“Costela”, ou “lado” de Adão, em Gn 2,21-22? Um texto de João Crisóstomo

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01 Setembro 2015

"Gostaria apenas de ressaltar que essa aproximação entre a pleurá de Gn 2,21 e a de Jo 19,34, praticamente não é mencionada pelos comentaristas. Não a vi em Schöckel, na 'Bíblia do Peregrino'; não a vi em Konings, nem em Léon-Dufour, nos seus Comentários a João", escreve Ney Brasil Pereira, mestre em Ciências Bíblicas e membro da Pontifícia Comissão Bíblica e professor no ITESC, Instituto Teológico de Santa Catarina, Florianópolis, SC.

Eis o artigo.

Introdução

Há certo tempo venho insistindo em que, apesar da tradução tradicional, o termo hebr. tselâ‘ em Gn 2,21-22 não significa “costela”, mas, como a LXX interpretou, “costado”, ou seja, “lado”, em grego pleurá [1]. É do “lado” de Adão, isto é, do “lado” tirado do homem, que “o Senhor Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem” (Gn 2,22). Esse “lado”, “um dos lados”, Deus o havia tirado do homem profundamente adormecido, “fechando o lugar com carne” (cf Gn 2,21). O argumento que mais me convenceu foi o fato de pleurá ser o termo que volta 4 vezes no evangelho de João, exatamente para designar o “lado” do Cristo, o novo Adão, de cujo “lado” perfurado pela lança do soldado, saiu sangue e água (Jo 19,34), símbolos patrísticos da Eucaristia e da Igreja, a nova Eva, formada do “lado” de Adão. É seu “lado” perfurado que o novo Adão mostra aos discípulos, na tarde do domingo pascal (Jo 20,20), e torna a mostrá-lo ao cético Tomé , que não queria crer “se não pusesse a mão no seu lado” (Jo 20,25.27). O mesmo termo, pleurá, sempre significando “lado”, em alguns manuscritos [2] aparece em Mt 27,49, e ainda nos Atos dos Apóstolos, na cena em que o Anjo toca o “lado” de Pedro, para despertá-lo (At 12,6) [3].

O texto do Crisóstomo

Numa de suas catequeses [4], o grande exegeta antioqueno, ao comentar exatamente Jo 19,34, assim fala: “Queres compreender mais profundamente o poder desse sangue? Repara de onde começou a correr e de que fonte brotou. Começou a brotar da própria Cruz, e a sua origem foi o lado (gr. pleurá) do Senhor. Estando Jesus já morto e ainda pregado na cruz, diz o evangelista, um soldado aproximou-se, feriu-lhe o lado com a lança, e imediatamente saiu sangue e água: a água, como símbolo do batismo; o sangue, como símbolo da eucaristia. O soldado, traspassando-lhe o lado, abriu uma brecha na parede de templo santo [5], e eu, encontrando um enorme tesouro, alegro-me por ter achado riquezas extraordinárias. Assim aconteceu com este Cordeiro. Os judeus mataram um cordeiro, e eu recebi o fruto do sacrifício.

Do seu lado saiu sangue e água: Não quero, querido ouvinte, que trates com superficialidade o segredo de tão grande mistério. Falta-me ainda explicar-te outro significado místico e profundo. Eu disse que esta água e este sangue são símbolos do batismo e da eucaristia. Ora, foi destes sacramentos que nasceu a santa Igreja, pelo banho da regeneração e pela renovação no Espírito Santo (cf Ef 5,26), isto é, pelo batismo e a eucaristia que brotaram do lado de Cristo. Pois Cristo formou a Igreja do seu lado traspassado, assim como do lado de Adão foi formada Eva, sua esposa.

Por essa razão, a Sagrada Escritura, falando do primeiro homem, usa a expressão osso dos meus ossos e carne da minha carne (Gn 2,23), que São Paulo [6] refere, aludindo ao lado de Cristo. Pois assim como Deus formou a mulher do lado do homem, também Cristo, do seu lado aberto, nos deu a água e o sangue para que surgisse a Igreja. E assim como Deus abriu o lado de Adão enquanto ele dormia, também Cristo nos deu a água e o sangue durante o sono de sua morte”.

Outro texto, breve, mas não menos significativo, por equivaler ao final do texto do Crisóstomo, é o do autor anônimo de “uma antiga homilia no grande Sábado Santo” [7]. Entre as palavras dirigidas pelo Ressuscitado a Adão, no mundo dos mortos, o autor formula as seguintes: “Adormeci na cruz e, por tua causa, a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti”.

Ainda um texto, este, de Agostinho, no seu Comentário a Jo 19,34: “O evangelista se serve aqui de um verbo bem escolhido e cheio de sentido. Ele não diz: ‘o soldado rasgou o lado do Senhor’, ou ‘ele o feriu”, ou outra coisa semelhante, mas diz: ‘ele abriu’. Eis que, de certa forma, foi aberta a porta da vida, pela qual saíram os mistérios da Igreja, sem os quais não podemos entrar na vida, naquela que é a verdadeira vida. Esse sangue foi vertido para a remissão dos pecados; essa água preparou o cálice da salvação, assegurando ao mesmo tempo um banho e um remédio. Isso foi anunciado anteriormente, quando Noé recebeu a ordem de abrir uma porta do lado da Arca, porta pela qual entrariam os animais que não deviam perecer no dilúvio. Esses animais prefiguravam a Igreja. É ainda por isso que a primeira mulher foi formada do homem adormecido e chamada ‘vida’ [8] , e ‘mãe de todos os viventes’ [9]. Pois a mulher representava um grande bem, antes que acontecesse a grande prevaricação. O Cristo, o segundo Adão, com a cabeça inclinada na cruz, adormeceu, para que se formasse sua Esposa daquilo que saíra do seu lado” [10].

Outros indícios

Creio que valeria a pena uma pesquisa mais completa, que não é meu objetivo aqui. Gostaria apenas de ressaltar que essa aproximação entre a pleurá de Gn 2,21 e a de Jo 19,34, praticamente não é mencionada pelos comentaristas. Não a vi em Schöckel, na “Bíblia do Peregrino”; não a vi em Konings, nem em Léon-Dufour, nos seus Comentários a João; não a vi em Westermann, no seu grande comentário do Gênesis [11] etc. Mateos e Barreto, porém, no seu comentário a Jo 19,34, escrevem, sucinta mas acertadamente: “A descrição da morte de Jesus como sono (Jo 19,30), e o uso do termo pleurá (lado), relacionam essa passagem com a da criação da mulher em Gn 2,21-22: ‘Então JHWH fez cair um torpor sobre o homem, e ele dormiu. Tomou um de seus lados (LXX: mían tôn pleurôn autou)... e do lado... modelou a mulher’......A primeira mulher era carne da carne de Adão e osso dos seus ossos (Gn 2,23); a nova esposa do Homem é espírito do Espírito de Jesus...” [12]. Brown, numa das notas explicativas a Jo 19,34, diz, de passagem, sem dar o devido relevo à referência: “Some, including Feuillet [13], have suggested that John is recalling the use (singular) in Gn 2,21-22 where God takes a pleurá from Adam and forms it into a woman” [14].

Ainda quanto à “costela” em Gn 2,21, encontrei a nota seguinte, de Derek Kidner, no seu breve comentário do Gênesis [15]: “Tem-se chamado a atenção para a conexão entre uma costela e a criação de uma mulher na estória sumeriana de Enki, para cuja cura foi formada Nin-ti. Este nome pode significar tanto ‘dama da costela’ como ‘dama que faz viver’ [16]. Mas, fora os dois temas da costela e da produção da vida, verbalmente ligados na narrativa suméria, não na hebraica, as narrativas têm pouca coisa em comum. Enki era um deus que havia causado em si mesmo oito doenças, e Nin-ti era uma das oito deusas criadas para curar as oito partes enfermas (no caso, sua costela)...” O que tenha isso a ver com a narrativa J, não parece fácil demonstrá-lo. Já Russell N. Champlin refere algo semelhante e afirma: “Os paralelos entre Eva e Nin-ti, tanto no tocante à definição de nomes, como no que concerne às funções, são por demais evidentes para negarmos qualquer conexão entre elas” [17]. O mesmo Champlin [18], porém, ao comentar Jo 19,34, registra de passagem a opinião de Wordsworth [19], o qual, “seguindo antigos Pais da Igreja, comenta que, assim como Eva foi extraída do lado do dormente Adão, assim também a Igreja e os sacramentos da Eucaristia (sangue) e do Batismo (água) emanaram do lado transpassado do Senhor Jesus.”

Por fim, entre esses “indícios”, não posso deixar de citar um artigo do Pe. Caetano Minette de Tillesse, propondo, já em 1986 [20], a substituição do termo “costela”, em Gn 2,21, por “lado” ou, como ele preferia, “banda”. Infelizmente, apesar da pertinente argumentação do autor, o artigo não teve a ressonância que merecia.

Conclusão

O assunto merece, por sinal, um exame detalhado da questão, uma monografia, ou mesmo uma tese. O fato é que, apenas considerando a argumentação sintética feita acima, especialmente o peso do texto de São João Crisóstomo, não me parece mais possível continuarmos falando da “costela” de Adão, em Gn 2,21, e sim do seu “lado”, como Jo 19,34 fala do “lado” do Senhor.

Notas: 

[1] Praticamente em todas (!) as traduções e comentários dessa passagem, nas várias línguas, não há a mínima referência ao termo empregado pelos LXX, que são, como sabido, os primeiros tradutores do texto hebraico original. O próprio Jerônimo, na Vulgata, nesta passagem traduz o hebr. tsela‘ pelo lat. costa (costela), sem levar em conta a opção dos LXX.: pleurá. A TEB, versão brasileira da TOB (Loyola, SP, 1994), chega a afirmar, em nota, sem comprovar a afirmação: “Único caso em que o termo hebr. tselâ‘ significa ‘costela’ e não ‘flanco’ ou ‘lado’, geralmente de um edifício, de onde o verbo ‘construir’...” Por que esse é o “único caso”? No “Antigo Testamento Poliglota”, da SBB, Ed. Vida Nova, SP, 2003), a nota crítica a Gn 2,21, sem fazer referência à LXX, apresenta apenas, como tradução opcional: “took part of the man’s side”.

[2] A inserção, claramente interpolada de Jo 19,34 (cf aparato crítico em NESTLE-ALAND, Novum Testamentum Graece, Ed. 26ª), não se encontra no texto latino da Vulgata nem, claro, no da Nova Vulgata.

[3] Na Bíblia da CNBB, o tradutor preferiu “ombro” a “lado”, não sei por quê. Na Bíblia de Jerusalém, na 4ª. impressão da “nova edição” (2006), a tradução está correta: “lado”. Correta, igualmente, a tradução da Bíblia “Almeida Século XXI”.

[4] CRISÓSTOMO, João, Cat. 3,15-19: “Sources Chrétiennes” 50,175-177, transcrito da “Liturgia das Horas”, vol. II, p. 416, segunda Leitura do Ofício das Leituras da Sexta-feira Santa (Ed. Vozes, Petrópolis, 1995).

[5] É sabido que, para João, o novo Templo é o corpo do Senhor: Jo 2,19.

[6] A que texto de Paulo o Crisóstomo alude? a 1Cor 11,8-9? ou a Ef 5,25-32? Quanto ao “osso dos meus ossos, carne da minha carne”, não tem nada a ver com “costela”, mas, segundo Gn 29,14; Jz 9,2; 2Sm 5,1, é simples expressão de parentesco próximo.

[7] Tradução em português na “Liturgia das Horas”, vol. II, no Ofício das Leituras do Sábado Santo, p. 438. Original grego do séc. IV, em PG 43,451

[8] De fato, o nome de Eva em grego, na LXX (Gn 3,20), é zôê, vida.

[9] No hebraico, hawwâ.

[10] Texto de Agostinho, tract. in Joan. 120,2 , cit. em CASEL, Dom Odo, “O mistério do culto no cristianismo”, São Paulo, Loyola, 2009, p. 55, nota 120. No mesmo livro de Dom Casel, à p. 37-38, encontra-se uma longa citação de METÓDIO de Olimpo (O banquete das dez virgens, Simpósio, III, 8), com a tradução equivocada de pleurá por “costela”.

[11] WESTERMANN, Claus, “Genesis 1-11, a Commentary”, SPCK, Londres, 1984, p. 230

[12] J.MATEOS-J.BARRETO, “O Evangelho de São João”, Grande Comentário Bíblico, Paulus, SP, 1989 (trad.), pp. 796-797.

[13] FEUILLET, A., “Le Nouveau Testament et le Coeur du Christ”, in “L’Ami du Clergé” 74 (may 21, 1964), pp. 321-333, especialmente pp. 327-333 sobre Jo 19,34, cit. por BROWN, Raymond, The Gospel according to John XIII-XXI, Doubleday, New York, 1970, p. 961.

[14] BROWN, Raymond, op. cit., p. 935.

[15] KIDNER, Derek, “Gênesis. Introdução e Comentário”, Ed. Mundo Cristão, Série Cultura Bíblica, SP, 1985 (tradução, 3ª edição), p. 62

[16] Aqui, KIDNER cita: S.N.KRAMER, History begins at Sumer (Thames and Hudson, 1958), p.. 194-196, e D.J. WISEMAN, “Illustrations from Biblical Archaeology”, Tyndale press, 1958.

[17] CHAMPLIN, Russell Norman, “O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo”, Ed. Candeia, SP, 2000, vol. I, p. 38.

[18] Id., “O Novo Testamento interpretado versículo por versículo”, Ed. Milenium, SP, 1979, vol. II, p. 624.

[19] Infelizmente, Champlin não dá mais detalhes sobre Wordsworth. Seria Charles Wordsworth, cuja obra, “The Greek Testament”, de 1875, é citada na bibliografia do comentário ao AT (cf nota anterior)?

[20] MINETTE DE TILLESSE, Caetano, in “Revista de Cultura Bíblica”, Loyola, SP, nn. 39-40, 1986, pp. 29-37, artigo depois publicado na “Revista Bíblica Brasileira”, ano 8, 1991, pp. 255-264. No momento, não me consta o título do artigo, o qual, porém, retrabalhado e com o título de “Matrimônio e Aliança”, foi republicado na mesma RBB, ano 12, 1995, pp. 439-449, em um número dedicado à “Teologia Narrativa da Bíblia”.

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