Paolo dall´Oglio, o profeta do deserto

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11 Agosto 2016

"O diálogo autêntico ganha vida no projeto de Paolo, com sua dedicação em situar-se no eixo do destino dos muçulmanos, na ânsia de compreendê-los a partir de dentro, mas sobretudo amá-los. O diálogo, como mostrou Marco Lucchesi, é essa 'zona de aventura, espanto e inquietação', que envolve a disposição e o risco de deixar-se habitar pelo outro. E Paolo avançou sem temor nesse itinerário da alteridade, animado pela cólera e pela luz, numa inquieta sede de transformar o mundo em espaço de irmandade".

O comentário é de Faustino Teixeira, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – PPCIR-UFJF, pesquisador do CNPq e consultor do ISER-Assessoria. É doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Entre suas publicações, encontram-se Teologia e pluralismo religioso (Nhanduti, 2012) e Ecumenismo e diálogo inter-religioso (Santuário, 2008).

Eis o artigo.

Acaba de sair publicado o novo livro de Marco Lucchesi, A longa noite Síria. Uma voz no deserto (Rio de Janeiro: Dragão, 2015, 70 p.). Trata-se de uma edição fora de comércio, realizada por iniciativa do poeta fluminense da Academia Brasileira de Letras. É uma bela obra que resgata a figura iluminada do buscador jesuíta romano, Paolo dall´Oglio (1954 -), que viveu parte importante de sua vida na Síria num velho mosteiro nas proximidades da cidade de Nabak: Deir Mar Musa el-Habashi, dedicado a São Moisés, o Abisissínio. Ali realizou uma exemplar missão inter-religiosa, congregando leigas e leigos cristãs no empenho dialogal com o islã.

Há uma primeira seção de cartas de Paolo dall´Oglio a Marco Lucchesi, bem como uma longa carta de Paolo a Kofi Annan a propósito da democracia consensual: sua proposta em favor de uma mudança constitucional na Síria. Na sequência, um texto de Marco – Meu irmão, o deserto - onde relata uma visita realizada por ele aos monges e monjas de Mar Mussa. Na ocasião, ouviu de Paolo dall´Oglio, responsável pela restauração do antigo convento, a razão mais nobre da presença da comunidade ali: “Abrimo-nos profundamente à religião muçulmana e à sua civilização, em virtude da tranquilidade de nossa fé em Cristo, e não por uma dúvida a seu respeito”.

O livro abriga também uma carta aberta, em árabe e em português, redigida por Marco Lucchesi e Faustino Teixeira, em favor da libertação de Paolo dall´Oglio. A carta foi endereçada aos seus presumíveis sequestradores, sendo também publicada na ocasião no site do Instituto Humanitas da Unisinos - IHU (05/08/2013).

Ao final, quatro breves artigos de Marco Lucchesi a propósito do tema, publicados no Jornal O Globo: A longa noite Síria (junho de 2012); Um diamante no vidro sujo do mundo (maio de 2013); Califado digital (junho de 2015) e  (agosto de 2014).

Esse “padre do deserto”, abuna Paolo, veio sempre tocado pelo lema da esperança. Esse foi o tema que adornou sua tese doutoral, dedicada ao trabalho minucioso de uma das mais belas Suras do Corão (Sura da Caverna – Al-kahf), que traz a questão dos adormecidos de Éfeso, dos sete jovens cristãos que, refugiando-se da perseguição romana, adormeceram numa caverna e só despertaram três séculos depois. O tema serviu de mote para a abertura do livro de Marco Lucchesi, acenando para essa pista da esperança:

“E dizem que permaneceram na caverna
por trezentos e nove anos” (Sura 18)

Foi para mim motivo de grande alegria poder prefaciar esse lindo livro de Marco Lucchesi, com as cartas proféticas desse monge singular. São testemunhos de uma beleza impar desse buscador implacável, cujo tecido da vida tem as marcas evangélicas da justiça e da solidariedade. Escolheu a Síria para realizar seu sonho de diálogo e fraternidade, seguindo o caminho indicado por Louis Massignon, de generosidade e hospitalidade efetivas, correspondendo também ao desejo de Deus, de uma igreja como ermida ancorada no deserto.

Retomo aqui a mesma indagação da jornalista francesa, Guyonne de Montjou, que se encantou com esse itinerário espiritual. Como entender a motivação essencial de alguém que deixa o seu país e a sua cidade, no coração da modernidade, para deslocar-se para a periferia do mundo, para aquele ângulo esquecido no meio do deserto? Não há dúvida, trata-se de uma motivação especial, misteriosa, que suscitou tamanha aventura. Paolo se enamorou do islã, desde o primeiro contato, fazendo carne com seu povo e partilhando seus ideais mais nobres. Sentia-se como um muçulmano, como expressou tantas vezes, sem deixar em momento algum sua paixão por Jesus. O islã para ele foi sempre um “espaço espiritual e cultural”, onde vislumbrou a realização efetiva de seu batismo.

O diálogo autêntico ganha vida no projeto de Paolo, com sua dedicação em situar-se no eixo do destino dos muçulmanos, na ânsia de compreendê-los a partir de dentro, mas sobretudo amá-los. O diálogo, como mostrou Marco Lucchesi, é essa “zona de aventura, espanto e inquietação”, que envolve a disposição e o risco de deixar-se habitar pelo outro. E Paolo avançou sem temor nesse itinerário da alteridade, animado pela cólera e pela luz, numa inquieta sede de transformar o mundo em espaço de irmandade.

Ele armou sua tenda no coração do deserto, numa experiência dialogal maravilhosa, com a comunidade mista de Mar Musa na Síria. Ali transcorreu trinta anos de sua vida, dando feição à sua compreensão viva do diálogo religioso, com uma peculiar visão de evangelização. Não estava ali para converter ninguém ao cristianismo, mas para confirmar cada um na sua própria tradição.

Entendia o seu seguimento de Jesus como irradiação de vida, ajudando os outros a realizarem o ideal da peregrinação para a verdade e o aprofundamento da experiência de Deus, sem qualquer proselitismo.

O projeto radical de Paolo em todo o seu percurso na Síria foi o de dar prosseguimento ao bonito ideal dos santos muçulmanos de Damasco, conhecidos como os abdâl, que viviam sua espiritualidade no cotidiano, de forma muitas vezes anônima, sacrificando sua vida em favor dos deserdados e excluídos. Assim também Paolo foi um abdâl escolhido por Deus para curar as feridas do mundo, numa dinâmica de gratuidade e dom de si.

Seu projeto, infelizmente, não teve sequência em razão da guerra fratricida que tomou conta da Síria, mudando drasticamente “a estética da proximidade”. Ele mesmo reconheceu que sua vida espiritual e mística de cristão apaixonado pelo islã foi “ferida pelo terrorismo” de tantas proveniências.

Tudo mudou a partir de então, aumentando sua dor e sua cólera. Foi expulso da Síria, depois retornou, apesar dos riscos e acabou sequestrado em julho de 2013. Seu destino permanece imprevisível. Deixou, porém, um recado para toda a comunidade mundial: “A umma humana deveria tomar para si as angústias e as feridas da umma muçulmana, com mais misericórdia, mais solidariedade, pois estamos todos juntos embarcados neste frágil planeta.”

Para além dessa “sintaxe do extermínio”, que predomina hoje, dolorosamente, na Síria, há que recorrer, com todas as forças disponíveis à “poética do diálogo”. Numa das cartas a Marco Lucchesi, de março de 2013, fala de sua esperança no papa Francisco, que junto com a diplomacia vaticana continua empenhando-se em favor da libertação de Paolo. Francisco, também um homem de Damieta, poderia proporcionar ao mundo a alegria de um novo Concílio de Assis.

Num de seus últimos livros, Cólera e luz (2013), Paolo sinaliza sua disposição de morrer para sustentar sua posição de solidariedade, que deve ir até o fundo. E reafirma essa coragem numa de suas últimas mensagens a Marco, quando diz estar “tentado a caminhar para a morte, para o sacrifício... quase para insultar um céu e alguns deuses insensíveis.” Não vê sentido numa vida que seja diferente daquela habitada pelo dom radical ao outro. Revela também sua fé inquebrantável numa Nova Jerusalém, como tenda bendita de uma fraternidade em Abraão e exemplo para a bem-aventurança do mundo.

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