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16 Setembro 2016

Peter Berger é um dos maiores sociólogos vivos. Ele dedicou muitos estudos à relação entre secularização e religiões. Entre os seus textos, recordamos o fundamental "Um rumor de anjos" (Ed. Vozes). Em janeiro próximo, a Editrice Missionaria Italiana irá publicar I molti altari della modernità. Perché il pluralismo religioso fa bene alla fede [Os muitos altares da modernidade. Por que o pluralismo religioso faz bem para a fé], no qual Berger desenvolve os temas mencionados no artigo abaixo.

O artigo foi publicado no jornal Avvenire, 14-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O pluralismo muitas vezes é percebido como uma ameaça para a fé, por estar associado ao relativismo e a uma perda de substrato religioso. Eu tenho uma posição oposta. Parece-me que o pluralismo é positivo para a fé.

Quando eu comecei a minha carreira como sociólogo da religião, eu trabalhava, assim como todos nesse campo, dentro da teoria da chamada secularização. Nós pensamos que a modernidade significava invariavelmente declínio da religião. Levou mais de 20 anos para que eu concluísse que essa teoria não era empiricamente verificável. O mundo, hoje, é religioso como nunca foi, em certos lugares mais do que nunca (há exceções, particularmente a Europa ocidental e aquela que é chamada de intelligentsia ocidental, mas essas situações devem e podem ser explicadas).

Nós não vivíamos em uma era secular; nós vivíamos em uma era pluralista, que tem implicações importantes para a religião, mas diferentes das da era secular. O que caracteriza a situação de hoje é que o pluralismo (nem sempre protegido pela liberdade religiosa) tornou-se globalizado.

Muitos cristãos estão entusiasmados com o crescimento global do cristianismo no século passado. Mas estão inclinados a deplorar a situação do crescente pluralismo naquelas que eram sociedades cristãs uniformes. Eles gostam da possibilidade de Igrejas domésticas na China, mas são contrários à construção de mesquitas na Holanda. É uma reação errada, que se equivoca ao não reconhecer os benefícios religiosos do pluralismo.

Primeiro benefício: torna-se mais difícil dar por descontada uma tradição religiosa. São necessários atos de decisão. Nós somos animais sociais, e, assim, se cada um ao meu redor concorda sobre alguma coisa, eu terei o prazer de partilhar essa posição. O pluralismo, em vez disso, torna esse tipo de consenso muito raro. Esse estado de coisas – a perda da certeza – certamente incomoda. Mas eu acho que é uma coisa boa, se considerarmos um assentimento deliberado e refletido como parte integrante de uma fé autêntica. Eu acho que é melhor que as condições sociais nos encorajem a decidir sobre a fé, em vez de viver entre as circunstâncias que nos "dão" a fé, o que tornaria a nossa identidade religiosa semelhante à cor do nosso cabelo ou às nossas alergias, em vez de uma qualidade plenamente pessoal que nasce do nosso livre assentimento. Nós podemos ver como o pluralismo aprofunda essa confiança, porque mina as falsas garantias preparadas por um consenso social uniforme.

Segundo benefício: a liberdade é um grande dom, e o pluralismo inaugura novas áreas de liberdade. O pluralismo abre caminho para os indivíduos em relação a novas decisões, o que é um bem em si mesmo. A Declaração sobre a Liberdade Religiosa do Concílio Vaticano II, a Dignitatis humanae, define isso muito bem: a liberdade religiosa é um direito fundamental, enraizado na dignidade humana. Ela diz respeito não só ao direito dos católicos de proclamar a sua fé, mas ao de todas as pessoas de seguir a sua fé ou de não ter credo algum. A dignidade, a fé e a liberdade estão profundamente ligadas. O exercício da liberdade não é sempre fácil. A homogeneidade religiosa, certamente, torna a fé mais fácil.

Terceiro benefício: se o pluralismo vem unido à liberdade religiosa, todas as instituições religiosas se tornam, de fato, associações voluntárias. Isso muda a relação entre clero e leigos, a relação entre as Igrejas, e entre estas e o Estado. O laicato ganha poder, também dentro das Igrejas hierárquicas, e isso age sobre a vitalidade religiosa. Igrejas diversas, privadas do poder coercitivo como monopólios religiosos patrocinados pelo Estado, tornam-se concorrentes pacíficos; isso cria uma espécie de mercado religioso (embora não devamos exagerar a aplicabilidade desses conceitos derivados da economia). E o Estado, religiosamente neutro, embora ainda simbolicamente ligado a uma tradição específica, pode servir como árbitro imparcial. Isso reforça a cultura democrática e encoraja diferentes comunidades religiosas a se tornarem plenamente partícipes da vida pública.

Quarto benefício: o pluralismo influencia crentes individuais e comunidades religiosas a distinguirem entre o núcleo da fé e os elementos menos centrais. Inevitavelmente, a interação com aqueles que têm condições religiosas diferentes, especialmente onde compartilhamos um discurso secular comum, relativiza a minha fé. Eu define esse processo de "contaminação cognitiva". Ele me leva a entrar em um processo de negociação: posso chegar a não considerar como essenciais alguns dos elementos da minha fé, enquanto o núcleo permanece inegociável. O pluralismo me obriga a discernir o que está verdadeiramente no coração da minha fé, libertando-me das falsas ênfases no que é menos decisivo. Devemos apreciar o modo pelo qual o pluralismo pode nos levar àquilo que, no fim, realmente interessa mais para a nossa fé.

Leia mais:

Por uma teologia do pluralismo. A obra de Jacques Dupuis

A Imaginação Analógica: a teologia cristã e a cultura do pluralismo

Cristão e aberto ao pluralismo: a teologia de Dupuis

O pluralismo em teologia

Um novo espírito de Assis? Francisco e a teologia do pluralismo religioso

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