“Nós devemos ser narcisistas”. Entrevista com Fabrice Midal

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24 Fevereiro 2018

Nós estaríamos nos amando demais e por isso não seríamos suficientemente altruístas. É o contrário, afirma Fabrice Midal, filósofo e fundador da Escola Ocidental de Meditação. E convida para reler o mito de Narciso, que é mal compreendido. Ser narcisista não é ser egoísta, é ser benevolente consigo mesmo... amar melhor os outros.

A entrevista é de Élisabeth Marshall, publicada por La Vie, 18-01-2018. A tradução é de André Langer.

Cuidar do ser na sua totalidade, ouvir e conhecer a pessoa que está por trás do sintoma, este é hoje o caminho para ter saúde. A tecnologia, por mais performática que seja, muitas vezes salva a nossa vida, mas não pode responder completamente à necessidade de ser acompanhado. Esta constatação e a falta de tempo de um bom número de médicos deixam hoje um campo aberto a aproximações complementares. A ciência estuda-os mais detidamente e debruça-se sobre esta veia. Ao dar a palavra a médicos, pacientes, cuidadores, terapeutas, mas também a filósofos, que partilham uma mesma visão humanista das expectativas e das necessidades dos nossos contemporâneos, uma mesma cultura da saúde como arte de viver, nós queremos estar na interseção entre a pesquisa e o humano. É neste espírito que se inscreve a entrevista com Fabrice Midal. A corrida pelo desempenho e o rendimento esgotam e afastam o homem contemporâneo de si mesmo, constata o filósofo. Ele recorre aqui a um mito grego para refletir sobre a nossa necessidade de encontrar e amar a nossa humana e frágil condição.

De livro a livro, aquele que vem meditando há 30 anos e que fundou a Escola Ocidental de Meditação denuncia a corrida pelo desempenho que nos impõem nossos ritmos de vida e trabalho, mas também o ideal de perfeição que perpassa a sociedade, com a ilusão de poder “contê-la” com ferramentas antiestresse, como a meditação. Em 2017, seu livro anterior, Foute-vous la paix!, já tinha como objetivo tirar de nós a culpa por não sermos “zen”. Desta vez (em Sauvez vôtre Peau! Devenez narcissique, Flammarion/Versilio), ao reabilitar o mito mal compreendido de Narciso, o filósofo nos convida a ter ternura por si mesmo, como temos por um amigo. Melhor se amar... para amar melhor os outros.

Eis a entrevista.

O que diz o mito grego de Narciso?

Durante muito tempo eu acreditei que Narciso era o ser que se amava demais. Mas é o contrário. O mito conta a história de um menino que teria vida longa desde que jamais contemplasse a própria figura, segundo um adivinho. Ele cresce, pois, longe de todos os espelhos. Ele é bonito, mas se achava um patinho feio. Longe de si mesmo, ele realmente não sabe quem ele é. Um dia, vendo-se refletido na água limpa de um lago, Narciso descobre um jovem bonito e se apaixona por sua própria imagem, por esse estranho que é ele mesmo. Quando finalmente se reconhece, fica feliz e se transforma em uma flor branca com um coração de outro, o narciso, a primeira a florir depois do inverno.

Esse mito ecoaria os sofrimentos do nosso tempo?

Sim! Porque nunca vivemos tão longe e com tanta desconfiança em relação a nós mesmos. Se, no século XX, o mito de Édipo era o emblema da psique humana, desse homem esmagado pela lei do pai, que desafiava o proibido e procurava a sua singularidade, o mito de Narciso fala-nos do ser fragmentado de hoje, que se autoexplora e busca a sua coerência. Conduzido pela busca do desempenho, o homem contemporâneo não respeita mais suas necessidades, não se permite mais descansar e se entrega até entrar em colapso. Os riscos do esgotamento psicológico – incluindo o burnout! – são os novos vírus do século. Todos se esforçam constantemente para estar no topo: bom profissional, bom esposo, bom companheiro, bom cidadão... instrumentalizando-se a si mesmo como uma máquina. Nós vemos isso nos adolescentes que apresentam cada vez mais cedo a angústia de não estarem à altura. Isso resulta de um déficit de atenção, sinal desse estresse que nós lhes impomos para entrar na performance escolar, avaliando-os cada vez mais cedo. É urgente encontrar quem somos, fazer as pazes com o nosso corpo e o nosso espírito.

Que nova imagem de nós mesmos Narciso nos propõe a habilitar?

O mito convida-nos a olhar no espelho para encontrar a nossa vulnerabilidade e os limites da nossa própria humanidade. Ver em mim “a humana condição”, escreveu Montaigne. Ser narcisista não é ser egoísta, é ter ternura por si mesmo. É olhar-se no espelho para não estar mais distante de si mesmo, para poder afiançar amizade – como um amigo cujos defeitos nós conhecemos – e reconhecer talentos para desenvolvê-los. Nós não temos muito amor narcisista. A este respeito, é sintomático notar que quando peço aos participantes das minhas sessões sobre o amor benevolente para que identifiquem uma qualidade que possuem ou um ato benéfico que realizaram em suas vidas, mais da metade não o consegue espontaneamente...

Seria, portanto, reconhecendo nossas fraquezas que poderíamos recuperar a confiança?

O psiquiatra estadunidense Milton Erickson conta que, certa vez, tendo sido chamado para ver uma mulher deprimida que vivia isolada de todos, prescreveu-lhe essa incrível receita: tendo visto em sua casa violetas que a paciente parecia cuidar muito bem, pediu-lhe para comprar 10 potes com flores e 10 potes vazios e encher esses últimos com mudas para distribuí-los entre os seus vizinhos da aldeia. A vida desta mulher transformou-se radicalmente. Em troca desses presentes que despertaram seu prazer e energia vital, ela recebeu elogios e reconhecimentos até se tornar uma personalidade valorizada de sua aldeia. A história mostra que um narcisismo bem orientado não é outro método para cultivar a autoestima, mas uma imagem de si mesmo para viver, uma confiança a nutrir para recuperar sua vitalidade e comprometer-se com o caminho da transformação.

Há o risco de se doar além das suas forças?

Sem dúvida. Nós não precisamos ser amigos, pais, colegas perfeitos, mas ser, primeiramente, responsáveis pela nossa própria existência; podemos nos comprometer com os outros, mas não salvá-los. Mesmo com a minha longa experiência de meditação, durante muito tempo eu pensava que meu dever de benevolência passava pelo sacrifício, especialmente por meu companheiro muito doente e em plena aflição. “Salve sua pele!”: este conselho de um amigo terapeuta foi estalo. E desde o dia em que assumi que não podia salvar meu amigo, que eu poderia estar lá com ele, que eu poderia amá-lo e ajudá-lo sem me sacrificar, eu lhe dei a possibilidade de encontrar em si mesmo sua própria solidez. Devemos sair desse falso dualismo entre meu mau egoísmo e a preeminência do outro a quem eu devia tudo.

Nós fizemos do “outro” um totem esmagador, diz você. Por quê? Onde estão as deficiências?

“Eu não tenho valor nenhum, e o que importa são os outros!” Nós devemos este imperativo categórico às filosofias ocidentais! Observamos nessa passagem uma mudança de vocabulário reveladora: nós passamos do “próximo” – aquele que está perto de mim! – a um “outro” completamente abstrato. Eu posso amar o meu vizinho, mas como posso amar o “outro”? Foi no século XIX que Auguste Comte inventou o altruísmo, a melhor resposta, segundo ele, para o nosso egoísmo... Ora, isso só reforça o problema. O outro não está separado de mim. Acreditar nisso é uma loucura! Tanto o egoísta que acredita poder viver sem se abrir ao outro, como o altruísta que acredita que isso passa pela negação de si, estão errados! A filosofia nunca pediu para se sacrificar a si mesmo no altar da razão. Em Mênon, Sócrates convida cada ser humano – inclusive o escravo! – a falar em seu nome, a pensar por si mesmo questionando o sentido de sua existência.

Seria a teologia cristã também uma vítima desses desvios?

Certamente! Fico impressionado ao ver que identificamos o cristianismo com o pecado original, e que fizemos dele a fonte de todas as nossas culpas. Nós retemos esta ideia de que se o homem olha para si mesmo, ele se torna necessariamente mau. Ora, basta abrir o Evangelho para ver que Cristo não se cansa de mostrar sua capacidade de amar todas as pessoas como são, por mais imperfeitas que sejam. Sua palavra nunca é um peso, como vemos no seu encontro com a samaritana. Ele a ama mais do que ela se ama a si mesma e a conduz, a partir desse amor, a se levar a si mesma, a pecadora, em consideração. Amar-se incondicionalmente, simplesmente porque eu sou um ser humano, essa mensagem é uma verdadeira modernidade. Na era da autoexploração, em que nós não temos mais o direito para parar para nos ouvir, nos encontrar, estar atentos aos nossos ressentimentos, isso é revolucionário. O mal-entendido do nosso tempo consiste nisso: não é por autocontrole que chegamos a nos amar, mas por um dom gratuito que podemos nos entregar a nós mesmos, ou simplesmente aceitar receber.

Amar-se a si mesmo, portanto, não impede a abertura ao mundo?

O “eu” não é uma identidade perigosa que nos encerraria em nós mesmos, mas um enigma para se encontrar. Nem minhas angústias, nem minhas raivas, nem meus medos me resumem completamente. Eu sempre permaneço “outro” a ser descoberto. “Torne-se o que você é”, já aconselhava o poeta lírico grego Píndaro no século VI antes de Cristo. O mito de Narciso nos fala sobre esta aventura de chegar a si mesmo. Em contraste com o individualismo egoísta do nosso tempo, concorda com a bela visão da filósofa Simone Weil (1909-1943) de um amor de si que é em primeiro lugar o amor da vida que nos habita. O narcisista é o contrário do vaidoso, que está longe de si mesmo e que precisa que todos reconheçam que ele é genial. O narcisista – aquele que se conheceu – está em paz consigo mesmo, não precisa que digamos que ele é o melhor. Não precisa se olhar no espelho, mas está comprometido com o mundo. É o medo que separa dos outros, não o amor de si. A alternativa não é ocupar-se de si ou dos outros, mas é o mesmo movimento, porque o amor não é um bolo: a parte que eu pego irá fazer falta aos outros.

Quem, hoje, pode nos ajudar a encontrar esse justo amor e salvar a nossa pele?

Os mestres espirituais que nos falam desse incrível dom de ser amado para além de si mesmo. Os bons terapeutas que nos ajudam a encontrar a nossa base pelo verdadeiro encontro: eles nos permitem amar, no final das contas, o que somos. Finalmente, os poetas que nos falam sobre a confiança na vida e sobre a humanidade que mora em nós. Penso particularmente em Rainer Maria Rilke, que me guiou para este livro, especialmente com sua figura do Narciso Realizado: no encontro consigo mesmo, o mundo inteiro se dá.

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