“Devo confessar que nas eleições passadas votei no Podemos e hoje estou arrependido”, diz González Faus, teólogo, a Pablo Iglesias

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Por: André | 09 Março 2016

“É muito bonito dizer que não se pode fazer uma política social de esquerda com uma economia de direita. Mas é uma irresponsabilidade dizer apenas isso...”, escreve o teólogo espanhol José González Faus, jornalista e jesuíta, em carta pública escrita a Pablo Iglesias e publicada por Religión Digital, 07-03-2016. A tradução é de André Langer.

Eis a carta.

A Pablo Iglesias. Devo começar confessando-lhe que nas eleições passadas votei no Podemos e hoje estou arrependido. Deixei as minhas antigas fidelidades que oscilaram entre o voto em branco e (em outros momentos, por exemplo na época de Anguita) no IU (Esquerda Unida). E o fiz porque me parecia o mais eficaz para nos livrarmos de Mariano.

Equivoquei-me e, por enquanto, não voltarei a votar em vocês. Acredito que a hora histórica reclamava de vocês uma atitude mais na linha do que pediram Manuela Carmena e C. Jiménez Villarejo.

Vou lhe dizer coisas duras, por isso queria deixar claro que não pretendo julgar sua pessoa, mas apenas sua atuação nestes dias de debate. Acredito profundamente que todos os seres humanos somos capazes de mudar, por mais difícil que pareça.

Você é um bom orador (mas também o senhor Rajoy o é, e muito bom). Só que a política é muito mais que oratória. Considero-me tão de esquerda quanto você e fui tão entusiasta do 15M quanto você. Mas, precisamente da esquerda, não posso compartilhar a sensação que você deu de arrogância e vaidade, de ligeireza e até de certa irresponsabilidade.

Prefiro a maneira de falar Íñigo Errejón, seu número dois, mais cheia de razões que de exibicionismo. Sua demanda pública de uma vice-presidência antes mesmo de ter começado a dialogar, me gelou o sangue. É muito bonito dizer que não se pode fazer uma política social de esquerda com uma economia de direita. Mas é uma irresponsabilidade dizer apenas isso, esquecendo que a Espanha não é um país independente: fazemos parte de uma Europa hoje dominada por um nazismo bancário.

E que, visto o sangue ruim e o egoísmo com que a União Europeia maltratou a Grécia, você não pode ignorar que se expõe a acabar como um Varoufakis solto por aí (por maior que seja a minha admiração pelo economista grego). Como cientista político, aceitará seguramente a frase de Giorgio Agamben sobre os campos de concentração: hoje “o campo é o mundo”; e concordará em que os países (ou melhor, os Bancos) do Norte da Europa procuram hoje converter os do Sul em pequenos “Läger” dissimulados.

Pois bem: não se sai de um campo de concentração passando direto para o palácio, mas melhorando um pouco a situação presente; e algo disto é o que acredito que buscava o pacto PSOE-Ciudadanos. Ou com outro exemplo melhor: essa figura exemplar que é José Mujica, ex-presidente do Uruguai, declarou em uma entrevista reconhecendo que não fez a metade do que queria fazer: “sou socialista, mas não sou estúpido”...

Enfim, se não ouvi mal (porque cheguei tarde), na conversa na (rádio) SER de sexta-feira 4 de março, outro homem de esquerda como L. García Montero disse (ou citou alguém que dizia) que o maior inimigo de Pablo Iglesias é ele mesmo. Pediria que não se esquecesse disso.

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