Narcotráfico e política na América Latina

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Por: Jonas | 21 Mai 2014

Para Juan Manuel Karg, pesquisador do Centro Cultural da Cooperação, na América Latina, “o mundo do narcotráfico e sua fastuosa geração de liquidez monetária, a baixo custo e com assombrosa rapidez, levaram diversas campanhas políticas a se envolver neste caminho da ilegalidade. Alguns dirigentes parecem preferir pagar o custo político que poderia significar a revelação desta ligação, para poder contar com importantes fundos para competir nas eleições, sejam internas - dentro de um próprio partido - ou gerais - por cargos executivos e/ou legislativos em cada país”. O artigo é publicado por Página/12, 18-05-2014. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A partir da recente denúncia sobre ligações entre o assessor político J.J. Rendón e narcotraficantes colombianos, que desencadeou na renúncia deste ao comando de campanha do candidato-presidente Juan Manuel Santos, a opinião pública da América Latina voltou a colocar em debate a relação entre dois mundos que parecem distantes, mas cuja inter-relação vem sendo crescente: a política e o narcotráfico. Quais dirigentes foram questionados pelas prováveis ligações com dinheiro proveniente deste mercado? Por que aumenta a colaboração entre as duas esferas?

Sabe-se que o mundo do narcotráfico e sua fastuosa geração de liquidez monetária, a baixo custo e com assombrosa rapidez, levaram diversas campanhas políticas a se envolver neste caminho da ilegalidade. Alguns dirigentes parecem preferir pagar o custo político que poderia significar a revelação desta ligação, para contar com importantes fundos para competir nas eleições, sejam internas – dentro de um próprio partido – ou gerais - por cargos executivos e/ou legislativos em cada país -. A contrapartida é a garantia de certa “impunidade” jurídica para poder operar, gerando uma espécie de círculo virtuoso, onde as duas partes se veem beneficiadas em curto prazo. O problema, claro, é a revelação a médio e longo prazo, e suas possíveis repercussões jurídico-midiáticas, chegando ao ponto de terminar carreiras políticas ou diretamente levar os envolvidos à prisão.

O “capo colombiano” Javier Antonio Calle foi quem revelou, nos Estados Unidos, que Rendón recebeu, há três anos, uns 12 milhões de dólares por parte dos três maiores narcotraficantes da Colômbia, supostamente para conseguir – com o governo de Santos – um acordo de rendição em troca da não extradição. Isto foi revelado pelo jornal colombiano El Espectador, que afirmou que finalmente o plano não funcionou porque se exigiu um acompanhamento de parte do governo dos Estados Unidos que jamais chegou. A não consumação do plano não nega o advertido por Calle: a ligação de Rendón com estes fatos, investigados agora pela Justiça colombiana.

Estes fatos aparecem somente na campanha de Juan Manuel Santos? De forma alguma. Rendón assessorou, ao longo dos anos, uma dezena de destacados dirigentes políticos em diversos países: Peña Nieto no México, Capriles na Venezuela, Juan Orlando Hernández em Honduras, o próprio Santos – e também Uribe – na Colômbia, De Narváez na Argentina e Quijano em El Salvador. Embora a denúncia atual se dê no momento da colaboração entre Rendón e Santos, esta revelação mancha indiretamente a todos estes dirigentes que, além disso, compartilham uma visão conservadora no âmbito político-econômico. Por quê? Nenhuma relação desta índole se dá de um dia para outro, e a hipótese de que Rendón tenha começado nestes meses, com manobras deste tipo, é certamente pouco factível.

Dois casos podem nos servir de exemplo para ilustrar o que dizemos. Em primeiro lugar, as declarações de um ex-chefe da DEA no México, Phil Jordan, que após a prisão do líder narcotraficante Chapo Guzmán, mostrou-se surpreso pelo caso, ao afirmar que “nunca pensei que o PRI (o partido governante) iria prendê-lo, porque El Chapo Guzmán colocou muito dinheiro na campanha de Peña Nieto. Ele sempre esteve envolvido na política por meio do dinheiro”. Depois disso, Jordan afirmou que a relação entre Guzmán e o PRI constava em relatórios da inteligência dos Estados Unidos. Em segundo lugar, o deputado Francisco de Narváez foi investigado pela Justiça argentina por suas supostas ligações com Mario Roberto Segovia, condenado em 2012 a 14 anos de prisão por 91 envios de efedrina para o México. O que aconteceu? Anos atrás, a partir de um telefone de propriedade de De Narváez, foram realizadas três chamadas para o celular de Segovia, de acordo com o que foi levantado pelo jornal La Capital de Rosario. Ao depor, por meio de um escrito na causa que o investigava, De Narváez disse que não fez as ligações, embora tenha admitido que o telefone de onde foram feitas, sim, pertence a uma frota sua, reconhecendo indiretamente o vínculo. Quem assessorou De Narváez na campanha de 2011? J.J. Rendón, claro.

Após as novas revelações sobre Rendón, ficam abertas múltiplas interrogações sobre as ligações entre o mundo do “narcotráfico” e a política de nosso continente, uma relação não linear, complexa e de consequências imprevisíveis a médio e longo prazo, pela sensibilidade política e midiática que estes casos geram. Certamente, por cada revelação feita sobre o assunto, como as que destacamos neste artigo, numerosas conexões não são visíveis. Desta forma, “protege-se” a diversos dirigentes das possíveis implicações midiático-judiciais que novas divulgações poderiam dar, consequentemente. É possível, somente pelo âmbito judicial, regular a vinculação entre as duas esferas, com o objetivo de colocar por terra um fenômeno que parece se estender em todo o continente? Continuará crescendo a inter-relação, garantindo “mútuos benefícios” para cada uma das partes?

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