Adeus a Michael Novak, teólogo do capitalismo. Artigo de Alberto Melloni

Revista ihu on-line

Clarice Lispector. Uma literatura encravada na mística

Edição: 547

Leia mais

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Mais Lidos

  • A Vida Religiosa na (Pós)Pandemia: “dar testemunho da vida que clama por Ressurreição”

    LER MAIS
  • CPI da Covid complica ainda mais situação do genocida

    LER MAIS
  • Os últimos suspiros de uma ideia maldita. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


20 Fevereiro 2017

Ele foi o primeiro professor católico a lecionar em Stanford. Conservador e conselheiro teológico de Reagan, teorizou a manifestação da graça divina no individualismo.

A análise é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 18-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O nome de Michael Novak, o filósofo estadunidense falecido no dia 17 de fevereiro aos 83 anos, é muitas vezes ligado à função singular que ele se viu desempenhando durante a presidência de Reagan: a de conselheiro teológico, voz de um catolicismo conservador, que, naqueles anos, reivindicava a própria vocalidade, como se, anteriormente, a tivesse perdido.

“Escreve-se da esquerda para a direita”, recordaria ele já no título de sua autobiografia, de poucos anos atrás (Writing from Left to Right: My Journey from Liberal to Conservative, 2013): portanto, explicava Novak, a história da sua a vida também tinha ido da esquerda para a direita, de católico liberal a teólogo do capitalismo. Descrição um pouco rude, mas não inexata.

Nascido no dia 9 de setembro de 1933, filho de dois imigrantes eslovacos, Michael Novak tinha sido estudante de teologia em Roma, através do Seminário de Santa Cruz de Notre Dame, onde tinha entrado logo após a guerra: nos corredores da Piazza della Pilotta, tinha ficado fascinado pela figura de Bernard Lonergan, de quem tinha estudado o pensamento. Justamente a partir do seu seminário sobre a gratia operans, ele escreveu o seu primeiro ensaio para a revista The Downside Review, sobre St. Thomas in Motion, que mereceu também um elogio do abade Butler.

O seu caminho posterior em Harvard foi propiciado pelo encontro com aquela que se tornaria a sua esposa: mulher paciente que aceitou fazer a lua de mel no Concílio Vaticano II, onde Novak era correspondente do National Catholic Reporter e onde se encontrou, quase por acaso, tendo que escrever um livro sobre a Igreja aberta.

Assim como muitos de seus outros colegas, porém, Novak não só era um colecionador de detalhes e crônicas, mas, a seu modo, era um participante do Concílio. Não porque tivesse acesso à Basílica de São Pedro transformada em aula conciliar, mas porque o seu conhecimento da cidade, dos bispos, dos observadores lhe permitia participar – do almoço até tarde da noite – das inúmeras pequenas multidões, encontros, reuniões, que orientavam e explicavam o trabalho conciliar. E criavam vínculos importantes também no plano acadêmico: é nesse concílio “lateral” que ele se tornou amigo de um observador não católico, o presbiteriano Raymond McAfee Brown, que apreciava a brilhante combatividade de Novak, com consequências de carreira não banais.

Exatamente como Hans Küng notou no círculo de Rahner o jovem Joseph Ratzinger e o quis levar para Tübingen como professor após a cúpula conciliar, assim também McAfee Brown levou aquele jovem de 32 anos para ser o primeiro professor católico em Stanford. Ele estava em Cuernavaca, em 1968, junto com Peter Berger: e foi justamente aí que ele começou a pensar que a gratia operans de Lonergan tinha a ver com o capitalismo.

Só depois de muitos anos, já desembarcado em Long Island, é que ele expressou a sua conversão em uma conferência em Notre Dame, em 1979, onde definiu o princípio do utopismo como mal e o do capitalismo como antídoto, porque naquilo que ele evoca – a família, o trabalho, o interesse, até mesmo um saudável egoísmo – expressa-se o próprio mistério de Deus. Como recordaria ele naquela noite: “Eu me excomunguei da esquerda católica”.

Ele não ficou sem casa: em Syracuse, na Fundação Rockefeller e, depois, justamente em Notre Dame, ele se tornou o emblema de uma direita católica que não se esgotava no anticomunismo, mas tentava dar um fundamento teórico e teológico ao individualismo e ao sistema econômico capitalista, conseguindo até costurar um horizonte comum entre o Papa Wojtyla e o Partido Republicano. Um desígnio derrotado em ambas as frentes por uma crise que é a crise do capitalismo, no julgamento do papa, e é a crise daquele conservadorismo culto do qual Novak fazia parte.

O catolicismo de Steve Bannon, o principal estrategista de Trump, que encarna as mais horríveis fantasias reacionárias, não busca mais fundamentos teóricos: mas o teólogo da economia, que passou da esquerda para a direita, pôde ver que, às vezes, a direita não inicia um novo parágrafo quando a margem aconselharia a parar.

Leia mais:

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Adeus a Michael Novak, teólogo do capitalismo. Artigo de Alberto Melloni - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV