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17 Janeiro 2017

““The Young Pope” é uma raridade: um programa na HBO sobre católicos, com atores de renome direção, direção e imagens estilosas e impressionantes, além de um enredo interessante que pode capturar e manter a atenção de uma audiência diversificada. O programa não faz uma paródia dos católicos nem os simplifica; pelo contrário, fala da complexidade da fé na prática vivida, e de como até mesmo os seus “representantes oficiais” podem ser terrivelmente imperfeitos”, escreve Nick Ripatrazone, colaborador de revistas como Rolling Stone, The Atlantic, The Paris Review, e Esquire, em artigo publicado por America, 10-01-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

“Sou uma contradição”, diz Papa Pio XIII, nascido Lenny Belardo – o primeiro papa americano. A nova, elegante e provocativa série da HBO “The Young Pope” sugere que o paradoxo é parte integrante do catolicismo. Pontífices ficcionais e reais resistem às nossas tentativas de classificá-los e simplificá-los.

Escrito e dirigido por Paolo Sorrentino  e estrelando Jude Law  e Diane Keaton, “The Young Pope” é visualmente atraente e ocasionalmente surreal. Sequências de sonhos são usadas ao extremo. No primeiro episódio, Pio XIII profere um longo e herético discurso de abertura a uma multidão intumescida e chocada na Praça de São Pedro antes de Sorrentino trazer a narrativa de volta à realidade. O sonho serve ao seu propósito: Pio XIII irá exceder os limites. Ele conhece o poder da surpresa.

Conquanto provocativo, “The Young Pope” não é perverso; como o romance de Ron Hansen intitulado Mariette in Ecstasy, a série brinca com sensualidade e sexualidade, mas nunca de maneira fortuita. Como Pio XIII, Jude Law é bonito, confiante, frio e inclinado a pronunciamentos aforísticos. É dotado de grandes frases bonitas. Quando uma antiga cozinheira papal, freira, saúda Pio XIII como se cumprimentasse um filho, ele a repreende. “Relações de amizade são ambíguas”, diz ele, mas “relações formais são tão claras quanto as águas da nascente”.

Pio XIII conseguiu manipular corações e mentes durante o conclave papal porque os cardeais achavam que ele seria maleável. Uma vez no poder, o novo papa assume uma

postura séria, fria. Sendo um tradicionalista com orgulho, proclama: “Deus oprime; Deus amedronta”; “Não quero mais crentes em tempo parcial, quero fanáticos por Deus”; e “Liturgia não mais é um engajamento social”.

Frases enérgicas como estas exemplificam um aspecto peculiar do programa. “The Young Pope” envolverá o público secular e o público católico por motivos curiosamente parecidos. Ao chamar a atenção para aspectos performativos de seu ofício – a teatralidade do papado –, Pio XIII força os que estão ao seu redor a não tomar nada por óbvio. Ele não é o que as pessoas pensam. Em sua presença, não pode haver descanso.

Pio XIII não é um substituto para o Papa Francisco, mas a analogia é instrutiva. Muitos defensores leigos da encíclica ambiental Laudato Si’ decepcionaram-se por causa da aliança de Francisco com a doutrina e a tradição. (Ele tem defendido a encíclica Humanae Vitae, por exemplo, com sua proibição ao controle de natalidade, e tem reafirmado o ensinamento que reserva o sacerdócio somente a homens.) Todavia, Francisco recua diante de uma rotulagem simplista. O mesmo faz Pio XIII. Conquanto jovem, este papa ficcional tem atração pela tradição, pompa e circunstância. Abraça o espetáculo de seu ofício, mas como um espetáculo que se desenvolve em seus próprios termos.

Parte desta apreciação pelo espetáculo pode vir de suas origens fraturadas. Jude Law interpreta Pio XIII como um sujeito complicado e sedutor, e desenvolve lentamente a sua vulnerabilidade: “Sou órfão”, diz, “e órfãos nunca são jovens”. Dos 7 anos em diante, ele viveu em orfanato, sendo criado pela Irmã Maria, que se junta a ele no Vaticano. Interpretada por Diane Keaton, Maria é tão próxima a ele, tão influente, que as pessoas pensam que ela é o verdadeiro papa.

Mas vulnerável não é o mesmo que sentimental. Pio XIII pode ser irreverente. Quando presenteado com um café da manhã elaborado, ignora o arranjo brincando: “Tudo o que tomo nas manhãs é uma Coca Cola de cereja”. É também maquiavélico, punindo todos os desprezíveis e mesmo tomando decisões baseadas em orientações sexuais percebidas nos que trabalham no Vaticano.

Embora esta representação seja fascinante em muitos níveis, Jude Law não convence que Pio XIII é, na prática, piedoso. Não se trata de uma deficiência na performance do ator, e sim um testamento dela. Talvez Pio XIII não seja um homem de Deus como geralmente se conhece. Ele é ambicioso, pretencioso e, provavelmente, um herege. (Pio XIII diz a Don Tommaso, confessor papal: “Não tenho pecado algum a confessar”; ao descrever a votação no conclave, Pio admite que sua reza era “Senhor, eu não me importo que o conclave seja lícito ou ilícito. Está tudo bem. Apenas permite ser eu, não eles”.)

Poderá alguém ser manipulador em questões terrenas – nas maquinações institucionais da Igreja – e também piedoso? Isso significa que ele não seja de fato piedoso? Não tenho certeza, e a série deixa a pergunta em aberto. Numa das tramas, um cardeal da velha guarda, Voiello, tenta criar um escândalo para encurralar Pio XIII. Esther, uma bela e dedicada mulher casada com um membro da Guarda Suíça, teve anteriormente um caso secreto com um dos padres que agora é auxiliar de Pio XIII. Voiello usa o passado de Esther para chantageá-la para seduzir o papa.

Sem demonstrar abertamente, a forma como Pio XIII responde à sedução exemplifica a complexidade de seu personagem, assim como a profundidade e nuance que a série traz ao espectador.

O fascínio do cinema pelo catolicismo em geral tem focado em elementos supersticiosos e sobrenaturais, como o ritual visceral do exorcismo, e na justaposição marcada de padres de batina andando entre os pobres. As preocupações em “The Young Pope” são mais materiais e corpóreas do que místicas. Como o romance de Ron Hansen, em que uma jovem freira é levada a uma relação quase erótica, embora casta, com Cristo, a série nos faz considerar as relações que muitas vezes mantemos entre sexo, sensualidade e crença.

O personagem de Jude Law é atraente, e o diretor sabe disso. Tomadas de câmera são enquadradas e definidas pela aparência do papa, tanto a ponto de quase idolatrarmos o personagem. No entanto, em um outro sentido, a série demonstra como a fé e o desejo se cruzam; as duas experiências envolvem pessoas em busca de algo que não podem exatamente tocar.

Provavelmente “The Young Pope” apelará a grupos diferentes dentro dos públicos religiosos e por motivos diversos, porém a sua existência deverá ser bem-recebida. Numa época em que o clero é representado na televisão como autoritário e reprimido sexualmente, como numa das temporadas da série “American Horror Story”, esta nova produção da HBO – “O jovem papa” – conta com um tom mais matizado.

Quando o poeta Dana Gioia lamentava a falta de boa literatura católica, observou que a maior parte das representações da fé eram banais. “A exposição católica”, escreveu, “é hoje um gênero literário convencional, do farsante o ao tendencioso”. Uma coisa é existir uma boa literatura e uma boa arte católicas, e isso Gioia reconhece; outra coisa bem diferente é ser bom e visível, ou bom e digno, dentro do ambiente artístico mais amplo.

A grande arte católica contemporânea – as obras de Hansen ou Alice McDermott, os filmes de Martin Scorsese Link, e outros seletos – tende a ser dispersa e não contínua. Há espaços para narrativas católicas brilhantes atualmente, mas não uma presença substancial, influente como havia décadas atrás. “The Young Pope” pode não ser a arte católica que muitos católicos querem, mas é a arte católica da qual podem precisar. De forma muito semelhante ao recente romance de Robert Harris intitulado “Conclave”, a série retrata posicionamentos políticos, acordos e trapaças que ocorrem dentro do Vaticano.

Quaisquer que sejam os exageros ficcionais, esta série televisiva é uma janela fascinante para dentro da política e do espetáculo de um mundo que modela a vida de tantos fiéis mundo afora. Ele não deve, no entanto, ser tomado como uma obra pastoral; não é uma janela para dentro da – nem um guia espiritual à – fé das pessoas comuns.

“The Young Pope” parece um programa objetivamente preciso sobre um ambiente católico, não sendo, ao mesmo tempo, católico em um sentido devocional. Dessa forma, a série se parece com a adaptação cinematográfica de “O exorcista”, que foi escrito por um católico (William Peter Blatty) porém dirigido por um judeu agnóstico (William Friedkin), que disse que “creio fortemente nos ensinamentos de Jesus”. “The Young Pope” é um bom exemplo de como a arte católica deveria gesticular em direção à moralidade – e deveria ser honesta em sua representação desta moralidade –, mas sem precisar ser uma obra pastoral. Ela não precisa ser um guia para “crescer na fé”.

“The Young Pope” é uma raridade: um programa na HBO sobre católicos, com atores de renome direção, direção e imagens estilosas e impressionantes, além de um enredo interessante que pode capturar e manter a atenção de uma audiência diversificada. O programa não faz uma paródia dos católicos nem os simplifica; pelo contrário, fala da complexidade da fé na prática vivida, e de como até mesmo os seus “representantes oficiais” podem ser terrivelmente imperfeitos.

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