Quando o Papa é imaginário. Na série de televisão "The Young Pope" do diretor italiano Paolo Sorrentino

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04 Outubro 2017

Ninguém pode negar que o napolitano Paolo Sorrentino, nascido em 1970, é um dos artistas mais representativos do nosso tempo; e também um dos retratistas mais brilhantes de sua irreparável decrepitude. Paolo Sorrentino é um pós-moderno, rótulo que às vezes se utiliza com excessiva superficialidade pejorativa, como se ser pós-moderno significasse apenas ser incrédulo, cínico, esteta ou empolado. Nós certamente poderíamos aplicar esses epítetos a Sorrentino, sem incorrer em difamação, mas devemos primeiro explicar que com eles não definimos tanto o seu trabalho quanto o mundo que submete aos raios X, confortavelmente instalado em uma espécie de niilismo com música de fundo e ar condicionado. Um mundo terminal que, no entanto, sente saudades de Beleza, da Verdade e do Bem; uma misteriosa e conflitual saudade que encerra em si, ao mesmo tempo, ironia e elegia, escárnio e veneração.

O comentário é de Juan Manuel de Prada, publicado por L’Osservatore Romano, 01-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Para seus detratores Sorrentino é apenas um amador que esconde sua insuportável vacuidade sob um invólucro formalista tanto dominador como pesado. Para seus defensores é um gênio indiscutível, uma espécie de Fellini redivivo, mais refinado que seu mestre, que conseguiu jogar luz sobre o espírito atordoada e embolado da nossa época, em seu coração conspurcado de pecados que só o anseio de beleza pode curar (ou, pelo menos, anestesiar).

Na verdade, acreditamos que em Sorrentino coexistam jóias e bugigangas. É certamente um artista eminente que se cruza com um impostor de gestos exagerados; e é talvez essa mistura, ou tensão entre opostos, que confere um fascínio irresistível às suas obras, que são, ao mesmo tempo, pomposas e arrasadoramente sinceras. Justamente como os personagens de Sorrentino (personagens pós-modernos, afinal das contas!) que acabam nos parecendo fugidios, caleidoscópicos, incoerentes, como se fossem montados por peças que nem sempre se encaixam, assim tem em sua arte - sob a armadura formal sempre rutilante – uma ininteligibilidade emocional que inquieta e ao mesmo tempo fascina.

Todas essas características chegam à sua expressão mais ousada e polêmica na série de televisão The Young Pope, uma "fantasia papal" em dez episódios que narra o início (e talvez o final, apesar de não resultar inteiramente claro) do pontificado do estadunidense Lenny Belardo que, como líder da cristandade, adota o nome - e a escolha do nome é uma clara declaração de princípios - de Pio XIII.

A série, muito elogiada pelo esnobismo de todo o mundo, foi obviamente taxada de irreverente e blasfêmia nos círculos católicos. E, indubitavelmente, em alguns aspectos, certamente o é; mas de uma forma estranhamente paradoxal: de fato, embora seu tratamento frívolo dos dogmas da fé católica e seu olhar cáustico sobre a cúria do Vaticano não sejam isentos de perfídias, não há como negar que em Sorrentino essa atitude convive com uma inegável admiração pela Igreja. Querendo fazer troça, Sorrentino não pode evitar levar a Igreja muito a sério. Mostrando os aspectos mais grotescos e dolorosos das pequenas intrigas eclesiásticas (e amplificando-os até a caricatura), Sorrentino não pode evitar reconhecer um quê de sublime que as transcende. Sorrentino é um descrente de formação católica que, enquanto zomba da Igreja, capitula diante dela; um esteta incrédulo que não pode odiar a Igreja, porque sabe que seria como odiar a genealogia de sua própria arte.

Certamente não consideramos que The Young Pope seja uma série adequada, como teria dito o argentino Leonardo Castellani, a "imensa paróquia de moralismo e da ortodoxia infantil". Mas suspeito que quem a assiste com a intenção de desfrutar de imoralidades e heterodoxias, vai se decepcionar. E não porque Sorrentino não ofereça imoralidades e heterodoxias, mas porque o seu propósito não é tanto de desacreditar a Igreja (como ocorre com o ímpio mais tosco) quanto de se confrontar com o seu mistério.

É claro, Sorrentino não consegue penetrá-lo; mas consegue contagiar com a sua perplexidade o espectador, que vai se questionar como é possível que uma instituição dirigida por fanfarrões, ambiciosos ou lascivos, tenha conseguido sobreviver a todos os naufrágios. E talvez o espectador possa chegar à conclusão que essa instituição conta com um Deus que, por sua vez, leva em consideração a nossa natureza fanfarrona, ambiciosa e lasciva. E que Cristo, ao fundar a Igreja, não negligenciou a fragilidade humana. Como escreveu Chesterton: "Todos os impérios e os reinos falharam por causa de sua fraqueza inata e contínua, apesar de terem sido fundados em homens fortes e ombros fortes. Apenas a Igreja foi fundada sobre os ombros de um homem fraco, e por esse motivo é indestrutível".

Mencionamos anteriormente que a arte de Sorrentino baseia-se na tensão entre opostos. Isso pode ser conferido também nessa série, em que, por vezes, o autor mostra-se grosseiramente sensacionalista e, outras, um finíssimo teólogo; em que, com imensa rapidez, transforma o seu protagonista (interpretado por Jude Law) em um narcisista descrente ou em um homem de fé ardente; onde, por vezes, incorre nas caracterizações mais toscas e, em outras, em sutilezas psicológicas que demonstram um grande conhecimento da alma humana. Isso acontece, por exemplo, com o personagem do secretário de Estado, o cardeal Voiello (interpretado por Silvio Orlando), sem dúvida o personagem mais consistente da série, fuxiqueiro e controlador, manipulador e fátuo, mas ao mesmo tempo cheio de traços humanos que nos comovem: às vezes um pouco ridículos, como seu fanatismo futebolístico; às vezes edificantes e altruístas, como o carinho que ele nutre por um garoto tetraplégico.

Acredito que, ao aceitar essa contradição constante sobre a qual se alicerçam a série e seus personagens, possa-se entender melhor o propósito de Sorrentino; e seus excessos e suas farpas anticlericais tornam-se mais suportáveis, aliás, podem ser interpretadas em sentido positivo como efusões de um artista que precisa purificar seu coração angustiado, mostrando através de suas criaturas, as suas manias e os seus medos.

The Young Pope começa com uma cena chocante em que Pio XIII, recém-eleito no conclave, dirige-se à multidão reunida na Praça de São Pedro exaltando a masturbação, o aborto, a contracepção e a homossexualidade. Logo em seguida descobrimos que, na realidade, trata-se de um pesadelo do jovem papa, atormentado pelo medo de falar em público. Mas, quando por fim ele encontra a coragem para enfrentar a multidão, faz isso com palavras ainda mais duras, garantindo que "Deus não está interessado em nós, enquanto nós não nos interessarmos por Ele"; e acrescenta não ter nada a dizer "para todos aqueles que alimentam até mesmo a menor dúvida a respeito de Deus", exceto lembrá-los "de meu desprezo e de sua desgraça."

Após esse discurso tão pouco reconfortante, Pio XIII decide viver uma vida reclusa e suspender todos os discursos públicos e viagens papais. Abomina abertamente o ecumenismo e decide iniciar a restauração da Igreja pré-conciliar, a partir da missa tridentina. Quando o primeiro-ministro italiano revela seu desejo de legalizar as uniões homossexuais e promover o aborto, Belardo anuncia solenemente a restauração do non expedit, com o qual Pio IX havia dissuadido os católicos italianos a participar da vida política; e assim ele vai forçar o primeiro-ministro a se retratar. Quando o seu secretário de Estado o adverte que os casos de pedofilia infestam a Igreja, Pio XIII decide derrotar tal flagelo afastando de seu ministério todos os sacerdotes homossexuais, sugerindo assim que a pedofilia e a homossexualidade estão intimamente ligados.

O leitor já deve ter adivinhado, com estas breves referências à trama que esboçamos acima, que The Young Pope não é uma criação de um rude propagandista anticatólico. Talvez Sorrentino possa ser rotulado como insidioso ou malévolo; mas a escolha como protagonista de um papa tradicional (alguns diriam reacionário ou integralista) que adota posições talvez muito duras (mas não contrária à doutrina católica) mostra-nos que é um provocador no sentido mais nobre da palavra.

The Young Pope resulta, de fato, muito difícil para um espectador católico conformista, não tanto por sua irreverência, mas porque o obriga a repensar questões que o espírito da nossa época declarou resolvidas ou inatacáveis. Também resulta muito provocador para o espírito de nossa época que está acostumado a uma Igreja mais hospitaleira ou acomodadora. Especialmente porque Sorrentino oferece uma imagem bastante atraente desse papa temerário que se atreve a combater o espírito do mundo sem meios termos ou compromissos, que se atreve a desafiá-lo trancando-se dentro dos muros do Vaticano e lançando de lá suas saraivadas antimodernistas, um papa que não dá a mínima de ser considerado antipático pelos seus contemporâneos.

Parece que Sorrentino diverte-se a irritar, ao mesmo tempo, a autoridade eclesiástica e o progressismo mundano. A sua é uma atitude totalmente pós-moderna, jocosa e ferozmente mordaz, com que critica tanto o proselitismo religioso como o politicamente correto, o hábito de viajar dos papas pós-conciliares e o orgulho gay, as intrigas da Cúria do Vaticano, e a arrogância do mainstream ideológico, que conseguiu impor dogmas que agora nem mesmo a Igreja ousa questionar.

Sorrentino, ao contrário, ousa questionar todos os dogmas, embora sempre faça isso de maneira muito astuta, sem nos permitir entender totalmente qual é a sua posição. Porque, apesar de seu olhar parecer de um progressista pedindo à Igreja para se abrir para o mundo, também está presente a admiração pela Igreja que ousa declarar guerra contra o mundo.

Esta tensão irresolúvel será resolvida por Sorrentino atribuindo ao seu protagonista uma série de traumas (sua condição de órfão, sua saudade de um amor juvenil) que, uma vez superados, fazem dele um homem muito mais cordial e afetuoso. Então, a dureza dos seus juízos vai se abrandar; a sua egolatria tornar-se-á generosa doação; o seu comportamento deixará de ser errático; e suas dúvidas de fé (nascidas de sua solidão e da sua repressão dos afetos) serão dissipadas, até poder provar - na última cena da série - o abraço da Mãe celeste, após ter sofrido tanto por nunca ter experimentado o abraço da mãe terrena.

Até esse epílogo, The Young Pope sempre procede por territórios pouco complacentes e, às vezes, francamente escabrosos. Belardo manifesta continuamente comportamentos bipolares, ora eufóricos, ora de uma atonia emocional exasperadora. Talvez justamente por isso em determinadas ocasiões mostre-se como o mais fervoroso de crentes e, em outras, pelo contrário, vemos a sua fé minguar e desaparecer, até se tornar apostasia. Mas Deus sempre ouve a sua oração, até realiza milagres atendendo às suas súplicas: milagres afortunados (como quando a jovem esposa de um guarda suíço recupera a fertilidade e concebe um filho), mas também milagres em que a ira divina recai sobre falsos crentes (milagres de um Deus que castiga severamente, como no Antigo Testamento). Esses comportamentos caprichosos, quase esquizóides, de Belardo estão no centro das cenas mais ordinárias da série (como quando ele pede a um monge confessor para revelar-lhe os pecados dos cardeais); e por baixo delas esconde-se o narcisismo de um homem que se cercou de falsas forças para dissimular a sua íntima fragilidade.

Muitas das irreverências e heresias que o jovem papa profere (e também, é claro, muitas de suas ortodoxias mais desumanizadas) podem ser interpretadas como um sintoma dessa fragilidade. Belardo conseguirá superar as suas contradições apenas quando terá a coragem de reconhecer essa fragilidade. O elemento catalisador será a chantagem urdida pelos seus detratores, que recuperam algumas cartas escritas para uma jovem noiva da juventude a fim de desacreditá-lo; mas quando as cartas se tornam públicas, o mundo descobre um aspecto do jovem papa que ele mesmo tinha se esforçado para enterrar. E, recuperando-o, Belardo reconcilia-se consigo mesmo e com o mundo que até aquele momento o odiava. Surpreendentemente, no final da série, Sorrentino incorre em sentimentalismos e concessões ao politicamente correto que até então tinha evitado. Ele se esforça para conciliar seu protagonista com o mundo. Uma das vantagens de ser pós-moderna é que se pode dizer, sem acreditar, uma coisa e seu contrário, terminando por dizer o que as pessoas querem ouvir. E Sorrentino, depois de nos ter testado com suas provocações, termina por adular o espírito de seu tempo. Mesmo que, entre essas adulações ao seu tempo, aflore uma misteriosa e conflitual nostalgia da Beleza, da Verdade e do Bem que encerra em si, ao mesmo tempo, ironia e elegia, escárnio e veneração.

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