embora adaptados à capacidade de compreensão dos fiéis, não devem precisar de muitas explicações. O importante, ao contrário, é que eles "brilhem pela sua nobre simplicidade".

Parte daí a reflexão do cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, proposta no fascículo de setembro da revista mensal Studi Cattolici (p. 484), intitulada "Traduções litúrgicas ‘compreensíveis’"?

As aspas em torno da palavra "compreensíveis" dá a entender o problema levantado pelo cardeal. O que significa, realmente, compreender a liturgia? O fato de pronunciar os textos na língua usada pelos fiéis resolve automaticamente a questão? E realmente é preciso trabalhar sobre a liturgia para aproximá-la cada vez mais à mentalidade das pessoas que dela participam?

A resposta, explica Sarah, é naturalmente negativa. Nós podemos traduzir tudo em linguagem corrente, mas a liturgia mantém uma complexidade própria, que, dentre outras coisas, a partir do Concílio, até mesmo aumentou em relação com as capacidades culturais e espirituais dos fiéis.

Se pensarmos, escreve Sarah, na Oração Eucarística, devemos admitir que o significado autêntico, profundo, de muitas afirmações teológicas hoje corre o risco de nos escapar em termos meramente humanos e terrenos, porque nos encontramos dentro de um horizonte de sentido bastante distante da cultura atual.

As perguntas do cardeal, a esse respeito, são explícitas: "Quem entende, hoje, o caráter expiatório da morte de Cristo? E, pela mesma razão, como podem ser entendidas expressões do tipo ‘ser redimidos pelo seu sangue’, ‘ser transformado em oferta perene’, ‘que a vítima de reconciliação traga paz e salvação’?".

São perguntas, escreve o cardeal, que se tornam cada vez mais complicadas a cada dia, enquanto a nossa mentalidade se afasta das formas conceituais dentro das quais esses aspectos centrais do mistério cristão encontraram formulação e sistematização.

No entanto, explica o cardeal, cometemos um grave erro se, em nome do intellegere, pretendemos submeter completamente a liturgia às exigências da compreensão humana.

De acordo com Sarah, não devemos nos assustar com a complexidade e não devemos fugir dela usando atalhos formais e teológicos: ao contrário, é bom que a liturgia mantenha uma complexidade própria, no sentido de que, no centro, deve permanecer "o Mistério do amor infinito e misericordioso de Deus pelos homens, consumado no sacrifício pascal de Cristo".

O cardeal escreve a palavra Mistério com inicial maiúscula e, desse modo, diz duas coisas: em primeiro lugar, o mistério continua como tal, razão pela qual, diante dele, o homem de fé só pode sentir estupor, admiração e gratidão, sem pretender domesticá-lo, traduzi-lo em termos simples ou até mesmo banais; em segundo lugar, trata-se de um mistério grandíssimo, incomensurável, superior a todas as nossas possibilidades de compreensão, de tal forma que só nos resta adorar em silêncio, porque, realmente, toda palavra humana é insuficiente.

Consequentemente, é ilusório, explica o cardeal, considerar que basta traduzir os textos litúrgicos para torná-los "compreensíveis". Ao contrário, as traduções não devem envolver nenhum dano à mensagem que traduzem, que é e continua sendo a mensagem do Evangelho. Além disso, aquele que traduz não deve interpretar, porque toda tentativa de interpretação compete ao pastor, que tem justamente essa tarefa, e não ao filólogo ou ao liturgista.

Infelizmente, explica o cardeal, depois do Concílio, assistimos ao esforço de curvar a liturgia às exigências de compreensão e não, ao contrário, ao esforço de formar melhor e mais os fiéis, de modo a torná-los cada vez mais conscientes da profundidade e da grandeza do mistério eucarístico. Ocorreram, assim, as tantas deformações no sinal da banalização formal e da incompreensão teológica, com o homem, e não Deus, cada vez mais no centro da ação litúrgica.

Notáveis e claras, a esse respeito, são as palavras de Sarah: "A liturgia não deve ser um ‘laboratório’ do nosso agir; não é um projeto para levar a termo uma revolução antropocêntrica que desloque Deus do centro da ação de culto".

Então, render-se à complexidade? Não se trata de se render, mas de assumi-la. Não se pode simplificar tudo. Diante do mistério, em grande parte inapreensível por causa da finitude da mente humana, só há uma atitude a que podemos nos abandonar, "a acolhida mediante a adoração".

Tudo isso significa que não devemos fazer nada para facilitar a compreensão da liturgia por parte dos fiéis, mas também dos ministros?

Certamente não, mas a resposta é a de antes: não se trata de banalizar a liturgia, curvando-a à mentalidade do tempo ou até ao "politicamente correto". Trata-se, em vez de disso, de formar os fiéis, ajudando-os a alcançar uma maior consciência daquilo que a liturgia é.

Um ponto está particularmente no coração do cardeal Sarah. De acordo com uma certa linha teológica, explica, os textos litúrgicos transmitidas pela tradição, por causa dos seus conteúdos, constituiriam um obstáculo a uma evangelização eficaz, razão pela qual seria o caso de modificá-los. De acordo com essa linha teológica, toda a terminologia sacrificial, em particular, ofereceria "uma imagem de Deus não credível para o homem atual ou, pelo menos, muito distante da sua sensibilidade". Daí a ideia de diluir a dimensão sacrificial, de modo a não provocar no homem de hoje um afastamento, senão até uma rejeição. Uma preocupação compartilhável?

Absolutamente não, responde Sarah, que explica: "Na verdade, eu me pergunto se essas categorias sacrificiais, recolhidas por todo o magistério recente, realmente estão defasadas e devem ser substituídas para possibilitar a evangelização. Devemos ter cuidado, porque todos podemos sofrer a tentação de pretender fugir do sacrifício, da cruz".

Particularmente atuais são as palavras do Papa Francisco, proferidas na sua primeira missa celebrada como bispo de Roma (Capela Sistina, 14 de março de 2013): "Quando caminhamos sem a Cruz, quando edificamos sem a Cruz e quando confessamos um Cristo sem Cruz, não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, somos bispos, padres, cardeais, papas, mas não discípulos do Senhor".

É forte a tentação de considerar que somos nós que amamos a Deus e que não é Ele que nos ama, não é Ele que ama por primeiro e que, justamente por amor, enviou o Seu filho como vítima, em expiação dos nossos pecados. Todas as expressões sacrificiais que se encontram no missal, esclarece Sarah, não impedem a evangelização: ao contrário, são o seu fundamento.

Portanto, se é verdade que são legítimas as tentativas de tornar a liturgia mais inteligível sem desnaturá-la e empobrecê-la, é igualmente verdade, como disse Bento XVI (discurso aos párocos e ao clero da diocese de Roma, 14 de fevereiro de 2013) que "só uma formação permanente do coração e da mente pode realmente criar inteligibilidade".

E, para percorrer esse caminho, conclui o cardeal Sarah, é preciso muita humildade: "A liturgia é recebida na Igreja como um dom vivo que nos supera, nos avassala e, ao mesmo tempo, nos une na obediência amorosa do Filho eterno ao Seu pai no Espírito Santo".

Humildade é a palavra para se refletir. Porque, muitas vezes, nas nossas igrejas, mais do que com humildade, se trabalha com imaginação, senão com excentricidade. Com todos os resultados que, infelizmente, conhecemos muito bem.

* * *

"Id bene intelligentes per ritus et preces" (SC 48): a participação ativa e a inteligência necessária do povo de Deus

Andrea Grillo

Do como como foi apresentada por Aldo Maria Valli – com base em um texto amplamente citado do cardeal Sarah – parece que a questão da "inteligência do mistério" na Sacrosanctum concilium pode prescindir totalmente do "traduzir de modo compreensível".

Há talvez qualquer razão diferente do "traduzir" senão na possibilidade de tornar compreensível um texto que não o é mais? Se negarmos essa evidência primária e escrevermos sempre "compreender" entre aspas, como podemos, depois, recuperar um sentido da realidade da tradição e da própria experiência de fé?

Obviamente, o simplismo dessa abordagem – que é de Valli, mas originalmente de Sarah e da Congregação para o Culto Divino, há pelo menos 15 anos – leva a consequências paradoxais. Nela, lê-se que a humildade orientaria a não ter a pretensão de compreender, embora eu acredite que isso não é humildade, mas presunção. A verdadeira humildade consiste no "esforço da tradução", não na pretensão de não traduzir. Fazer-se a pergunta sobre se as traduções devem ser "compreensíveis" revela – já por si só – uma distorção do olhar. Toda tradução é justificada apenas por tornar um texto acessível (ou um gesto, ou um canto, ou um espaço, ou um tempo) que tal não é mais. Obviamente, as traduções, em todos os casos, podem ser bem ou mal feitas, podem ser ricas ou pobres: mas não há alternativa a elas.

Mas tentemos entender melhor onde está o problema. A origem – das palavras de Sarah e da retomada de Valli – está em um documento de 2001 – Liturgiam authenticam – ao qual eu dediquei, com preciosas colaborações de colegas, inúmeras postagens há alguns meses [que podem ser encontradas no blog do autor sob o título "Identikit della VI Istruzione"]. De fato, ele estabelece critérios para a tradução que tornam impossível traduzir de modo compreensível. Parece um texto humilde, mas é um texto altamente presunçoso. Porque, contra toda a tradição antiga e moderna, ele ousa afirmar que a fidelidade ao texto passa apenas pela "tradução literal", palavra por palavra. Isso foi negado por toda a tradição, que sabia que, muitas vezes, precisamente a tradução literal era a mais infiel.

Mas, se analisarmos a Sacrosanctum concilium, vemos bem como a questão da "inteligência" é totalmente central para a definição da "novidade" mais decisiva do texto. E é realmente desconfortável ler em Valli – e, infelizmente, também em Sarah – que a tradução só levou a abusos. A Sacrosanctum concilium pede que "a inteligência do mistério eucarístico ocorra por meio de ritos e orações". Ou seja, que as ações rituais e as palavras da oração se tornem mediação comum a todos os fiéis.

Essa é uma nova perspectiva sobre a tradição, que implica e impõe diversos tipos de traduções:

- traduções de textos;

- traduções de gestos, ações, movimentos;

- traduções de músicas e cantos;

- traduções de espaços e tempos;

- tradução de ministérios.

As competências postas em jogo não são só literárias, mas também rituais, musicais, temporais, espaciais. A grande tradição pode e deve ser traduzida para continuar sendo ela mesma. Porque todos os membros do povo de Deus têm fome e sede de "inteligência do mistério".

Essa é a tarefa que tomou a forma de uma grande e necessária Reforma Litúrgica. Que é um grande esforço de "inteligência", mas não para simplificar ou reduzir a tradição, mas para lhe restituir toda a sua complexidade.

Não é só o latim, não é só o gregoriano, não é só o tabernáculo sobre o altar maior, não é só a imobilidade do povo de Deus nos bancos, não é só o altar na parede, e não é só a ausência de ambão que garantem a tradição. Ao contrário, sobre tudo isso, abriu-se um grande canteiro de obras, que enriqueceu a tradição. Certamente também com exageros e falhas, como era inevitável. Mas não é possível voltar atrás. Toda pretensão de "abrir mão da tradução" é falta de humildade e resistência na presunção.

O fato de a Sacrosanctum concilium nos dizer que a participação inteligente ocorre "per ritus et preces" significa que ela não ocorre apenas "por palavras", mas também por meio de todas as linguagens de que a tradição está rica. Mas atenção: essas linguagens também devem passar por um processo de "tradução", para que possam permanecer na tradição. Porém, é preciso esclarecer: traduzir não é "afastamento" do texto/rito, mas "aproximação" ao texto/rito. Isso parece escapar completamente de Valli/Sarah.

A liturgia não é, acima de tudo, "dentro", mas "fora". Não só nas palavras ditas, mas também nas ações feitas, nos cantos entoados, nos espaços vividos e nos tempos ritmados. Esse grande "canteiro de obras" precisa da convicção criativa, acima de tudo da Congregação. Que, em primeiro lugar, deveria acompanhar positivamente o crescimento dos nossos usos, em vez de elencar negativamente listas infinitas de abusos.

O controle obsessivo dos abusos é a pior maneira de "escapar da Cruz". Lavamo-nos as mãos, em vez de acompanharmos a mudança necessária. Uma tradução "compreensível" não é um escândalo, mas é aquilo a que a Igreja é chamada desde sempre. Apenas nas últimas décadas pretendemos "compreender sem traduzir": essa é a falta de humildade fundamental, da qual devemos nos libertar.

Para a "compreensão do sacrifício", nunca podemos nos refugiar no "sacrifício da compreensão". Essa solução simplista, que Valli retoma de Sarah, demonstra uma incompreensão grave da tradição litúrgica e eclesial, com a qual não podemos consentir. Uma tradução não é compreensível porque "reduz o mistério", mas porque o torna ainda mais rico. A tradução ser empobrecimento é o pressuposto de uma leitura equivocada da história e da Igreja. Não há alternativa à tradução: mas a garantia de boas traduções não é apenas a letra do texto.

Dito de um modo ainda mais claro: para ser humilde e fiel, é preciso ser criativo e imaginativo. Nos primeiros séculos, em Roma, quando se passou do grego para o latim na liturgia, não se fizeram traduções, mas novas formulações. Se renunciarmos à criatividade e à imaginação, tornamo-nos presunçosos muito facilmente. E a presunção das duas últimas décadas produziu ou traduções inutilizáveis ou traduções não aprovadas. Por acaso, não é esse o abuso pior? Quem poderá se sentir garantido pela paralisia da tradição? E paralisia e humildade podem realmente soar como sinônimos?

Fazer teologia "de joelhos" nunca significa equiparar o "intellectus sacrificii" com o "sacrificium intellectus". Uma inteligência "mais ampla", não "mais estreita", da tradição não é apenas a nossa tarefa, mas o nosso destino.

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