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26 Maio 2017

“No momento atual, uma quantidade crescente de estudos está demonstrando que o sonho americano, se é que alguma vez existiu, está se extinguindo. Uma equipe dirigida por Raj Chetty, da Universidade Stanford, publicou na Revista Science um monumental estudo estatístico que declara que a mobilidade absoluta – ou seja, a porcentagem de crianças que terão rendas superiores às de seus pais – caiu de aproximadamente 90%, nos anos 1940, para 50% hoje”, escreve Pablo Pardo, em reportagem publicada por El Mundo, 21-05-2017. A tradução é do Cepat.

Eis a matéria.

O edifício com 10 andares fica na esquina da rua 16 – a da Casa Branca – com a rua K, que tradicionalmente foi a sede dos escritórios de advocacia que fazem lobby na capital estadunidense. Fica em frente a um dos dois hotéis Hilton de Washington, a 300 metros do Museu National Geographic e do seleto University Club, ambos na rua 16. Na K, acerca de 300 metros, está o Washington Post e, mais perto, um dos bares de strip-tease mais considerados da capital estadunidense, Archibald’s, “o clube para cavalheiros mais seleto de Washington DC”, segundo diz sua própria página web. Archibald’s fica incorporado na parte detrás do St. Regis, um hotel no qual a diária mais barata para a noite de hoje, domingo, sai por 582 dólares, com impostos e taxas incluídos.

Os lugares mais distintos, no entanto, estão na rua 16. Na direção norte, a 400 metros, está o Jefferson, o hotel mais caro da capital estadunidense, que se autodescreve como “o segundo lugar mais exclusivo de Washington”. O primeiro está a 200 metros do edifício, mas na direção contrária, na direção sul, esquina da rua 16 com a Avenida Pensilvânia. É a Casa Branca.

Este edifício é mais discreto. Só tem uma identificação: K&L Gates, LLP (sigla, em inglês, que significa Sociedade de Responsabilidade Limitada, que é a fórmula jurídica para escritórios de advocacia, consultorias e demais empresas que são partnerships). Gates, como Bill, o fundador da Microsoft, o maior filantropo e endinheirado do mundo? Não, Gates como William, o pai de Bill.

Porque Bill Gates é o filho de William Gates, o cofundador de um dos 10 maiores escritórios de advocacia dos Estados Unidos, uma empresa que cuida, entre outras, das relações da Microsoft com o Governo. Sua mãe, Mary, era membro do conselho de administração do banco de Montana First Interstate, e da diretoria da United Way, uma ONG que combate a pobreza. Também fazia parte da diretoria o presidente e conselheiro delegado da IBM, John Opel. O jovem Gates recebeu dois milhões de dólares em ações de seu avô materno. Frequentou uma escola particular, Lakewood, cuja matrícula custava tanto como a de Harvard, e ali se tornou amigo de outro cofundador da Microsoft, Paul Allen. Quando a Microsoft criou seu primeiro sistema operativo de êxito, o MS-DOS, a primeira empresa que o adotou para seus computadores pessoais foi a IBM. O conselheiro delegado da IBM, então, era John Opel.

O amigo de Gates, o financeiro e (também) filantropo Warren Buffett, a segunda pessoa mais rica do mundo, começou sua carreira como empresário repartindo jornais em sua Omaha natal. É verdade. Mas, também é fato que seu pai, Howard Buffett, era naquela época o único congressista do estado de Nebraska, no qual está Omaha, na Câmara de Representantes dos Estados Unidos. Ser filho do único congressista do estado não é ruim para lançar uma carreira como investidor.

Todas estas histórias colocam em questão uma ideia: o sonho americano. Ou seja, a ideia de que, apenas com o esforço e inteligência, uma pessoa pode chegar onde quiser na maior potência do mundo. Para os Estados Unidos, é quase uma religião, um cartão de identidade. E o certo é que não faltam casos. Steve Jobs e Steve Wozniak, os fundadores da Apple, vinham de famílias de renda alta. Assim como Jeff Bezos, a terceira – ou quarta, de acordo com o dia – pessoa mais rica do mundo, fundador e dono de 17% do gigante de vendas on-line e da nuvem Amazon.

Ou seja, não é necessário ir ao outro extremo. O sonho existe. Mas, até onde? É uma realidade ou uma obra-mestra do marketing? Afinal de contas, na Espanha não falamos do sonho espanhol, apesar de sermos o único país onde um senhor chamado Amancio Ortega, que deixou a escola aos 14 anos, nascido em Busdongo, nas montanhas de León, quase no limite com Astúrias, e criado na Galícia, que só se parece com Silicon Valley nas curvas das estradas secundárias e com Harvard no verde que é a vegetação, pôde se tornar a terceira pessoa mais rica do mundo.

No momento atual, uma quantidade crescente de estudos está demonstrando que o sonho americano, se é que alguma vez existiu, está se extinguindo. Uma equipe dirigida por Raj Chetty, da Universidade Stanford, publicou na Revista Science um monumental estudo estatístico que declara que a mobilidade absoluta – ou seja, a porcentagem de crianças que terão rendas superiores às de seus pais – caiu de aproximadamente 90%, nos anos 1940, para 50% hoje.

“O maior descenso é na classe média”, declara o estudo. É um dado consistente com dois estudos do Nobel de Economia Angus Deaton e sua esposa, Anne Case, em 2015, e há apenas dois meses, nos quais revelam como a classe média branca está sofrendo uma onda massiva de mortes por enfermidades associadas à pobreza – diabetes – e à desintegração social - abuso de medicamentos com receita, suicídios e alcoolismo -, que se tornou a maior crise de saúde desde a II Guerra Mundial, e muito acima da epidemia de Aids dos anos 1980.

A análise da Science é um passo a mais em uma crescente quantidade de estudos que revelam que, se o sonho americano existiu, agora está morto e enterrado. A grande diferença entre este documento e outros é onde colocou o foco. Os cinco pesquisadores que escreveram o relatório se centram na mobilidade absoluta, ou seja, na renda. Até agora, a maior parte dos estudos olhava para a mobilidade relativa. No caso, divide-se a sociedade em grupos – normalmente em 5 ou 10, para tornar o cálculo mais simples –, em função do nível de renda, e se estuda quantas pessoas podem passar de um grupo para o outro. Para dar um exemplo, quantas pessoas que nascem nos 10% mais pobres podem passar para o segundo 10% mais pobres. Segundo Thomas Hertz, da American University, uma criança nascida no decil (ou seja, nos 10%) mais baixo, tem 31% de possibilidades de permanecer aí durante toda a vida. Caso se amplie a análise para o segundo decil inferior (ou seja, o grupo formado pelas pessoas que compreendem de 80% a  90% das pessoas mais pobres), a proporção é de 43%. Pobre você é, e pobre será.

Os resultados dessas análises já haviam deixado claro que os Estados Unidos é uma sociedade com muito pouca mobilidade social ou como, em 2002, o professor de Harvard e especialista nessa matéria, Alan Krueger, sinalizou: “cada dia parece mais claro que ter um pai rico é o segredo para o êxito”.


As organizações internacionais também tinham chegado a mesma opinião. Em 2010, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) situava Reino Unido, Itália, e Estados Unidos como os três países em que a riqueza dos pais tem mais influência na riqueza dos filhos. Espanha era o quinto, depois França, quase ao mesmo nível da Alemanha. A própria Espanha que nós, espanhóis, tendemos a desprezar como um país de ‘filhinhos de papai’ é mais meritocrática, segundo a OCDE, que os Estados Unidos. E a própria França, que os estadunidenses criticam como um exemplo de elitismo, é mais igualitária que seu próprio país.

Segundo Krueger, se uma família tem uma renda que é o dobro da média, demorará cinco ou seis gerações (entre 100 e 120 anos) para descer à média. Nos anos 1980, a Teoria da Transmissão Intergeracional do Status Econômico, do Nobel Gary Becker, da Escola de Chicago, de orientação liberal, tinha reduzido esse período para apenas duas gerações.

Por que acontece isto? É porque a economia cresce menos e, portanto, há menos bolo para repartir? Ou porque há menos redistribuição? O artigo de Chetty é categórico: “A maior parte do descenso em mobilidade absoluta se deve a uma distribuição mais desigual do crescimento econômico, nas décadas mais recentes, do que ao arrefecimento da taxa de crescimento do PIB”.

Essa conclusão é uma crítica frontal à política de Donald Trump e, em geral, de toda a Economia da Oferta, que sustenta que é necessário eliminar regulamentações e impostos, em especial dos contribuintes com rendas mais altas, para que assim o trem corra mais depressa e todos cheguemos mais longe. É o trickle down economics, a economia do gotejo, que prevê que a sociedade se beneficiará da baixa de impostos ao capital, porque este gerará mais trabalho e, também, mais arrecadação fiscal.

A ideia foi popularizada por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, ainda que o vice-presidente com o primeiro, George W. Bush, um bilionário, a qualificou como “economia de vodu”. Mas, o certo é que hoje em dia as rendas do trabalho são as que mais estão agravadas, ao passo que o capital desfruta, tanto o ponto de vista normativo como no terreno das realidades cotidianas, de uma menor pressão fiscal. Um exemplo: a taxa de imposto das grandes empresas dos Estados Unidos é de 35%, mas a real é de 19,4%.

Contudo, isso é o que afirma, também, a OCDE, para a que “a mobilidade intergeracional se torne menor em sociedades com mais desigualdade”. Entre elas, segundo essa organização que é formada pelos países mais ricos do mundo e alguns emergentes, Espanha... e Estados Unidos.

Claro que existe algo evidente: é mais difícil saltar de um nível de renda a outro quando as distâncias são maiores. Ou seja, quando a sociedade é desigual. Um estudo de Chetty, publicado em março pela Reserva Federal, por exemplo, revelava que um estadunidense nascido no quintil mais baixo da população (ou seja, nos 20% mais pobres) tinha apenas 7,5% de possibilidades de chegar ao quintil mais alto (nos 20% mais ricos). No Canadá, as possibilidades eram de 13,5%. E na Dinamarca de 11%. Esses países, nos Estados Unidos, parecem ser os novos campeões do sonho americano. Mas, também é certo que sua desigualdade é muito menor.

As diferenças entre vir de uma família rica e uma pobre são abismais. Em outro ensaio, publicado pelo Escritório Nacional de Investigação Econômica, em 2014, Chetty expõe uma correlação praticamente de um a um entre o nível de renda e as gravidezes adolescentes.

A vinculação entre renda e o acesso a universidades de elite, no entanto, só se dá entre os verdadeiramente ricos. Algo compreensível quando se leva em conta que a matrícula de um ano em Harvard, Princeton ou Stanford supera os 50.000 dólares. Obter a mesma educação que Mitt Romney, o candidato republicano da Casa Branca em 2012, custaria hoje mais de 600.000 euros. No caso de Barack Obama, o custo chegaria a meio milhão. Embora parte dos custos da educação do ex-presidente foram abatidos com bolsas, Até 2004, ano em que entrou no Senado, Obama não havia pago a dívida que havia contraído. De fato, nos Estados Unidos, há aposentados que continuam pagando os gastos que tiveram com a educação. A isso é preciso somar a principal causa das falências pessoais dos estadunidenses: a saúde. Todos esses fatores criam empecilhos ao sonho americano.

Normalmente, quando se apresenta esta ideia e, sobretudo, se é postada no Twitter, recebe-se todos os tipos de educados comentários, nos quais os leitores convidam o autor a se mudar para a Coreia do Norte. Essa sofisticada atitude também tem uma explicação: o sonho americano existe... na mente dos estadunidenses. Um estudo conjunto do centro de análises centrista Brookings Institution e da organização sem fins lucrativos e independente, especializada em estudos da opinião pública, Pew Research Center, realizado em 27 países, revela que os estadunidenses são os que mais acreditam na meritocracia. Entre os cidadãos desse país, 69% concordam que “as pessoas recebem o que lhes corresponde por sua inteligência e habilidades”, e só 19% acreditam que para progredir na vida é “essencial” proceder de uma família de renda alta. O sonho americano é uma crença muito arraigada como para arrancá-lo da realidade.

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