O padre que salvou 5 mil pessoas graças a um telefone escrito em uma parede

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Por: André | 30 Junho 2016

Quando o telefone tocou às 3h da madrugada naquele seminário de Roma, ao jovem Mussie Zerai se lhe ocorreu que talvez se tratasse de uma brincadeira de mau gosto. Mas, ao atender, soube que não se tratava disso: ninguém podia fingir aqueles gritos de desespero nem o barulho das ondas do Canal da Sicília. Quem estava do outro lado da linha era um compatriota eritreu que lhe implorava ajuda e lhe suplicava que salvasse a sua vida e a do resto das pessoas a bordo de um barco a ponto de afundar em águas do Mediterrâneo.

A reportagem é publicada por El Confidencial, 29-06-2016. A tradução é de André Langer.

O aspirante a sacerdote não sabia o que fazer nem a quem recorrer, tampouco como tranquilizar o seu compatriota para que lhe desse pistas sobre onde o barco podia estar. Quando conseguiu, explica por telefone ao El Confidencial da Suíça, acordou um superior e ambos procuraram nas páginas amarelas o número da Guarda Costeira da Marinha italiana. Graças ao sinal de alerta que os dois religiosos deram, a Guarda Costeira italiana localizou o barco e conduziu os seus ocupantes, são e salvos, à ilha italiana de Lampedusa.

Foram apenas os primeiros. Desde aquele telefonema de 2003, Mussie Zerai, padre eritreu – agora com 41 anos –, salvou milhares de refugiados de guerras, fomes e ditaduras. No princípio, o fazia sozinho, atendendo a certos telefonemas em seu celular pessoal a qualquer hora nos sete dias da semana. Com o tempo, chegou a dominar a difícil tarefa de tranquilizar pessoas quase sempre aterrorizadas e explicar-lhes como e onde encontrar as coordenadas do GPS nos telefones satelitais que alguns tinham, a pista chave que levou muitas vezes – nem sempre – a um resgate bem sucedido por parte da Guarda Costeira italiana.

“Em 2003, um jornalista italiano que tinha visitado as prisões para imigrantes do regime de Gadafi, me pediu ajuda para falar com um refugiado eritreu e depois o traduzisse, motivo pelo qual falei por telefone com este compatriota que estava preso na Líbia”, recorda Mussie Zerai.

“Caso necessitar de ajuda, ligue para este telefone”

Assim chegou o número do religioso às mãos desse aspirante a refugiado eritreu que, em uma manifestação de solidariedade, não o guardou apenas para si mesmo, mas o escreveu em um muro daquela prisão, acompanhado das seguintes palavras: “Caso necessitar de ajuda, ligue para este telefone”. Desde aquele primeiro telefonema de socorro em 2003, esse telefone não mais parou de tocar. Seu número salvador apareceu desde então não apenas nas paredes de prisões para imigrantes do norte da África, mas também nos barcos que chegam a Lampedusa e inclusive nos contêineres em que os traficantes às vezes escondem os refugiados para atravessar o deserto do Sudão.

A voz de que o Pe. Zerai socorria os refugiados em apuros correu tanto e tão depressa que logo o religioso eritreu viu-se desbordado. Então, “inspirado em seu trabalho”, recorda, foi criado uma central de chamadas telefônicas, chamada Watch the Med (Vigia o Mediterrâneo). Nessa linha de atenção urgente, dezenas de voluntários atendem em diferentes idiomas candidatos a refugiados em perigo que telefonam de lugares tão distantes como o Iêmen ou a Indonésia.

O padre Zerai criou também a agência Habeshia, uma organização sem fins lucrativos cuja finalidade é ajudar a integração econômica, social e cultural das pessoas que necessitam de proteção humanitária. O trabalho do religioso eritreu o fez merecedor, no ano passado, de uma candidatura ao Prêmio Nobel da Paz. Segundo dados da própria Guarda Costeira italiana, seus telefonemas indicando a posição de embarcações em perigo salvaram pelo menos 5 mil pessoas desde 2003.

Quando se premia os regimes culpados

O padre Mussie Zerai fala devagar e com um tom sereno. Sua voz só sobe levemente de tom quando evoca as políticas da União Europeia em matéria de imigração e asilo político, que ele define como “criminosas”. Porque este religioso não proporciona apenas coordenadas de barcos perdidos; também trata de criar consciência em diálogos com o Governo italiano e as instituições europeias que, no momento, deram pouco fruto. Também não duvida em ir a Lampedusa para visitar e fazer gestões em favor dos refugiados trancafiados nos centros de detenção: “Faço o que considero ser meu dever”, resume a El Confidencial.

Seu trabalho já foi parar nas páginas de meios de comunicação internacionais, e publicações como The New Yorker e o jornal The New York Times dedicaram-lhe amplas reportagens. A relevância pública que começou a ter serve-lhe de plataforma para denunciar máculas como o tráfico de seres humanos no Sudão e na Península do Sinai.

Os êxodos massivos de pessoas se veem agravados – sustenta – porque os regimes “responsáveis pela fuga destas pessoas obtêm financiamentos da União Europeia”. Assim como tantos eritreus, Mussie Zerai foi um refugiado em sua juventude. Nasceu em Asmara, a agora capital eritréia, em 1975 e muito cedo ficou órfão de mãe e também sem pai, pois seu progenitor teve que fugir do país para salvar a vida. Sua infância transcorreu em meio a bombardeios da guerra pela independência da Etiópia, uma independência que veio em 1991. No entanto, a libertação serviu apenas para deixar caminho livre para uma ditadura criminosa que ainda não terminou e da qual o então adolescente eritreu fugiu para colocar-se a salvo na Itália, o país que o acolheu no princípio da década de 1990.

Ele não foi o único. Desde então, centenas de milhares de seus compatriotas converteram-se em refugiados de um regime a cujos abusos ninguém pôs limites. Em 2015, recorda o padre Zerai, “os eritreus foram o segundo país em número de refugiados que chegaram à Europa”. Esta diáspora e os êxodos massivos de pessoas de outras nacionalidades se veem agravadas – sustenta – porque os regimes “responsáveis pela fuga destas pessoas obtêm financiamento da União Europeia”.

Os dados lhe dão razão. Um relatório das Nações Unidas de começo de junho acusava o regime eritreu de “violações em massa de direitos humanos” e de manter na escravidão centenas de milhares de pessoas, além da prática corrente de execuções extrajudiciais e todo tipo de atrocidades. Calcula-se que cerca de 5 mil eritreus fogem de seu país cada mês. Isso não foi impedimento para a União Europeia conceder recentemente à ditadura eritréia um pacote de ajuda de 200 milhões de euros. Nesse mesmo dia, em 23 de março passado, as instituições europeias aprovaram, por sua vez, o financiamento da administração do presidente sudanês Omar al Bashir para que controle melhor suas fronteiras. Sobre Al Bashir pesa um mandado de busca e apreensão do Tribunal Penal Internacional de Haia por genocídio e crimes de guerra e contra a humanidade.

Um “imenso cemitério”

“As políticas europeias de imigração dos últimos 20 anos não apenas se centraram inutilmente no fechamento das portas da Europa, mas favoreceram os traficantes de pessoas e inclusive o tráfico de órgãos em países de trânsito. Quanto mais difícil e perigoso é entrar na Europa, mais lucrativo é o negócio dos traficantes, que pedem quantidades mais altas às suas vítimas”, lamenta-se o religioso.

“A Europa sabe unicamente erguer muros e colocar arame farpado em vez de tratar de compreender o que está acontecendo, por que estas pessoas fogem e contribuir para a criação das condições de vida dignas que evitem que tenham que colocar em perigo as suas vidas. Isso não se faz financiando precisamente os responsáveis por estas pessoas terem que fugir de seus países”, continua.

De acordo com cálculos de diversas organizações humanitárias, cerca de 30 mil pessoas morreram desde 1993 enquanto procuravam alcançar as costas europeias. Somente em 2015, a Organização Internacional das Migrações contabilizou 3.771 mortes. Esse número corresponde às mortes registradas, mas seu número real é, com certeza, maior. A União Europeia descumpriu até o momento a promessa que fez em 2015 de acolher 160 mil refugiados; no final do mês de abril passado, pouco mais de mil tinham sido reassentados. No caso da Espanha, que no ano passado se comprometeu a receber 16 mil refugiados, chegaram apenas 62. Destes, 39 são eritreus.

“A nossa organização concedeu bolsas de estudo para jovens eritreus na Etiópia. Mesmo se estes jovens alimentam o sonho de ir à Europa, dando-lhes uma bolsa se está fazendo com que fiquem na Etiópia durante quatro ou cinco anos”. Os Estados europeus se escudam em razões econômicas, mas esse argumento não é suficiente para o homem a quem a imprensa italiana chama de “âncora” ou “o anjo guardião” dos refugiados. Para começar, porque assegura que a política europeia de imigração transformou-se em um “negócio”. E cita o caso da Frontex, a agência europeia de controle de fronteiras.

“A Frontex tem um orçamento de 90 milhões de euros e mesmo assim não consegue evitar a entrada de pessoas que buscam refúgio. Esse dinheiro é usado para expulsar os refugiados, o que custa cerca de 3 mil dólares por pessoa. Quando, depois, sabemos que a Comunidade de Santo Egídio e as Igrejas evangélicas da Itália criaram um corredor humanitário para atrair refugiados de forma segura e que isto custou 400 dólares por pessoa, é evidente que o que falta é vontade política”, disse o religioso.

Na sua opinião, há alternativas. Por exemplo, favorecer que os refugiados de guerras e ditaduras como a eritreia desfrutem de condições dignas nos países que acolhem a maioria deles; ou seja, os Estados vizinhos: “A nossa organização concedeu bolsas de estudo para jovens eritreus na Etiópia. Mesmo se estes jovens alimentam o sonho de ir à Europa, dando-lhes uma bolsa se está fazendo com que fiquem na Etiópia durante quatro ou cinco anos, um tempo no qual essa pessoa talvez avalie se vale a pena arriscar a vida colocando-se nas mãos das redes de tráfico de pessoas. Se depois esse jovem continua a querer vir à Europa e finalmente o consegue, quem chegar será um profissional, por exemplo, um médico, que poderá contribuir para o desenvolvimento de seu país de acolhida e ganhar a vida”.

“A Europa deve reagir, porque, do contrário, o Mediterrâneo vai acabar se transformando num imenso cemitério”, conclui.

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