A presença de um mestre: Daisetz T. Suzuki

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05 Novembro 2014

"A irradiação de Suzuki e de sua obra no Ocidente foi simplesmente impressionante. Não há quem não faça referência a esta presença, acolhida por grandes pensadores como Thomas Merton e Gustav Jung; por literatos como Alan Watts e os seguidores da geração beat como Jack Kerouak, Allen Ginsberg e Gary Snyder. Foi referencia importante em obras como Os vagabundos de Dharma – de Kerouac – onde o protagonista Japhy Ryder é claramente inspirado em sua figura", constata Faustino Teixeira, professor e pesquisador do PPCIR - UFJF.

Eis o artigo

Para os que buscam entender o Zen Budismo, a presença de Suzuki se faz imprescindível, de modo particular para os ocidentais, que tiveram acesso ao mundo Zen pela força irradiadora desse mestre japonês. É verdade que hoje sua obra é objeto de discussão entre os scholars. Alguns assinalam que se trata de uma “visão romantizada” ou psicologizada da espiritualidade Zen, de tendência “mito-poética”. Mas nada disso tira o imenso valor e originalidade de sua reflexão, que possibilitou ao Ocidente o acesso às riquezas desta tradição sapiencial.

Suzuki nasceu em 1870, na cidade de Kanazawa (Japão), numa família de tradição estabelecida no campo da medicina, e vínculos importantes com a casta dos samurais. Seu avô e seu pai eram médicos. Viveu uma situação difícil depois da perda de seu pai, em idade ainda jovem, envolvendo a família em precisas dificuldades financeiras. Na época tinha apenas seis anos de idade, e a perda de um pai na ocasião acarretava sérias consequências.

Com o tempo, a reflexão do jovem Suzuki vai se orientando para a filosofia e a religião, em particular com o ramo Zen Rinzai. Encontra ali um espaço propício para o trabalho das questões existenciais que estavam no coração de suas demandas do período. As visitas no pequeno templo de Kanazawa serviam-lhe de alento e ajuda. Tomou também contato na ocasião com missionários cristãos, um dos quais – participante da igreja ortodoxa grega – presenteou-o com um exemplar do livro do Gênesis em tradução japonesa. Na época tinha cerca de quinze anos, e tinha o costume de dialogar sobre filosofia e religião com os estudantes de sua geração. Alguns amigos chegaram a se converter ao protestantismo, e pressões nesse sentido ocorriam também sobre ele. Mas resistia à hipótese do batismo antes de estar convencido sobre a verdade do cristianismo.

Durante contatos com o novo professor de matemática em sua escola, ficou sabendo da presença de roshi Kosen, um importante mestre Zen naquele período. Com o interesse desperto, Suzuki busca um maior aprofundamento no templo de Kokutaiji, na província de Etchu, onde vivia o mestre Setsumon. Parte como um buscador em direção ao templo e vem acolhido com alegria pelos monges. Ali faz sua primeira experiência de zazen, embora na ocasião desconhecesse o Zen e todas as etiquetas que envolviam a dinâmica do sanzen.

Consegue o cargo de professor em Mikawa, uma vila situada cerca de 25 quilômetros de Kanazawa.

Permaneceu ali cerca de seis meses, quando então interrompeu seus estudos sobre o Zen. Dali parte para a Universidade de Waseda, para dar continuidade aos estudos. A iniciação Zen vem continuada na cidade de Kamakura, distantes cinquenta quilômetros de Tokio, sob a direção de roshi Kosen, então abade de Engakuji. Com a morte deste mestre, em janeiro de 1892, Suzuki segue os ensinamentos com o seu continuador, o mestre Shaku Soen (1859-1919), o mesmo roshi que havia participado do clássico Parlamento Mundial das Religiões em Chicago (1893). Na ocasião, o percurso para o alcance da maturidade espiritual num mosteiro Zen levava cerca de quinze anos.

É com Shaku Soen (também conhecido como Soen Shaku) que Suzuki dá continuidade aos encontros de ensinamento (sanzen). Num desses colóquios recebe de seu mestre o koan Mu, e com ele o desafio de desvendar o seu mistério. O mestre acreditava que através desse caminho Suzuki teria melhores condições de alcançar a visão do real. Muito conhecido, esse koan pode ser assim enunciado: “Um discípulo pergunta a Joshu: ´tem ou não o cão a natureza de buda?`. E o mestre Joshu responde: ´Mu`”. Esse é o koan que se coloca como desafio para Suzuki.

Durante quatro anos de muita luta e combate interior, Suzuki busca responder ao desafio proposto. Considerava na época ser mais fácil o acesso intelectual ao koan, mas o mais difícil era estabelecer uma relação vivida com ele, isto no plano da experiência. Buscou este acesso nos livros da tradição Zen, e num deles – Zenkan Sakushin (golpes de chicote para ajudar a atravessar as barreiras Zen) encontrou uma pista importante. Percebeu que a dúvida fazia parte do caminho de acesso ao satori. As certezas absolutas deveriam ser deixadas de lado, e todas as energias concentradas para a resolução do koan. Deu-se também conta de que esta resolução não viria de fora, mas do mundo interior, da fonte íntima de onde jorra todo o ser.

Seguindo este rastro, Suzuki acende sua atenção e passa diversas noites numa gruta situada atrás do templo de Shariden (um dos locais que compunham o mosteiro de Engakugi). O seu amigo íntimo, Nishida Kitaro (1870-1945) – fundador da Escola de Kyoto -, relata que nesta ocasião Suzuki teria inclusive pensando em suicídio, isto em razão de todas as dificuldades existenciais que envolviam seus passos no caminho de resolução do complexo koan. Suzuki dedicava-se integralmente a buscar aquilo que lhe havia proposto o mestre Shaku Soen. Não se encontrava muito com seu mestre, a não ser nas sessões obrigatórias de sanzen durante os sesshin.

 Aos poucos, Suzuki vai se dando conta de que “a extremidade do homem é a ocasião de Deus”, e que o horizonte do satori assoma-se no momento em que o ser humano toca o abismo do desespero, decidindo colocar um fim nos seus dias. Ou seja, é nas situações mais densas, nas situações-limite, que o ser humano tangencia o mistério de seu ser. Em 1896, participando de um sesshin, sempre envolvido com a busca de resolução de seu koan, ali por volta do quinto dia de encontro, Suzuki vive uma experiência de grande intensidade, como se apagasse de sua consciência qualquer percepção do Mu. Mais ainda, vive a presença intensa de uma unificação sua com o Mu, sem que traço algum de separação pudesse se interpor entre ele e Mu. Nesse momento ocorre para ele a consciência do verdadeiro despertar (samadhi). Passou um bom período em estado de dispersão da consciência até que o som de um sino provocasse nele um novo chamado à realidade. Relata o ocorrido para o seu mestre, e responde a ele as indagações a respeito de Mu. Depois da conversa com o mestre, na noite de sequencia do encontro, percebeu traços de transparência nas árvores que não visualizava nos momentos rotineiros. Uma mudança tinha sido provocada em sua visão do real. Relata Suzuki no texto que descreve sua juventude – publicado no livro: Dernières écrits au bord du vide (Albin Michel, 2010) – que a partir de então não teve mais dificuldades na resolução de koans. Passa a entender aquela clássica sentença Zen: “os cotovelos não se abrem para o exterior”.

Ainda jovem, com vinte e sete anos de idade, parte para os Estados Unidos, onde viverá por doze anos. Retorna depois ao Japão, para sua cidade natal, e mais adiante vem nomeado professor de budismo Zen na Universidade de Otani, em Kyoto. As viagens e conferências no Ocidente não cessaram com o retorno ao Japão, dando assim continuidade ao processo de irradiação da tradição por toda parte. A morte de Suzuki ocorreu em 1966, quando tinha noventa e seis anos de idade.

Suzuki é conhecido mundialmente por suas inúmeras obras, das quais destaca-se a tríade de seus  Ensaios sobre o budismo Zen, publicada na década de 1940.  Outras obras também podem ser elencadas: Viver Zen (1950);  A doutrina Zen da não mente (1969); Manual de Budismo Zen (1974). Sua obra também veio em parte publicada no Brasil, e algumas alcançaram importante sucesso, como a Introdução ao Zen-Budismo, prefaciada por Carl Jung. Conhecido ficou também o prefácio de Suzuki à obra de Eugen Herrigel, A arte cavalheiresca do arqueiro zen. Ali nesta introdução, Suzuki expressa uma das questões centrais em sua reflexão: “O Zen é a consciência cotidiana”. Sobre isso tinha falado de forma viva na sua Introdução ao Zen budismo, quando buscava delinear o traço místico do Zen. Para Suzuki, “o Zen é um misticismo a seu próprio modo. É místico no sentido de que o sol brilha, que uma flor desabrocha e que neste momento ouço alguém bater um tambor na rua”. O que ele propõe é algo muito simples, criar as condições para uma mente livre e despojada, preparada para acolher a novidade do dom. Para ele o Zen diz simplesmente: “Reverencia uma camélia em plena floração e cultua-a, se quiseres. Há tanta religião neste ato como quando nos prosternamos diante dos vários deuses budistas, ou espargimos água benta, ou participamos da ceia do Senhor”.

A irradiação de Suzuki e de sua obra no Ocidente foi simplesmente impressionante. Não há quem não faça referência a esta presença, acolhida por grandes pensadores como Thomas Merton e Gustav Jung; por literatos como Alan Watts e os seguidores da geração beat como Jack Kerouak, Allen Ginsberg e Gary Snyder. Foi referencia importante em obras como Os vagabundos de Dharma – de Kerouac – onde o protagonista Japhy Ryder é claramente inspirado em sua figura.

Grandes pensadores do Ocidente, como Heidegger, impressionaram-se com a vitalidade da reflexão de Suzuki. No ano de 1939, este pensador alemão foi presenteado com um dos livros de Suzuki, o primeiro volume dos Ensaios sobre o Budismo Zen. O portador da boa-nova foi Keiji Nishitani, um dos nomes importantes da Escola de Kyoto, que seguia os estudos com Heidegger em Freiburg. Como relata William Barret, citado em verbete recente de um dicionário sobre Heidegger (Le dictionnaire Martin Heidegger – Cerfm, 2013), de autoria de Fabrice Midal, o pensador teria dito sobre os livros de Suzuki: “Se eu compreendi bem esse homem, eis o que busco dizer em todos os meus escritos”. Ou seja, Suzuki exercia um impacto sobre os outros que era mesmo de impressionar. Como também relata Thomas Merton em seus diários.

Mais importante que sua obra propriamente dita, é sobretudo sua personalidade, o seu carisma e sua presença. É o que normalmente ocorre com os grande mestres. Os livros contam, não há dúvida, mas a Presença fala muito mais forte. É o que expressou Shizutero Ueda, outro pensador da Escola de Kyoto, a respeito da personalidade de Suzuki. Em sua obra Zen e filosofia (1994), Ueda relata o impacto exercido pelo mestre em sua vida. Sinaliza que foi através de seus livros que ele se iniciou no Zen: “foi a pessoa que me inspirou nesse caminho”. E conclui: “o efeito que produziu em mim foi tão decisivo que custa acreditar. Sua influência não procedia de seus livros (dos quais li muitos) mas de algo que percebi nele, uma espécie de verdade viva de um alcance maior do que sou capaz de expressar no papel”.

Não é tarefa fácil sintetizar a importância e o alcance da presença de um mestre tão singular como foi Daisetz Teitaro Suzuki. Hoje ele vem sendo objeto de crítica na academia, e nem sempre considerado no seu devido alcance. Argumentam alguns scholars que ele teria perdido o elo de ligação com a grande tradição Zen da China e do Japão, com uma divulgação mais psicologizante desta tradição com o intuito de ser melhor acolhido no Ocidente. Não se pode excluir esta hipótese, mas nada disto tira o valor que ele representa e a importância de sua presença em toda a América e também alhures. Mas sobretudo, o que fica como traço mais importante é o que Ueda expressou: esse ALGO que se irradia de sua pessoa de mestre e de exemplo espiritual.

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