Cardeal diz que a Igreja Africana 'substitui' estados falidos

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27 Março 2017

Cardeal Laurent Monsengwo, da República Democrática do Congo, diz que em muitas sociedades africanas a Igreja Católica foi um substituto histórico para o Estado, especialmente quando os Estados foram falhos, explicando por que prelados católicos do continente têm um papel tão diretamente político nas questões africanas.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 24 -03-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Ao longo dos anos, e em vários lugares, o catolicismo africano teve uma rica história de prelados católicos que se tornaram importantes forças sociais e políticas em seus países.

O Cardeal Anthony Okogie da Nigéria arriscou a própria vida para lutar contra o regime militar; o Cardeal Christian Tumi dos Camarões foi uma pedra no sapato de Paul Biya, presidente forte e vitalício de seu país; o Arcebispo Peter Sarpong do Gana foi um crítico frequente do desperdício e da corrupção do governo; e o cardeal John Onaiyekan da Nigéria basicamente envergonhou o presidente do país para que ele não tentasse alterar a constituição para buscar um terceiro mandato.

No entanto, mesmo nesse contexto, o Cardeal Laurent Monsengwo da República Democrática do Congo se destaca - porque, falando sério, ele ainda é basicamente o único prelado católico africano a ser chefe de Estado de facto em seu país.

Durante os anos 90, quando o governo do ditador Mobutu Sese Seko começou a fraquejar no então chamado Zaire, o país precisava de uma figura de confiança universal para intermediar uma transição. Eles recorreram a Laurent Monsengwo, na época arcebispo de Kisangani, que conquistou uma reputação como homem íntegro e audaz defensor da democracia e da sociedade civil.

Quando o "conselho superior" de transição formou-se para governar até que as eleições pudessem ser realizadas, Monsengwo foi nomeado seu presidente. Perguntei a ele na quinta-feira se isso fazia dele chefe de Estado oficial e ele disse que não vê dessa forma, embora os países estrangeiros o tratem como chefe de Estado e o pensamento congolês mais comum pense nele dessa forma também.

E onde há fumaça...

Desde então, Monsengwo, agora com 77 anos, e Arcebispo de Kinshasa, a capital congolesa, surgiu como uma das figuras de maior confiança e admiração na Igreja africana. Entre outras coisas, ele agora atua no conselho "C9" do Papa Francisco, o grupo de cardeais conselheiros, e tem sido muito procurado para palestrar, especialmente nas regiões francófonas do mundo.

Mais recentemente, ele e os outros bispos congoleses organizaram diálogos entre os principais partidos políticos do país, no intuito de manter a paz até as eleições, inicialmente marcadas para novembro do ano passado, mas que já foram postergadas para 2018. Embora a situação continue frágil, quase todo mundo acredita que está melhor do que teria sido sem a intervenção dos bispos.

Monsengwo está em Roma para uma conferência sobre Teologia Cristã Africana, que ocorreu de 22 a 25 de março, patrocinada pelo Centro de Ética e Cultura da Universidade de Notre Dame e realizada no Centro Global Gateway da universidade.

Entre outras coisas, Monsengwo disse que apesar dos rumores sobre a possibilidade de uma viagem papal ao Congo em 2017, Francisco disse que não virá este ano.

Eis a entrevista.

Em sua experiência, quais são três ou quatro características da Igreja e do catolicismo na África?

Em primeiro lugar, o catolicismo na África é muito vivo, 'vívido'. É ativo e os bispos são muito ocupados, assim como os padres e as freiras. Isso não significa que não há problemas, existem vários deles. Mas (a Igreja) é ativa apesar disso e faz muitas coisas pela população e pela sociedade. Por exemplo, as escolas são administradas por padres e freiras. Em Kinshasa, temos 590 escolas católicas confiadas à Igreja.

Você disse 590? Isso é impressionante.

Sim, é impressionante, mas é a realidade. Há também 35 escolas paroquiais particulares, o que significa que temos influência sobre a população. Se as escolas funcionam bem, significa que temos responsabilidade sobre a educação das crianças e suas mães. É uma grande responsabilidade. Se as escolas não funcionam, é doloroso, mas ainda muito importante.

A Igreja na África também administra hospitais. Em Kinshasa, por exemplo, (a Igreja) administra 60% dos hospitais e centros de saúde. Isto é importante, mas também significa que há muito a fazer e muito a dizer. Em Kinshasa, temos uma população de 12,5 milhões de pessoas. Nas projeções, dizem que dentro de oito anos haverá 25 milhões de pessoas morando lá. Agora temos de preparar os leigos, religiosos e sacerdotes, seminaristas, para que a população esteja nas mãos de pessoas educadas e preparadas no futuro.

Temos 6 milhões de católicos em Kinshasa, cerca de metade da população, então isso é fundamental.

Olhando para a sua biografia, uma característica de sua carreira episcopal é um forte envolvimento na vida social e política do seu país. Na década de 90, você liderou a transformação de Mobutu em um novo país. Recentemente você e outros bispos congoleses se envolveram na negociação entre os vários partidos políticos para garantir a paz social. De onde vem esse sentido de responsabilidade com a vida social e política?

Ele vem de tempos pré-coloniais e coloniais. Durante a colonização, houve um pacto entre a Santa Sé e a Bélgica colocando todas as escolas e hospitais sob controle católico, o que significou que a Igreja se importava com a maioria da população.

Há uma noção de que a Igreja desempenhou o papel de substituto para o governo, pois quando a independência chegou foi necessário que a Igreja estivesse ao lado das pessoas. As pessoas disseram que queriam "uma Igreja congolesa em um estado congolês" (nous volouns um Eglise congolês dans un Congolês etat)... Lentamente, as pessoas começaram a pensar que [a Igreja] cuidar da sociedade é normal.

Esta substituição do Estado pela Igreja não é apenas resultado de uma negociação histórica, mas também do fato de que em alguns países africanos o Estado foi falho, ou seja, não funciona e não serve aos interesses do povo. Por isso, a Igreja, incluindo os bispos, basicamente, não podem dizer não, correto?

É verdade. Quando tivemos [no Congo] a nossa convenção nacional [nos anos 90], outros lugares estavam fazendo o mesmo que o Gabão... quando não queria mais viver sob a ditadura Mobutu, nós ajudamos o país a se tornar um Estado democrático. Criamos uma nova constituição e criamos uma nação.

O que é interessante é que durante todo o processo a Igreja desempenhou um papel central. Os africanos geralmente têm mais fé na Igreja do que no governo, certo?

Sim. A maioria acredita que a Igreja precisa cuidar de nós e que a Igreja deve se posicionar a fim de ajudar no desenvolvimento da nação.

Muito tem sido dito na conferência sobre o impacto da colonização e se existem novas formas de colonialismo hoje. Você vê isso como uma ameaça?

Sim, é uma ameaça. Por exemplo, as pessoas estão vindo para a Europa. Por quê? Porque, segundo eles, na Europa eles têm mais oportunidades de viver a sua vida. Lembro-me das histórias de imigrantes que foram encontrados congelados até a morte no porão de bagagem de um avião. Quando perguntados sobre o porquê, eles respondiam que acreditavam que podiam viver melhor na Europa.

Então, o que deve ser feito? Temos que ajudar essas pessoas a ficarem em casa, temos que promover o seu desenvolvimento em sua casa e não apenas extrair os seus minerais para levá-los à Europa. Precisamos ter certeza de que eles podem viver bem onde estão e não precisam ir buscar isso em outro lugar.

O Papa também fala de "colonização ideológica", como, por exemplo, os governos ocidentais e organizações não governamentais que tentam forçar os governos africanos a distribuir preservativos ou legalizar o aborto. Na sua opinião, isso existe e é uma nova forma de colonização?

Sim, com certeza. Eles fazem de tudo para chegar ao aborto [legalizado], preservativos, e assim por diante. Não podemos aceitar isso.

Você acredita que haja um esforço real por parte de organizações ocidentais para conseguir isso?

Sim, eu acho. É claro, muito claro. Por exemplo, eles dão preservativos a crianças de 14 anos de idade [nos nossos países] e os encorajam a usá-los, chegando a organizar cursos antes da escola para mostrar como fazê-lo. Eles fazem isso em vez de dar outras alternativas a eles. Isso vai contra a cultura do povo.

É uma imposição de fora?

Totalmente.

Uma última coisa: Você disse que, por enquanto, não parece que o Papa Francisco virá ao Congo este ano.

O Papa disse que não pode vir este ano. Ele disse que vai ao Sudão do Sul. Então, na atual conjuntura, o Papa não vem.

Mas se ele decidir vir em algum momento no futuro, o que isso significaria para o povo do Congo?

A presença do Santo Padre, acima de tudo, transmitiria a mensagem de que as pessoas devem manter seus valores, seus valores cristãos. As pessoas devem ajudar o país a se reconciliar e dialogar, inclusive na política. As pessoas precisam ser capazes de conversar entre si. Em Bangui [capital da República Centro-Africana], essa é a primeira coisa que o Papa disse. As pessoas têm de ser capazes de sentar e conversar uns com os outros, foi o que ele disse.

Naturalmente, a primeira coisa que esperamos é que o Papa ajude os bispos no trabalho que estão realizando, o que ele fez. Ele nos recebeu no Vaticano, por exemplo.

Eu não acho que a história tenha terminado, e vamos continuar insistindo para que o Papa venha!

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