Dilma Rousseff e o ódio político: uma mais-resenha

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29 Agosto 2016

Neste artigo é apresentada uma “mais-resenha” do livro do psicanalista brasileiro Tales Ab’SaberDilma Rousseff e o ódio político”. Ab’Saber que também é autor de ‘Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica’, apresenta uma vigorosa relação crítica entre o lulismo, consumismo e cultura pop. “O livro de Tales Ab’Sáber é uma provocação política. Seu itinerário aparece com uma premissa fundamental que nos ajuda a compreender a derrota do campo democrático popular no cenário político atual. Sua premissa é que as funções da personalidade lulista, como conciliatória e mantenedora de um consenso social, foram os fundamentos da imobilidade crítica e consequente derrota política da esquerda. Nesse sentido, este livro é um herdeiro natural – posto que demonstra os desdobramentos políticos concretos – de seu Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica.”

O artigo é de Douglas Rodrigues Barros, publicado por LavraPalavra, 26-08-2016.

Eis o artigo.

Em suas entrelinhas surgem os tipos políticos que aparecem depois do que se convencionou chamar de esgotamento do pacto social a partir, sobretudo, de 2013. Vale lembrar que o livro é de 2015 e busca, no frigir dos ovos, analisar um problema particularmente novo – mas de nenhum modo surpreendente; a ascensão da nova direita. A falta de surpresa ante essa nova direita também é parte integrante da visão crítica do autor que dará um mergulho nos anos antecedentes dos governos petistas a fim de demonstrar aonde se encontram suas raízes.

Tales Ab’Sáber busca na análise do ódio político, advindo desse novo tipo, suas causas. Manejando o arsenal teórico-crítico psicanalítico demonstra como “no auge do poder (petista), começava-se a plantar a semente da derrocada […] o que foi se revelando uma fuga para frente de Lula poderia encontrar um limite muito maior do que toda a autoconcepção e o narcisismo que a moviam podiam conceber” (AB’SÁBER, 2015, p.14). A união entre virtude e fortuna, ou melhor, entre um carisma pop baseado na reprodução patriarcal do velho Brasil unido ao relativo sucesso econômico dos anos pré-Dilma foram o que possibilitou Lula escolher qualquer um como seu sucessor. A evocação do passado, ou seja, a reprodução da mesma política sob o título de esquerda se realizava, dessa forma, na líder tecnocrática.

Por isso, “a elite tecnocrática, agora dita de esquerda, era de fato o mais amplo e antigo positivismo brasileiro, transfigurado em agenciamento técnico com o desenvolvimento industrial da segunda metade do século XX” (AB’SÁBER, 2015, p.16).  Um anacronismo cujo fundo está permeado de uma busca neodesenvolvimentista abortada nos idos da década de 1960. Um anacronismo que oculta aquela velha tendência empirista desenvolvida no interior da esquerda de que os problemas políticos são e estão reduzidos ao problema econômico. E, é nesse sentido, que Tales Ab’Sáber irá demonstrar a inabilidade “diplomática”, de certa forma famosa, da ex-presidenta como um dos constitutivos da crise.

Naturalmente, para o autor, essa inabilidade tecnocrática é somente uma parte do todo. Há diversos problemas que se atrelam a esse. E nesse passo da crítica seu olhar se volta à invenção do ódio que determina o horário político de nossos dias. Dito de outra forma, o olhar de Ab’Sáber percorre criticamente a seletividade das pautas da nova direita cujo discurso se volta interessadamente, não contra a corrupção em si, mas, contra aquilo que essa nova direita crê ser o mal absoluto: o PT.

Por isso, talvez,

“quando o mesmo público, que se levanta indignado por um sistema de corrupção, convive bem com outro e com quem pede o retorno de alguma ditadura no Brasil […] quando papais e mamães ficam felizes com as fotografias de seus filhos abraçados a policiais militares durante manifestações na Avenida Paulista, em uma época em que a polícia brasileira é denunciada como uma das que mais mata no mundo, especialmente jovens pobres e negros […] talvez, então, nesta hora histórica de meio transe, seja difícil – para muitos dos que estão excitados, ou correndo risco iminente de prisão, ou movidos pelos interesses mais baixos de ódio e de vingança (de classe?) – pensar com processos de sentido mais amplos, que, todavia, nem sempre são meramente simbólicos.” (AB’SABER, 2015, p.24).

A fermentação de um polo reacionário e ultraconservador vai borbulhando nas marchas e contramarchas de um governo cuja conciliação de classes se reduz, a partir de 2010, a um olhar tecnocrático. E a marola da derrocada financeira pós 2008 vai, tal como início de onda, se aglomerando em águas aparentemente tranquilas que de repente se demonstram rebeldes e destrutivas.

Parece-nos, e a análise de Tales Ab’Sáber corrobora essa hipótese, que a crise econômica mundial, cuja explosão nos centros financeiros foi devastadora, legou para as economias periféricas uma onda de choque que, como tal, levou algum tempo para arrasar as economias dependentes e chegar nesses trópicos. Entretanto, nem Lula nem seus respeitados economistas observaram esse fenômeno. E, por fim, quando Dilma Rousseff faz o papel de substituta sua posição inerente as tecnocracias impediram-na de se debruçar sobre essa alteração no quadro político do país.

Dessa forma, o autor especifica a abertura de um flanco de combate contrário as políticas econômicas impostas pelo governo de Dilma. O desgosto com os rumos políticos se dá principalmente na tentativa do governo controlar a taxa de juros dos bancos pela constante ingerência na Selic: “uma importante nova onda de baixa de juros bancários brasileiros, promovida pelo governo, chegou ao seu ponto mais baixo, e gradualmente, disparou o discurso e a organização social de interesses contra a política governista” (AB’SÁBER, 2015, p.26).

Algo de grave se anuncia aí; por um lado, as pequenas medidas de caráter social que impactaram para melhorias fundamentais começaram a ser ameaçadas por um jogo “místico” no interior do mundo financeiro no qual a política se reduziu; por outro lado, se mantém a postura tecnocrática de lidar com esses problemas sociais e políticos como reduzidos a situação imposta pelo mercado financeiro. A guerra então teve início. O cenário econômico vai se tornando complicado e as medidas conciliatórias não vibram mais no diapasão de um pacto de paz social e unidade feliz entre as classes antagônicas.

Sendo assim, se este foi o primeiro ato da bancarrota, o segundo ato com certeza será realizado no espetacular Junho de 2013. O que Dilma Rousseff e o ódio político demonstram é que o junho de 2013 foi a constatação de uma luta da esquerda contra a esquerda. Em termos sucintos e, por isso, genéricos, junho foi a comprovação de que de fato o Partido dos Trabalhadores já havia não apenas se deslocado da base política e social que o alçou ao poder, como também, a burocratização que tragou para seu interior grandes movimentos sociais fez surgir novos forças radicais à esquerda.

Forças que estavam mais em sintonia com o tempo presente do que os movimentos que, outrora atuantes, com o pacto social e unidade com o governo foram tragados pela burocratização. Na surpresa avassaladora de Junho vieram o cansaço e a revolta ante problemas que até então eram ignorados. “O desrecalque utópico das sociedades de classes, apesar dos mecanismos cada vez mais sofisticados de assimilação e controle, é sempre um espectro que ronda concretamente o mundo do mercado” (AB’SABER, 2015, p.32). Uma nova oxigenação política parecia, então, se abrir, mas fora brevemente sufocada por frações da elite dominante que, descontentes, souberam capitanear aquela emergente revolta por meio da espetacularização e esvaziamento da pauta.

Houve, com isso, dois momentos fundamentais na perda de forças governistas; por um lado, os bancos e seus tubarões financeiros cansaram de ceder dinheiro ao projeto de esquerda petista; por outro, as ruas que de início clamaram por demandas sociais legítimas foram tomadas por um novo agente político. E, assim, o ódio político ganhou as avenidas:

Com o realinhamento gradual e real do grande capital contra o governo, o homem conservador médio, antipetista por tradição e anticomunista por natureza arcaica brasileira mais antiga – um homem de adesão ao poder por fantasia de proteção patriarcal e agregada, fruto familiar do atraso brasileiro no processo da produção social moderna – pode entrar em cena como força política real, deixando de expressar privadamente um mero ressentimento rixoso, carregado de contradições, contra o relativo sucesso do governo lulo-petista, que jamais pode ser verdadeiramente compreendido por ele (AB’SÁBER, 2015, p.35, grifos do autor)

Tales não faz uma análise vulgar de que as forças de Junho já eram reacionárias ou foram culpadas por deixar escapar a serpente. Não. O autor se importa em demonstrar como as forças reacionárias começaram se definir a partir dos levantes legítimos, originalmente críticos, com várias demandas sociais reprimidas e não respondidas pelo governo.

Em outras palavras, a direita avança onde os ecos da crítica e as demandas legitimas de classe não foram ouvidas. Isto porque o governo, dito de esquerda, já está demasiadamente imiscuído com a estrutura político financeira de uma elite que doravante cansou-se dele por não mais conseguir manter o pacto social. Era o fim de um ciclo e seu total esgotamento.

Assim, Ab’Sáber movimentando seu arsenal crítico vai demonstrar os dispositivos do anticomunismo de verniz proto-fascista sendo elaborados muito antes da crise pós-junho. A aguçada visão do crítico se dispende em algo, a meu ver, impactante e abandonado por grande parte das análises sobre a crise política nos dias atuais:

Primeiro, que ao contrário das alucinações da direita que espuma ódio, vê-se como o Partido dos Trabalhadores dinamizou intensamente o mercado interno brasileiro alcançando não apenas um estado de pleno emprego como uma intensificação do consumo por parte das classes mais desfavorecidas. Segundo, isso favoreceu a construção de um ideário ideológico pró classe média, tão propagandeada por Lula, que colocava o consumo como conquista para além do antagonismo de classes e como algo mais importante que as condições básicas de dignidade, tais como; saúde, educação, moradia etc. Terceiro, que o resultado dessa lógica fomentou uma guinada “conceitual” da direita mais à direita que foi inclusive objeto do programa de um tal Fernando Henrique Cardoso nos idos de 2011.

A análise do velho cientista político em 2011 detém todos os elementos protofascistas que tomarão corpo a partir do levante genuíno de junho de 2013. Segundo FHC: “Seres humanos não atuam por motivos meramente racionais. Sem a teatralização que leve à emoção, a crítica moralista ou outra qualquer cai no vazio”. Estava lançado o programa da direita mais à direita abraçado e levado adiante pelo PSDB. Tal programa ganhou campo e nas redes sociais, jornais e blogs políticos se constituiu como força objetiva. O anticomunismo, desse modo, voltava com força numa retórica isenta de responsabilidade. Na sanha oportunista de elegantes estadistas e cientistas políticos o nível do debate público chafurdava na lama de interesses cada vez mais vexaminosos.

Porém, “Tal grosseria”, sinaliza Ab’Sáber (2015, p.44), “imatura e interessada seria simplesmente inaceitável por alguma vida política minimamente informada; se não se apoiasse em espetaculares erros reais do governo”. O que sinaliza mais uma vez que o caminho da derrota foi lançado nas bases de uma total cisão entre o outrora governo de esquerda e a sua base social. Cisão que marca o abraço do PT nas forças de sempre na política nacional: “bem ao contrário do que diz, o PT está sendo processado politicamente exatamente pela revelação do seu pacto com as grandes elites […]” (AB’SABER, 2015, p.61). Com efeito, isso fundamenta uma nova direita cuja expressão real e performática será Eduardo Cunha.

Ante o falecimento da forma política conhecida desde 1988, algo que Ab’Sáber infelizmente não aprofunda, surge o que o autor chama de Nova política: Judiciário. E aqui aparece a força e, ao mesmo tempo, a fraqueza de sua análise crítica. A força está em que Tales enxerga uma virada fundamental na política do Brasil. A fraqueza são os limites de sua análise presa a conjuntura que apontam positivamente para a judicialização. Uma ingenuidade (proposital?) que, isenta das visões político-ideológicas no campo pragmático da política polarizada, toma este ponto de vista para tentar situar como o fenômeno da judicialização política se espraia em algo inédito e positivo na vida do país.

Como sabemos, o que é isento no mundo político não fica isento por muito tempo e a análise de Tales Ab’Sáber restará incapaz de se dar conta de tal fato. O surgimento de Sérgio Moro como uma “novidade” na vida nacional pelo fato de que “todos os diretores e executivos mais importantes das empreiteiras mais ricas do país foram presos por ele” (AB’SABER, 2015, p.57), se mostrava como a superfície de algo mais profundo.

Algo profundo que demonstrava que a prisão dos membros de algumas empreiteiras propugnava um duelo entre frações da classe dominante. Frações de classe que agora se demonstravam vingativas contra seus próprios membros por estes abandonarem um projeto unitário para o comando da vida política no país. Frações de classes burguesas que lutavam inclusive para que o elemento punitivo judiciário cessasse e deixasse de fazer vítimas entre a própria elite dominante. Em jargão popular: “era preciso que alguns ovos fossem quebrados” para que o comando da vida política retornasse para as mãos “certas”.

Isso, no entanto, ficou demasiadamente evidente mais tarde. Por isso, a pergunta que se torna necessária é: como uma crítica que demonstra forte aprofundamento sobre os problemas que engendraram o esfacelamento de um governo dito de esquerda e o levante da extrema direita pôde reconhecer como positividade política a judicialização da política?

Eis uma pergunta que fica, para citar Gianfrancesco Guarnieri, como um grito parado no ar!

*O título sugere que a mais-resenha apresenta um excedente do que é normalmente apresentado como gênero de resenha, isto é, não trata somente de apresentar a obra, mas de tentar estabelecer com ela uma relação crítica.

Bibliografia

AB’SÁBER. Dilma Rousseff e o ódio político. São Paulo: Hedra, 2015.

ARANTES, P. E. A fórmula mágica da paz social se esgotou. Correio da Cidadania 17/07/2015.

POLESE, P. Tempestade Perfeita? A oposição a direita e os desafios da extrema esquerda in: Passa Palavra 25/07/2015

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