Ignacio Ellacuría e a promessa libertadora de Deus

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Por: Jonas | 28 Julho 2014

Um dia para a meditação e oração. Momentos de reflexão, partilha e gratidão pelos sinais do Reino de Deus em nosso meio. Foi assim o último sábado, 26 de julho, na Casa do Trabalhador. Um pequeno grupo de pessoas e uma responsabilidade enorme: defrontar-se com as consequências últimas do Evangelho na vida de um cristão, nesse momento, revividas na memória de Ignacio Ellacuría, que leva todos a questionar o sentido mais profundo da vida humana. A atividade faz parte da experiência de encontros denominada Rezar com os Místicos e contou com a assessoria do padre jesuíta Dionysio Seibel (foto), da Igreja do Rosário, em Curitiba-PR.

O relato é de Jonas Jorge da Silva, da equipe do CJCIAS/CEPAT de Curitiba.

O jesuíta Ignacio Ellacuría e seus companheiros Segundo Montes, Ignacio Martín-Baró, Armando López, Juan Ramón Moreno, Joaquín López-López, juntos com a colaboradora Elba Julia Ramos e sua filha Celina, de 15 anos, foram brutalmente assassinados por soldados do Exército Nacional de El Salvador, no dia 16 de novembro de 1989, durante a guerra civil que abalou aquele país, entre 1979 e 1991.

Ellacuría nasceu no dia 9 de novembro de 1930, na Espanha. Logo após ter ingressado na Companhia de Jesus (1947), foi enviado a El Salvador (1949), país que amou até a sua morte, tendo uma forte identificação com o povo salvadorenho. Nele, também se destacou como um grande intelectual, atuando na Universidade Centro Americana (UCA), da qual também foi reitor.

Sua morte foi consequência de sua história de comprometimento com as dores e dramas dos salvadorenhos. Sua produção intelectual sempre esteve associada com uma leitura crítica da realidade em que estava inserido. Valorizava o aprender a pensar, com base na realidade social. Seu pensamento teve grande influência do filósofo espanhol Xavier Zubiri, para quem, conforme artigo de Ana Formoso, publicado pela Revista IHU On-Line, “o problema de Deus já está dado na realidade pessoal do homem. O homem descobre Deus a partir desta realidade e como meio de realização de seu viver”. Além disso, Ellacuría também teve muita proximidade com o pensamento do teólogo alemão Karl Rahner.

Para Ellacuría, “a universidade deve encarnar-se entre os pobres intelectualmente para ser ciência dos que não têm voz, o respaldo intelectual dos que, na sua própria realidade, têm a verdade e a razão, embora, às vezes, seja à maneira de despojo, mas que não contam com as razões acadêmicas que justifiquem e legitimem sua verdade e sua razão”. Sempre denunciou a injustiça estrutural vivida em El Salvador, sendo o conflito armado uma expressão da mesma.

O padre Dionysio Seibel ressaltou três aspectos do pensamento de Ellacuría sobre a realidade de El Salvador, com base nas contribuições do teólogo Jon Sobrino:

- Um povo sacrificado, retomando a imagem do Servo Sofredor. O pecado do mundo tira a humanidade das pessoas, levando o povo a perder a sua vida. A imensa maioria do povo é espoliada e crucificada. A injustiça é um problema estrutural;

- A civilização da pobreza em contraponto à civilização da riqueza. São poucos os que se beneficiam das promessas da civilização da riqueza, que promete um falso desenvolvimento e felicidade para todos. A grande maioria do povo sofre, não contando com as condições básicas para sobreviver. A civilização da pobreza se exprime na realização de uma utopia necessária, que garanta que cada ser humano possa satisfazer suas necessidades fundamentais. Trata-se da constituição de uma sociedade sóbria, consciente de que não há recursos necessários para que todos vivam uma vida de luxo e riqueza sem limites;

- Com dom Oscar Romero, Deus passou por El Salvador. A força profética de Romero evidencia que os processos políticos não são suficientes para a libertação das pessoas. O Deus da denúncia quer a liberdade integral do ser humano, que nasceu para um projeto de felicidade plena.

E em qual fonte Ellacuría bebeu, para a sua vivência encarnada da fé? Para o padre Dionysio Seibel, certamente, os exercícios espirituais inacianos tiveram um papel fundamental na vida desse jesuíta. Para Ellacuría, o Evangelho é uma força de transformação, não é paralisante e nem alienante. A relação com Jesus deve ser pessoal. Jesus é alguém com que eu posso me relacionar. Poderíamos dizer que Ellacuría, dentro da espiritualidade inaciana, chegou às últimas consequências da pedagogia de Jesus, que leva “ao desapego das coisas, depois ao das honras e por último à grande abertura aos outros, com muito desejo de estar a serviço. E partir disto, leva a todo bem!”.

Todos os que participaram desse momento de encontro com a espiritualidade de Ellacuría foram convidados a refletir sobre a proposta de Jesus, que é a da felicidade a partir da solidariedade, contrária à proposta da felicidade a partir do possuir. É a solidariedade que tornará possível atualizar a capacidade profética de Ellacuría, que sempre acreditou que a promessa libertadora de Deus poderia se realizar na história.

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