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25 Março 2017

"Talvez o mais necessário, hoje em dia, seja oxigenar o conhecimento da história judaico-cristã e pedir que seminaristas, estudantes e professores universitários deem uma repassada mais aprofundada nos documentos mais relevantes", reflete Lisa Palmieri-Billig, representante na Itália e enviada junto a Santa Sé do AJC - American Jewish Committee, em artigo publicado por Vatican Insider, 22-03-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O título original e a apresentação de uma conferência organizada pela Associação Bíblica Italiana (ABI, uma organização reconhecida pela CEI - Conferência Episcopal Italiana - que tem cerca de 800 professores e estudiosos da Bíblia), prevista para Setembro, foram a causa de comentários indignados por parte dos rabinos italianos. O título em questão era "Israel, povo de um Deus ciumento. Coerências e ambiguidades de uma religião elitista", título que acabou sendo retirado e modificado. O termo "religião elitista" foi substituído por "religião do antigo Israel".

A introdução original para a conferência também foi modificada no site da ABI, após protestos dos rabinos italiano. A reação mais articulada e minuciosa foi apresentada pelo professor Giuseppe Laras, o respeitado presidente emérito da Assembléia Rabínica Italiana e ex Rabino-Chefe de Milão, conhecido, entre outras coisas, por seu compromisso e suas crenças no diálogo inter-religioso e sua participação em discussões teológicas públicas com o ex-cardeal de Milão, Carlo Maria Martini, também profundamente envolvido na relação entre católicos e judeus.

O parágrafo introdutório inicial, agora retirado, continha algumas declarações desconcertantes apresentadas como fatos, ou mais precisamente como conclusões antecipadas em vez de hipótese a serem demonstradas, como é normalmente exigido pelo método científico. Estava escrito: "A escolha do tema desta conferência é, ao contrário do que normalmente acontece, inspirado pelo panorama atual marcado pelo retorno do religioso acompanhado por acentos axiomáticos e de intolerância. Isso pode representar uma derrota do espírito crítico moderno, através do qual a religião tradicional desenvolveu-se de forma rica, mas coloca em discussão o problema de considerar quais seriam as possíveis raízes de uma religião que, em sua estrutura, pode dar origem a manifestações consideradas degenerativas. (...) foi decidido a partir de uma hipótese inicial: na origem estaria o processo através do qual, de divindade subordinada dentro de um panteão, YHWH tornou-se progressivamente a divindade exclusiva de um povo que, de forma elitista, é pensado como sua única posse. (...) pensar a si mesmo como povo pertencente de forma elitista a uma única divindade determinou um sentimento de superioridade da própria religião, e levou-o a marcar limites de separação em relação aos outros povos".

A "ambivalência" mencionada no título refere-se à coexistência do particular e do universal na "religião do antigo Israel" (sem qualquer referência ao judaísmo contemporâneo), e à ambiguidade da coexistência de um "Deus ciumento" com a possibilidade de uma escolha livre. A introdução afirma, mais adiante, que quer "evitar a impressão de que se fale sobre a religião do Antigo Testamento por um viés negativo. Pretende-se, ao contrário, fornecer elementos adequados para verificar como as problemáticas que emergem a partir de uma religião assim conformada, reaflorem em outros sistemas religiosos, e apurar se a ambiguidade detectada é intrínseca apenas aos textos do Antigo Testamento ou deriva mais propriamente (ou também) da interpretação que lhe é dada nas tradições que os endossaram".

Poder-se-ia inferir que a intenção seria a de descobrir (ou provar?) que "a antiga" religião judaica, assim como está expressa na Bíblia Hebraica, foi a causa do fundamentalismo no judaísmo, e que também estaria na base do fundamentalismo cristão e, especialmente, do islâmico. A primeira e mais elementar observação é que esses textos foram escritos em hebraico e aramaico, línguas em que cada palavra contém vários níveis diferentes de significado, e que a religião judaica viva baseia-se nos multíplices comentários rabínicos ao longo dos séculos, que argumentam de diferentes pontos de vista, em sessões de estudo em que a busca de novas interpretações é constante. Os estudiosos da Bíblia que não sabem que esse método é, por sua natureza, antifundamentalista e antiabsolutista, e que o método judaico da investigação continua das mutações da realidade divina levam a dúvidas renovadas e a novos reexames em cada geração, não entendem a essência fundamental da religião que se propõem a estudar.

O programa de conferência é definido "científico", mas os estudos bíblicos não podem ser realizados em um contexto separado especializado e ser, ao mesmo tempo, considerados científicos. A indagação interdisciplinar (teológica, linguística, antropológica, etc.) e o contexto histórico são de vital importância. Nos séculos passados, os estudos pelo lado católico da religião judaica sofriam de grandes preconceitos, porque se baseavam justamente em preconceitos teológicos e no ensino do "desprezo", onde a absurda acusação de "deicídio" (revogada pelos ensinamentos da Igreja somente a partir do documento nº. 4 "Nostra Aetate", de 1965), insuflava o fogo do antissemitismo, que foi causa de perseguições e genocídios e o fomento do ódio que conduziu ao Holocausto. Na ausência de uma perspectiva histórica que possa lançar luz sobre os mutáveis significados e as várias interpretações da religião através dos tempos, tateamos no escuro e chegamos a conclusões equivocadas.

No entanto, nos últimos 50 anos, a Igreja produziu documentos importantes para fins educacionais, que deveriam ser retirados das prateleiras e serem estudados e aplicados para evitar situações de conflito, como estas causadas pela apresentação da conferência da ABI, em Veneza. Os documentos do Vaticano posteriores ao Concílio Vaticano II da Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo, com base no "Nostra Aetate", são principalmente o resultado do diálogo contínuo entre judeus e católicos no âmbito do Comitê Internacional de Ligação Católico-Judaica (ILC - International Catholic-Jewish Liaison Committee). Eles oferecem recomendações específicas que, se aplicadas na sua intenção original, poderiam levar a uma reescrita total dessa conferência. São instrumentos essenciais para combater o antissemitismo teológico que renasce em cada geração se os Evangelhos e do Magisterium não são ensinados em seu contexto histórico.

Na exaustiva análise do rabino Laras, emergem passagens anteriores no diálogo católico-judaico e um triste declínio da sensibilidade ao antijudaísmo teológico, que fica evidenciado pela descrição da conferência da ABI. O rabino Laras também menciona as homilias do Papa Francisco como prova de que as recomendações vitais dos documentos produzidos pela Comissão da Santa Sé para as Relações Religiosas com o Judaísmo não estão sendo seguidas.

Laras refere-se à "retomada da antiga polarização entre a moralidade e a teologia da Bíblia hebraica e do farisaísmo, e Jesus de Nazaré e os Evangelhos", usada por Francisco em sentido metafórico para ilustrar as hipocrisias da sociedade contemporânea, até mesmo dentro da própria Igreja. É uma questão muito sensível, visto que Francisco é muito benquisto e considerado pelo povo judeu. Amigos e representantes do judaísmo, relutantes em criticá-lo, ainda assim o informaram do problema em várias ocasiões, mas o Pontífice não parece perceber os danos que poderiam causar tais homilias.

O rabino Laras escreve: "Eu sei perfeitamente que os documentos oficiais da Igreja Católica teriam chegado a pontos sem retorno. Pena que eles sejam diariamente contrariados pelas homilias do Pontífice, que emprega exatamente a velha, inveterada estrutura e suas expressões, dissolvendo o conteúdo desses documentos. Basta pensar na "lei de talião" recentemente evocada pelo Papa com superficialidade e deturpação, pela qual, através dela, interpretando-a por milênios, mesmo na época de Jesus, o judaísmo substitui à retaliação o ressarcimento, fazendo pagar ao culpado o que hoje se chamaria de lucro cessante, dano permanente e também psicológico. E tudo isso muitos séculos antes que a tão civilizada Europa (cristã?) sequer abordasse esses temas. Talvez o argumento da chamada "lei de talião" não teria sido ao longo do tempo o ponto forte do antijudaísmo pelo lado cristão, com uma sua história bem definida?".

No entanto, os documentos da Santa Sé sobre as relações entre católicos e judeus são um tesouro de orientações para o êxito do diálogo. A introdução ao documento de 1985 "Subsídios para uma correta apresentação dos judeus e do judaísmo na pregação e na catequese da Igreja Católica" faz novamente referência às importantes instruções contidas nas "Diretrizes e Sugestões para a Implementação da Declaração Conciliar", de 1974, que definia condições fundamentais para o diálogo: "O respeito pelo outro, como ele é", "Compreender melhor os componentes fundamentais da tradição religiosa judaica", e mais, "as características essenciais pelas quais os Judeus definem-se à luz de sua atual realidade religiosa","na esperança que ajudem na implementação, na vida da Igreja, das intenções expressas no documento conciliar".

O terceiro capítulo dos "Subsídios" para "Pregação e catequese" elabora uma lista de itens para colocar em prática, com esta recomendação: "A informação sobre estas questões é importante em todos os níveis de ensino e de educação. Entre os meios de informação, atenção especial deve ser dada aos seguintes; - catecismos e livros religiosos; - livros de história; - meios de comunicação (imprensa, rádio, cinema, televisão)" (e, poderíamos acrescentar, conferências bíblicas!). "O uso efetivo destes meios pressupõe a formação completa de professores e educadores nas escolas, nos seminários e nas universidades (AAS 77, 1975, p. 73)", segue o texto.

É importante acrescentar que o documento continua assim: "Os parágrafos seguintes são destinadas a servir a esse propósito (...) a singularidade do povo do Antigo Testamento não é exclusiva, mas está aberta, na visão divina, a uma extensão universal; a unicidade do povo judeu é um mero exemplo". Esta última frase é particularmente relevante para a nossa discussão, uma vez que alguns conceitos-chave como o de "povo escolhido" são muitas vezes mal compreendidos. O verdadeiro significado religioso deste termo não implica um estado de "superioridade" ou de privilégio, como seríamos levados a crer, lendo a introdução à conferência, na qual se afirma que "pensar a si mesmo como povo pertencente de forma elitista a uma única divindade determinou um sentimento de superioridade da própria religião", o que abriria as portas para as tendências absolutistas e fundamentalistas.

No entendimento do próprio povo judeu, ser "escolhidos" ou "eleitos" implica na obrigação e no dever de ser um exemplo, para toda a humanidade. Conforme é descrito de forma exemplar no documento do Vaticano, a ’unicidade’ do povo judeu implica uma missão de universalidade. No documento do Vaticano também é afirmado que "neste campo, a imprecisão e a mediocridade seriam extremamente prejudiciais" para o diálogo judaico-cristão (João Paulo II, discurso de 6 de Março de 1982). Mas, ao se tratar de ensino e educação, seriam prejudiciais principalmente para a própria identidade cristã.

Em entrevista ao jornal Avvenire, o Professor Luca Mazzinghi, presidente da ABI, explicou que o tema da conferência referia-se a "uma ambivalência subjacente, da relação entre o Deus ciumento e a liberdade humana: em que medida o "ciúme" de Deus poderia restringir a liberdade do homem. É uma ambivalência que, na verdade, está por trás de todo sistema religioso, incluindo o cristianismo (como fazemos em nossa segunda conferência)". Mazzinghi também rejeitou categoricamente a ideia de que o programa da conferência expresse atitudes antissemitas: "Ter interpretado, por parte de alguns, o tema da conferência em chave antijudaíca vai contra toda a nossa intenção, afirmo isso com toda convicção. Em nossa Associação sempre esteve ausente qualquer traço de antissemitismo, que repudiamos nos termos mais absolutos. Acrescento que muitos dos nossos membros estão pessoalmente empenhados no diálogo judaico-cristão. Pessoalmente, como cristão, sempre ensinei aos meus alunos o amor pelo povo judeu e pelas suas Escrituras". Talvez o mais necessário, hoje em dia, seja oxigenar o conhecimento da história judaico-cristã e pedir que seminaristas, estudantes e professores universitários deem uma repassada mais aprofundada nos documentos mais relevantes.

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