"A Igreja reconhecerá a santidade do Padre Cícero". Entrevista com Leonardo Boff

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28 Março 2017

Existem figuras que estão intimamente ligadas a certos lugares. O Padre Cícero Romão Batista e Juazeiro do Norte são um exemplo desta afirmação, ao ponto de poder dizer que não é possível entender um sem o outro, pois a história do personagem e da cidade são marcadas reciprocamente.

A reportagem é de Luis Miguel Modino, publicada por Religión Digital, 26-03-2017. Traduzido por Henrique Denis Lucas.

De 20 a 24 de março, dias em que foram celebrados os 173 anos do nascimento do "Santo Nordeste" brasileiro, ocorreu no Memorial Padre Cícero o V Simpósio Internacional Padre Cícero, organizado pela Universidade Regional do Cariri (URCA) e pela prefeitura da cidade de Juazeiro do Norte, evento que coincidiu com a 35ª semana Padre Cícero.

Diversos oradores conhecidos, provenientes do Brasil e do exterior, entre os quais cabe destacar a figura notável de Leonardo Boff, conversaram com mais de 650 participantes, ajudando-os no aprofundamento da vida e da obra do sacerdote. O tema escolhido foi: "Reconciliação, e agora?", ideia que surge após o processo desencadeado pela Igreja Católica e que teve como consequência a reconciliação da Igreja com o Padre Cícero, através do Papa Francisco, cumprindo assim as palavras que o próprio sacerdote dizia aos que se preocupavam com a sua situação canônica: "Não se preocupem, meus filhos, quando chegar a hora, a própria Igreja Católica me defenderá".

Leonardo Boff, na conferência de encerramento, ansiosamente aguardada pelos participantes do simpósio, abordou a figura do Padre Cícero a partir do Pontificado do Papa Francisco, estabelecendo pontes de união entre os dois personagens de grande importância para a história da Igreja.

O teólogo brasileiro declarou que é importante que a Igreja reconheça a santidade de alguém que já é santo para o povo, como testemunhou mais uma vez no Simpósio a dona Rosinha do Horto, uma das poucas pessoas ainda vivas que conviveram com o padre Cícero, para quem ele nasceu, viveu, morreu e continua santo. Boff salientou que chegará o dia em que o Padre Cícero será beatificado e canonizado, processo ao qual Maria de Araujo também deveria passar, reconhecendo assim o papel e o valor das mulheres, pois em sua boca teve lugar o milagre da hóstia que se converteu em sangue, e que em consequência disso, ela tenha se mantido reclusa até a sua morte.

O Papa Francisco é considerado por muitos como uma das grandes vozes da teologia da libertação e como alguém que vem desse mundo, de uma Igreja que pensa sobre a justiça social, que fez a escolha pessoal de viver na pobreza, estando perto dos pobres, visitando uma vez por semana as vilas miseráveis da capital Buenos Aires, sempre através de transportes públicos, sozinho, entrando nas casas, tomando café com as pessoas.

Boff qualifica o Bispo de Roma como uma das grandes bênçãos que Deus deu aos cristãos e à humanidade, o que tem feito que muitos se sintam orgulhosos de serem católicos. Ele é atualmente o único líder mundial a quem todos escutam, alguém que promove a reconciliação e o diálogo entre países e religiões, em uma clara opção pela vida, alguém que diz a verdade com ternura e determinação.

Neste sentido, Francisco é definido como aquele que trouxe uma primavera para a Igreja, depois de um longo inverno, uma Igreja de abertura, de diálogo com a cultura e com o mundo, com os movimentos sociais, para escutar das próprias bocas das pessoas que sofrem com os tormentos, os gritos das vítimas.

Francisco estabelece uma Igreja de portas e janelas abertas, não encerrada em um castelo cercado de inimigos por todos os lados. Ele é alguém que se despoja dos símbolos de poder, o que irá criar uma genealogia de Papas advindos do terceiro e do quarto mundo, iniciando uma nova forma de exercer o papado como serviço colegial, dirigindo a Igreja não a partir do direito canônico, mas a partir da caridade, sem condenar ninguém e reconciliando-se com quem foi condenado em outros tempos, tal qual os teólogos da libertação.

Quando o Papa Francisco, de acordo com Leonardo Boff, fala aos cardeais, bispos, sacerdotes ou seminaristas, mostra-lhes muitas das coisas que foram vividas pelo Padre Cícero, alguém que era um conselheiro, que caminhou com o povo, que abençoou, que esteve no meio das pessoas, com cheiro de ovelha, um exemplo de uma Igreja em saída, em direção ao povo, aos pobres. Entre os reconhecimentos que o Papa fez ao Padre Cicero estão os seus dez mandamentos ecológicos, cujo espírito está presente na Encíclica Laudato Si.

O Padre Cícero compreendeu o seu ministério não como burocracia, mas como um serviço aos outros, a partir da simplicidade, realizando um movimento de convivência direta com as pessoas, as quais eram o centro de sua vida, falando com todos que encontrava, visitando todas as casas, abraçando as crianças, dando orientação e bons conselhos para todos os que reuniam-se à tarde em frente de sua casa, especialmente os mais humildes, as pessoas mais pobres, sendo sempre um exemplo de paciência, conforto, atenção, carinho e disponibilidade, com um coração compassivo e misericordioso que se comovia diante da necessidade das pessoas, sem nunca cobrar nada pelo seu trabalho pastoral. Foi alguém que obedeceu o que Roma determinou sobre a sua vida e nunca fez qualquer crítica à Igreja.

A importância do Padre Cícero vai mais além do âmbito eclesial, sua figura é destacada por representantes da sociedade civil. Nas palavras do prefeito da cidade, José Arnon Bezerra, ele "só ganhou a importância que tem hoje para milhares de pessoas, por causa das mudanças que promoveu na sociedade. Por isso a sua palavra ainda é ouvida e repassada até hoje", aspecto que também foi ressaltado pelo Reitor da Universidade, Patricio Pereira Melo, que organizou o simpósio, que não hesitou em dizer que a "história do Padre Cícero se entrelaça com a história da região do Cariri", porque, em sua opinião, "a história de Padre Cícero é um entrelaçamento de política e misticismo".

Um dos principais fatores de reconciliação entre a Igreja Católica e Padre Cícero foi o atual bispo emérito da Diocese de Crato e Presidente de Honra do Simpósio, Dom Fernando Panico, em um processo que ele mesmo promoveu desde 2002, que se prolongou quase 15 anos e que, finalmente, tornou-se uma realidade com o Papa Francisco. Em sua apresentação, o prelado destacava a realidade sócio-religiosa cada vez mais rica de Juazeiro do Norte, um fato que se deve à figura do Padre Cícero e que tanto influencia a vida pastoral da capital do Cariri, não hesitando em afirmar ao longo dos dias de hoje que ele é uma maravilha em nossas vidas. Esta ideia foi corroborada por Dom Gilberto Pastana, bispo diocesano de Crato, para quem o evento realizado ajuda a fazer uma leitura da vida, memória e herança espiritual do sacerdote cearense.

Mas o Padre Cícero não é uma figura isolada, mas uma parte de uma corrente que teve seus antecessores e sucessores. Neste sentido, o arcebispo Antonio Muniz Fernandes, Arcebispo de Maceió, insistiu em uma palestra com temática orientada para a unidade de vida e ação compartilhada entre o Padre Cícero e o Padre Ibiapina, que realizou grande trabalho social na pobre realidade do Nordeste brasileiro, sobretudo através das casas de caridade. Enquanto o segundo foi esquecido, os romeiros nunca deixaram cair no esquecimento aquele que sempre teve reputação de santidade, inclusive sendo excluído da Igreja Católica.

Entre os seguidores desta corrente iniciada por Ibiapina e seguida por Padre Cícero, cabe destacar, na opinião do Padre Vilecí Basilio Vidal, a figura do beato Zé Lourenço que constituiu uma comunidade de cerca de duas mil pessoas no lugar conhecido como Caldeirão e que tornou-se um exemplo de desenvolvimento sustentável e ecológico, com uma forte influência religiosa, o que levou seus habitantes a viver com alegria e abundância, em uma época em que a maioria dos pobres passava por grandes necessidades, provocando a ira dos governantes e sua posterior destruição.

O Simpósio não quis esquecer os romeiros, figuras profundamente ligadas àquele que consideram santo, para quem, nas palavras de Edin Sued Abumanssur, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o importante não é como chegar, mas chegar, pois não podemos esquecer que a maioria dos romeiros são pobres. Esta forma de catolicismo popular se expressa de muitas maneiras, pois ainda hoje há muitas pessoas que escrevem cartas para o padre Cícero, contando seus problemas e preocupações, pedindo sua intercessão ou agradecendo favores alcançados através dele, como constatava em sua apresentação a professora Maria das Graças Ribeiro de Oliveira Costa.

Um dos grandes estudiosos do padre Cícero é a professora da Universidade de Berkeley (EUA), Candace Slater, que após a nova situação canônica do Padre Cícero, empenhou-se em perguntar aos romeiros a sua opinião a respeito, ressaltando que isto não tenha mudado muito a relação do romeiro com o seu "Padim", próximos de quem eles se sentem bem, pois como também ressaltou o historiador Renato Casimiro, a crença de que Padre Cícero seja um santo se estende entre os romeiros. Uma das preocupações entre os romeiros é o fato de que agora a Igreja Católica queira se apropriar da figura de seu santo popular, constatava a irmã Annette Dumoulin.

O caminho de reconciliação é um primeiro passo que certamente vai acabar no reconhecimento de alguém que nunca se preocupou com o que os outros pudessem pensar, tendo como prioridade tornar presente entre os mais pobres o Deus da misericórdia. Santo ou não, para a Igreja, os pobres sempre o tiveram como uma mão de Deus em sua vida, como um santo dos pés à cabeça.

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