Do fim de ciclo à consolidação das direitas. Artigo de Raúl Zibechi

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29 Outubro 2017

“Devemos pensar nos ensinamentos que a ascensão das direitas e a crise dos movimentos nos deixam. A sociedade extrativa da quarta guerra mundial, não pode ser combatida com a mesma lógica da luta operária na sociedade industrial. Não existe uma classe para ser dirigida. Os sujeitos coletivos devem ser construídos e sustentados todos os dias. As organizações devem ser sólidas, talhadas para o longo prazo e resistentes aos atalhos institucionais”, escreve o jornalista e analista político uruguaio Raúl Zibechi, em artigo publicado por La Jornada, 27-10-2017. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Os ciclos políticos não são caprichosos. Vivemos um período de crescimento das direitas, em particular na América do Sul. O ciclo progressista acabou, mesmo que continuem existindo governos dessa cor, mas já não poderão desenvolver as políticas que caracterizaram seus primeiros anos, pois se impõe uma inflexão conservadora, embora os discursos possam dizer algo diferente.

Um bom exemplo dessa ironia pode ser o Equador: um governo da Aliança País que realiza um ajuste conservador. Exceto que se opte pela peregrina tese da traição, Lenin Moreno mostra que mesmo os progressistas devem dar um giro à direita para poder continuar governando.

Digamos que os ciclos são estruturais e os governos conjunturais. O ciclo progressista se caracterizou pelos elevados preços das exportações das commodities, em um clima geral de crescimento econômico, com forte protagonismo popular e pressões por maior justiça social. Os três aspectos se fragilizaram a partir da crise de 2008. Agora, sofremos uma forte ofensiva direitista em todos os terrenos.

Apesar dos maus resultados econômicos e de um elevado conflito social, no qual se destaca o desaparecimento forçado de Santiago Maldonado, o governo de Mauricio Macri conseguiu uma contundente vitória nas recentes eleições argentinas. O macrismo não é um parêntese, conseguiu uma certa hegemonia que se assenta nas mudanças econômicas da última década, no desgaste do progressismo e na fragilidade crescente dos movimentos.

A primeira questão a ser levada em conta é que o modelo extrativo (sojeiro-mineiro) transformou as sociedades. A edição argentina de Le Monde Diplomatique de setembro contém duas interessantes análises de José Natanson e Claudio Scaletta, que decifram as mudanças produtivas do complexo da soja e suas repercussões sociais.

O primeiro sustenta que o mapa da soja coincide quase matematicamente com os territórios nos quais Macri vence. Destaca que o campo se articula cada vez mais com as finanças, a indústria e os grandes meios de comunicação, e que os latifundiários e os peões, que foram os protagonistas do período oligárquico, agora são técnicos, arrendatários, agrônomos, veterinários, mecânicos de maquinaria agrícola e pilotos fumigadores, entre outros. Inclusive, a tecnologia é mais importante que a propriedade da terra que os “pools de semeadura” alugam, enquanto os cultivadores conectados ao mundo globalizado ficam dependentes dos preços da bolsa de Chicago, onde os cereais são cotados.

O segundo sustenta que estamos diante de uma complexificação das classes médias rurais e a emergência de novas classes médias rural-urbanas. Em consequência, o conflito com o campo, que sustentou o governo kirchnerista em 2008, não foi a clássica contradição oligarquia-povo.

A partir desse momento, tornou-se possível um conglomerado de atores mais complexo e com uma base social muito mais extensa, que rejeita as políticas sociais porque sentem a pobreza urbana como uma realidade muito distante. Este bloco social é o que conduziu Macri ao governo e o que o sustenta.

A sociedade extrativa gera valores e relações sociais conservadoras, assim como a sociedade industrial gerava uma potente classe operária, valores de comunidade e solidariedade. Nas grandes fábricas, milhares de operários se converteram em classe ao se organizar para resistir aos patrões.

Ao contrário, o extrativismo não gera sujeitos internos, ou seja, dentro do arcabouço produtivo, porque é um modelo financeiro especulativo. As resistências são sempre externas, em geral protagonizadas pelos atingidos.

A segunda questão é o desgaste do progressismo, após uma longa década de governo. Aqui, aparecem dois elementos. Primeiro, o desgaste interno natural ou pela corrupção e a má gestão, e combinações de ambos. Segundo, porque o próprio modelo despolitiza e desorganiza a sociedade que só se articula por meio do consumo. É aí onde mordem as direitas.

O consumismo é a outra face da sociedade extrativa. Uma sociedade que não gera sujeitos, nem identidades fortes, com valores vinculados ao trabalho digno, ou seja, produtivo, mas apenas valores mercantis e individualistas, não está em condições de potencializar projetos de longa sustentação para a transformação social.

A terceira questão que explica o auge das direitas é a fragilidade do campo popular, que afeta desde os movimentos até a cultura do trabalho e das esquerdas. A sociedade extrativa cria as condições materiais e espirituais desta anemia de organização e lutas. Mas, tem mais.

As políticas sociais do progressismo, sobretudo a inclusão mediante o consumo, multiplicaram os efeitos depredadores do modelo, como a desorganização e despolitização. No shopping desaparecem as contradições de classe, inclusive as étnicas e de gênero, porque nesse não lugares (Marc Augé) o entorno desaparece à humanidade das pessoas.

Contudo, os movimentos também são responsáveis pelas opções que tomaram. Ao invés de construir olhando a longo prazo, preparando-se para o inevitável colapso sistêmico, tomaram o atalho eleitoral que os levou a construir alianças impossíveis, com resultados patéticos. Alguns movimentos argentinos, que optaram por se aliar com a direita justicialista, poderiam fazer um balanço sobre os resultados desastrosos que obtiveram, e não me refiro à magra colheita de votos.

Por último, devemos pensar nos ensinamentos que a ascensão das direitas e a crise dos movimentos nos deixam. A sociedade extrativa da quarta guerra mundial, não pode ser combatida com a mesma lógica da luta operária na sociedade industrial. Não existe uma classe para ser dirigida. Os sujeitos coletivos devem ser construídos e sustentados todos os dias. As organizações devem ser sólidas, talhadas para o longo prazo e resistentes aos atalhos institucionais.

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