Sobre teologia e outras coisas: coerência radical de Ignacio Ellacuría, SJ

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23 Janeiro 2018

Ellacuría era um daqueles homens que mergulhavam profundamente na realidade, no pensamento, na fé, nas Sagradas Escrituras, não poupando nenhum esforço e nenhuma pergunta, não buscando subterfúgios especulativos ou procurando analgésicos para a exigência do intelecto e da fé. Ele soube ir bravamente até o fundo das coisas.” A reflexão é de Juan Manuel Hurtado López, em artigo publicado por Amerindia, 13-01-2018. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Ao se ler um pouco sobre o pensamento de Ignacio Ellacuría (1), padre jesuíta assassinado junto com outros sacerdotes jesuítas e duas mulheres que prestavam seu serviço na UCA de El Salvador em 1989, fica-se logo admirado com sua coerência. Uma coerência intelectual, humana, afetiva, crente e profética levada às suas últimas consequências.

Ellacuría era um daqueles homens que mergulhavam profundamente na realidade, no pensamento, na fé, nas Sagradas Escrituras, não poupando nenhum esforço e nenhuma pergunta, não buscando subterfúgios especulativos ou procurando analgésicos para a exigência do intelecto e da fé. Ele soube ir bravamente até o fundo das coisas.

Ele dirá que o bispo Romero foi a luz que o guiou na fé e no seu compromisso. Mas também, no nível filosófico, foi guiado pelo pensamento do seu excelente professor Xavier Zubiri. Com esses dois andaimes, Ellacuría foi construindo seu edifício teológico e filosófico.

Conceitos-chave na obra de Ellacuría são: realidade, história, Jesus de Nazaré, Reinado de Deus, opção pelos pobres, transcendência histórica e libertação. São como que as vigas mestras que sustentam o edifício. Ellacuría quer “descer os crucificados da cruz”, que não mais sejam crucificados, que sejam libertados. Mas o primeiro passo é encarregar-se da realidade. Algumas frases de Zubiri sobre o que ele entende por realidade, nos oferecem a magnitude do que mais tarde Ellacuria assume por realidade.

“A pessoa não vive apenas na realidade, mas o homem vive também pela realidade”. (2) “A pessoa não está simplesmente ligada às coisas, mas está constitutiva e formalmente ligada ao poder do real”. (3) “A realidade é aquela sobre a qual não só de fato, mas de maneira constitutiva, isto é, essencial, o homem se apoia para ser o que realmente é, para ser pessoa”. (4)

Assumir a realidade em El Salvador nos anos 80 é enfrentar uma realidade crucificada, com pobreza e violência, com desigualdade e corrupção do poder, com mortes injustas diariamente. De acordo com essa concepção de realidade assumida por Ellacuría, em El Salvador não se podia simplesmente estar, viver como um ente separado do que ali acontecia. Mas a realidade ia muito mais longe; realidade é a história do que ali acontecia, é a história do sofrimento dos pobres, da violência e da morte que diariamente campeavam em todos os lugares. A pessoa – e especificamente o cristão – não podia ser definida ou entendida como tal, mas apenas como essencialmente vinculada ao acontecer, à realidade. Ser uma pessoa, ser cristão em El Salvador é ser pessoa, mas como parte do acontecer, como parte do real. E o mais real é o que acontece na realidade, a história.

Agora, outro aspecto fundamental do pensamento de Ellacuría é a fé cristã. Mas, como falar de fé em um Deus sem dar as costas à realidade da qual fez parte inextricavelmente, ou seja, de maneira essencial, como formula Zubiri e assume Ellacuría? Como falar de salvação em uma realidade histórica de violência e violação sistemática dos direitos humanos, em uma realidade de miséria e dor?

Ellacuría vai falar sobre a transcendência histórica cristã. (5) Em primeiro lugar, não há duas histórias: uma sagrada e outra profana, como já haviam demonstrado teólogos da estatura de Karl Rahner. Há apenas uma história e nela colaboram Deus e o homem. Mas como falar então de salvação nessa única história? Como não abandonar o real?

A primeira coisa é estar na história, encarregar-se da realidade. Aqui, ser e estar se unificam, como já vimos. E então, Ellacuría fala de transcender na história, não da história. A transcendência – e, portanto, a salvação – não é algo que acontece fora da história, mas na história. Há um aprofundamento no que acontece e aí se encontra o dom de Deus, o dom da salvação. Foi o que aconteceu no Êxodo, nos profetas. Aí está englobado o que Deus fez na criação, o que Deus fez pela humanidade, o que Deus quer que aconteça. Isso exige um discernimento cristão. Por isso, o primeiro passo da Teologia da Libertação é “estar na história” e o segundo é discernir o que está chamado a atingir a realização, mas que já está em germe na realidade.

A categoria teológica Reino de Deus – ou melhor, Reinado de Deus – dará a Ellacuría a ferramenta e a possibilidade de falar de transcendência histórica. Ellacuría vai dizer que o Reinado de Deus é “uma ação permanente sobre a realidade histórica”, é a “ação de Deus nos homens e nas relações humanas”. (6) Jesus de Nazaré é o melhor exemplo de transcendência histórica, é a maneira como Deus age na história.

Eu acredito que essas reflexões que acompanhamos pela mão de Ignacio Ellacuría, podem nos orientar muito na tarefa que temos de nos encarregar da realidade no início do século XXI, tão cheio de desafios. Como dizia Ellacuría, “refletir para tirar proveito”.

Notas:

(1) ELLACURÍA, Ignacio (1990). Historicidad de la salvación Cristiana. In: ELLACURÍA, Ignacio; SOBRINO, Jon (eds.). Mysterium Liberationis. Conceptos fundamentales de la teología de la liberación. El Salvador. UCA Editores; Id., Hacia una fundamentación filosófica del método teológico latinoamericano, en LC -609-635; HERNÁNDEZ AVENDAÑO, José Luis; CARIÑO CEPEDA, Galilea (Coordinadores). El Rector Mártir. Los legados de Ignacio Ellacuría para encargarse de la realidad. UNIVERSIDAD IBEROAMERICANA PUEBLA. Instituto de Derechos Humanos “Ignacio Ellacuría, S. J.” 2015.

(2) ZUBIRI, Xavier. El hombre y Dios. ALIANZA EDITORIAL, 5ª. Edición. Madrid 1994, Pág. 83.

(3) Ibid.: 93.

(4) Ibíd. : 82.

(5) ORTÍZ COTTE, Jesús Alejandro, Trascendencia histórica cristiana. El aporte fundacional de Ignacio Ellacuría a la Teología de la Liberación en: HERNÁNDEZ AVENDAÑO, José Luis, CARIÑO CEPEDA, Galilea (Coordinadores). O.c. págs. 99-117.

(6) Citado por ORTÍZ COTTE, Jesús Alejandro. Trascendencia histórica cristiana. El aporte fundacional de Ignacio Ellacuría a la Teología de la Liberación. In: HERNÁNDEZ AVENDAÑO, José Luis; CARIÑO CEPEDA, Galilea (Coordinadores). O.c. pág. 105.

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