Por que os Bispos dos EUA não se pronunciam sobre o clima? A falta de acompanhamento do Papa Francisco no nível local

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21 Junho 2017

“Se um bispo se posicionasse com vigor a respeito da entrada na guerra do Iraque ou, hoje, da saída do Acordo de Paris, estaria em uma confusão de controvérsias partidárias, especialmente com a loucura das redes sociais de agora. Mas os bispos têm se disposto a tomar posições controversas em questões que devem ser encaradas como prioridade, como a liberdade religiosa e o mandato contraceptivo, ou o aborto. Como disse o Papa Bento XVI em 2010, "Se desejamos construir a paz verdadeira, como podemos separar, ou mesmo opor, a proteção do meio ambiente e a proteção da vida humana, incluindo da vida do feto?" Com algumas exceções, os bispos dos EUA não demonstraram muito interesse em unir essas preocupações”, constata Paul Moses, em artigo publicado por Commonweal, 17-06-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Paul Moses, professor de jornalismo no Brooklyn College/CUNY, é o autor de O Santo e o Sultão - As Cruzadas, o Islã e A Missão de Paz de Francisco de Assis (edição no Brasil pela Acatu, 2010) e Uma União Improvável: a História de Amor e Ódio dos Italianos e dos Irlandeses de Nova York (An Unlikely Union: The Love-Hate Story of New York's Irish and Italians: The Love-Hate Story of New York's Irish and Italianos, NYU Press, 2015).

Eis o artigo.

O cardeal Peter Turkson deu uma passada em Nova York na semana passada para falar em uma conferência ambiental das Nações Unidas, onde mais uma vez ele trouxe ideias da encíclica do Papa Francisco Laudato Si'. Cerca de uma semana antes, falando em uma reunião na Universidade de Georgetown em Washington, ele foi questionado sobre que assunto abordaria se ele tivesse 15 minutos para falar com o presidente Donald Trump. A resposta: emissão de gases de efeito estufa.

A urgência do Vaticano em relação às mudanças climáticas - Turkson, arcebispo emérito de Cape Coast, Gana, é prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral - contrasta com a abordagem morna da maioria dos bispos católicos nos Estados Unidos. A Conferência dos Bispos Católicos dos EUA emitiu uma declaração, antes e depois de Trump decidir retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, através de cartas do bispo Oscar Cantú de Las Cruces, do Novo México, como presidente do Comissão Internacional de Justiça e Paz dos Bispos. Mas houve pouca continuidade dos bispos locais.

Enquanto isso, o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin, durante a visita de Trump a Roma, insistiu para que ele não deixasse o Acordo de Paris. Ao mesmo tempo, o bispo Marcelo Sanchez Sorondo, líder da Pontifícia Academia das Ciências, disse aos jornalistas que se Trump saísse do Acordo, "seria um tapa na nossa cara" e "um desastre para todos". Supõe-se que o Cardeal Parolin tenha entregado uma versão dessa mensagem a Trump pessoalmente.

Desde o início, surgiram questões sobre o vigor com que os bispos dos EUA aplicariam as lições de Francisco sobre o clima

Desde o início, surgiram questões sobre o vigor com que os bispos católicos dos EUA aplicariam as lições de Francisco de Laudato si'. A colunista religiosa do New York Times Laurie Goodstein fez sua análise antes mesmo do lançamento da encíclica, que foi ansiosamente aguardada. Após a reunião dos bispos há dois anos, ela ponderou sobre a aparente relutância em abordar um assunto tão politicamente carregado. Assim como um notável analista:

O cardeal Theodore McCarrick, arcebispo aposentado de Washington, disse que na reunião de quinta-feira durante a discussão dos bispos sobre as principais prioridades para os próximos anos, "ninguém mencionou o meio ambiente". "Eles não entendem. Eles não entendem a complexidade", disse o cardeal McCarrick referindo-se aos bispos. Ele acrescentou: "Quando a encíclica sair, todos eles ficarão para trás, mas estão esperando para ver seu conteúdo". A desconfiança é um dos muitos sinais dos desafios do Papa Francisco com os líderes católicos estadunidenses, que são mais cautelosos e politicamente conservadores do que ele em certas questões. Alguns diriam que os bispos dos EUA demonstraram forte apoio a Francisco em seu posicionamento sobre mudanças climáticas e justiça ambiental. Além de várias declarações dos presidentes das comissões da USCCB, eles ajudaram a financiar o Catholic Climate Covenant, um pacto católico pelo clima, e patrocinaram panfletos e guias de discussão da Laudato si' para uso em paróquias, entre outras ações.

Mas as declarações emitidas em Washington - ou, nesse caso, em Roma - precisam ser repetidas em nível local para terem efeito. Não apenas as declarações emitidas pelos bispos dos EUA eram bastante fracas (como Anthony Annett escreveu recentemente no Commonweal), mas também falta acompanhamento.

O tratamento dado pelos bispos tem alguma semelhança com o de outra decisão presidencial fatídica, a de George W. Bush sobre a guerra no Iraque. O Papa João Paulo II se opôs a essa guerra em 2004, por meio de um enviado confiável com a missão de advertir Bush de que era um desastre iminente. O bispo Wilton Gregory emitiu uma declaração em nome do conselho administrativo de sessenta membros da conferência episcopal pedindo que Bush "recuasse antes de a guerra eclodir" e analisou a situação com base na teoria da guerra justa.

Mas houve pouco seguimento por parte dos bispos em suas dioceses, apesar dos esforços dos grupos pacíficos católicos, como os capítulos locais de Pax Christi, que os encorajaram a se posicionar. Alguns bispos essencialmente apoiaram a guerra, assim como alguns de seus documentos diocesanos. A oposição da Igreja recebeu relativamente pouca atenção na mídia, o que, por sua vez, facilitou que os políticos católicos ignorassem este fato.

Se um bispo se posicionasse com vigor a respeito da entrada na guerra do Iraque ou, hoje, da saída do Acordo de Paris, estaria em uma confusão de controvérsias partidárias, especialmente com a loucura das redes sociais de agora. Mas os bispos têm se disposto a tomar posições controversas em questões que devem ser encaradas como prioridade, como a liberdade religiosa e o mandato contraceptivo, ou o aborto. Como disse o Papa Bento XVI em 2010, "Se desejamos construir a paz verdadeira, como podemos separar, ou mesmo opor, a proteção do meio ambiente e a proteção da vida humana, incluindo da vida do feto?"

Com algumas exceções, os bispos dos EUA não demonstraram muito interesse em unir essas preocupações. E, como Michael Sean Winters recentemente observou no National Catholic Reporter, há uma infraestrutura intelectual conservadora importante e influente trabalhando para separá-las.

Perguntado sobre a abordagem "America first" de Trump durante uma visita à Universidade de Georgetown no mês passado, Turkson disse ao Catholic News Service: "eu não acho que essa linguagem seja útil, porque faz os outros pensarem: 'Quem somos nós?' " Ele disse que era papel dos bispos dos EUA responder, e talvez houvesse um empurrãozinho. O CNS informou: "O Vaticano, disse ele, deixa que as conferências dos bispos locais - neste caso, a Conferência dos Bispos Católicos dos EUA - respondam se essa for sua escolha. Mas segundo ele líderes em outros países podem questionar por que os EUA se posicionam acima dos outros".

Como Turkson disse na semana passada na ONU ao abordar a questão da preservação dos oceanos, "grande parte do declínio na saúde dos oceanos é resultado de enfatizar direitos e autonomias em detrimento das responsabilidades pessoais e nacionais". Ele acrescentou que "cuidar de nossa casa comum... é e sempre será um imperativo moral".

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