Reflexões sobre o frenesi em torno do prelado que supostamente quer que Francisco morra

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03 Dezembro 2015

A estratégia de marketing “rebranding” está em alta hoje nas comunicações corporativas atualmente, e uma questão que os gurus no assunto geralmente se veem a pensar é a seguinte: Quando se consegue um novo CEO que se dá bem em criar uma narrativa atraente, o que acontece com os velhos estereótipos e preconceitos de antes?

Se considerarmos o Papa Francisco como um tal CEO, o que às vezes ocorre é que aqueles estereótipos são remanejados, para empregar um outro jargão empresarial, para sustentar uma nova narrativa de oposição interna ao chefe.

Isso nos ocorre à luz de uma controvérsia iniciada na Itália centrada em Dom Luigi Negri, da Arquidiocese de Ferrara-Comacchio, em geral visto como um líder da ala conservadora da Igreja no país.

O comentário é de John L. Allen Jr., em artigo publicado por Crux, 01-12-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Na última quarta-feira (25 de nov.), o jornal Il Fatto Quotidiano apresentou em sua página inicial uma história baseada naquilo que descreveu como relatos de testemunhas oculares de um diálogo que Negri teria supostamente tido com o seu secretário há um mês abordo de um trem em direção a Roma.

Nele, o prelado de 74 anos teria dito esperar que a Nossa Senhora faça um milagre causando a morte do Papa Francisco, referindo-se ao exemplo do Papa João Paulo I, que morreu após apenas 33 dias de pontificado. Em tese, Negri também teria dito algumas coisas desagradáveis sobre as nomeações recentes do papa para as dioceses de Bolonha e Palermo. (O pontífice nomeou religiosos considerados de centro-esquerda.)

Os comentários foram reproduzidos pela imprensa italiana e acabaram rodando o mundo.

Nenhuma das testemunhas oculares foram identificadas, e até agora ninguém veio a público afirmar que ouviu o diálogo. Negri negou veementemente a reportagem, dizendo que ela se baseia em “invenções” tão fantásticas que o autor precisa de um “tratamento para os seus delírios neuróticos”, e ameaçou entrar com ação na justiça por difamação.

Com certeza, Negri é um candidato forte ao título de “anti-Bergoglio”, conforme o Fatto Quotidiano o apelidou.

Negri foi o braço direito de Dom Luigi Giussani, fundador do movimento Comunhão e Libertação, organização iniciada em Milão no começo do século passado e considerada fortemente conservadora. (Quando surgiram as notícias de que Negri havia feitos estes comentários, o movimento emitiu uma nota informando que ele não possuía, desde 2005, mais nenhum cargo de responsabilidade nela e professando lealdade a “todo gesto e palavra” do Papa Francisco.)

Na política italiana, Negri é visto como um apoiador do ex-primeiro-ministro conservador Silvio Berlusconi, mesmo após as acusações de que este havia mantido relações sexuais com uma prostituta menor de idade. Ele também está entre os prelados “pró-vida” mais ativos no país.

Entre outras coisas, Negri culpou os problemas econômicos da Itália em parte por causa da legalização do aborto, dizendo que “seis milhões de italianos jamais nasceram” e que a escassez de filhos tem levado [o país] a um “colapso”. Negri igualmente afirmou não que daria a Comunhão aos políticos católicos italianos de esquerda que apoiam as uniões civis para pessoas do mesmo sexo.

Tornando-se um alvo ainda mais irresistível, ele falou abertamente em defesa das Cruzadas e, recentemente, proferiu uma palestra sobre Satanás a exorcistas em Roma durante um seminário romano anual.

Talvez este contexto ajude a explicar por que um jornal usaria frases entre aspas atribuídas a Negri em uma manchete, sem citar fontes e sem checar a informação junto ao suposto falante. Mesmo segundo os padrões normais do jornalismo italiano, em que se considera aceitável atribuir um discurso hipotético a figuras públicas baseadas no que eles poderiam ter dito numa dada situação, o dizer do prelado parece forçado e fruto da imaginação.

Tal impressão fica mais clara ainda quando se vê que a poucos meses atrás Negri concedeu uma entrevista na qual disse que a decisão do papa em convocar um Ano Santo da Misericórdia o fez perceber um “crescimento em sinal de gratidão”. Na esteira da recente polêmica, ele disse que quer uma audiência com Francisco para reafirmar a sua lealdade.

Aqui apresento duas reflexões sobre o caso envolvendo o prelado italiano, bem distante da questão sobre se ele, de fato, disse ou não o que foi reportado.

Primeiro, independentemente do que tenha acontecido naquele trem, sem dúvida há inúmeros bispos que compartilham dos mesmos sentimentos atribuídos a Negri. Eles provavelmente não iriam rezar pedindo a morte do papa, o que é considerado uma violação terrível segundo a etiqueta católica, mas Negri dificilmente seria o único a estar desconcertado com certas nomeações e políticas adotadas por Francisco.

Em qualquer instituição, gerentes de nível médio ficam às vezes de mau humor com o chefe.

Houve resmungos entre os bispos a respeito de São João Paulo II durante quase 25 anos, e sobre Bento XVI houve durante os oito anos de seu papado. Aliás, os papas sempre tiveram problemas com os seus bispos – é uma característica da vida católica que remonta ao Novo Testamento e aos confrontos entre Pedro e Paulo.

Talvez as discordâncias parecem mais sensacionais agora porque, em geral, elas vêm da direita eclesiástica, e não da esquerda, o que trai a memória recente: a oposição encontrada pelos papas João XXIII e Paulo VI durante e após o Concílio Vaticano II, na maior parte vinda de prelados tradicionalistas, faz as tensões atuais parecerem brincadeira de criança.

Em outras palavras, não exageremos. Esta resistência existente ao Papa Francisco por parte de alguns bispos não é novidade, e provavelmente ela não é mais intensa do que aquela enfrentada por outros pontífices recentes.

Segundo, exatamente porque os velhos estereótipos nunca morrem, mas são simplesmente remanejados, há uma tentação hoje de ver uma oposição ao papa mesmo quando, na verdade, ela não existe, em parte porque isso acrescenta sentido ao drama.

Na atualidade, os prelados percebidos como ideologicamente conservadores ou pessoalmente elitistas – o tipo de bispo, digamos, que gosta de eventos de gala e de refeições em restaurantes finos mais do que ir visitar favelas – se tornaram ímãs especialmente poderosos para este tipo de especulação.

Isso não é o mesmo que dizer que muitos bispos identificados com este perfil não possuem dúvidas a respeito de Francisco. Com a natureza humana sendo o que é, eles quase certamente as têm.

Conforme o caso envolvendo Negri ilustra, no entanto, uma dose de precaução está presente no tocante às alegações do que tais figuras dizem ou fazem em relação a este papa, porque às vezes é difícil saber se o que está sendo apresentado é a realidade de uma dada situação ou se é resultado da sedução por uma narrativa quase irresistível.

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