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15 Fevereiro 2017

“O catolicismo de Burke e Bannon é também um subproduto da guerra cultural, em si baseada em parte na rejeição do Vaticano II”, escreve Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado por Commonweal, 14-02-2017. A tradução e de Isaque Gomes Correa.

Segundo ele, “estas compreensões fundamentalmente diversas do catolicismo na América contemporânea estavam em vigor antes de Francisco. Porém este pontificado tornou a fenda mais visível, enquanto a eleição de Trump providenciou-lhe um novo elenco político, formado pela excentricidade teológica do catolicismo americano anticonciliar. Resta saber se esta cisão intraeclesial irá se curar, crescer ou se desenvolver em algo mais”.

Eis o artigo.

A kremlinologia deveria ter ido embora com o fim da Guerra Fria, mas as conexões obscuras entre o governo Trump e Vladimir Putin podem estar trazendo-a de volta à cena. A vaticanologia, por outro lado, nunca foi embora, e com as reportagens sobre as ligações entre Stephen Bannon, o Cardeal Raymond Burke e elementos conservadores em Roma, a cada dia que passa ela parece uma área mais vibrante de estudos. Vejamos como os jornais mais influentes dos EUA lidaram com o tópico Bannon e Burke nos últimos dias, com o New York Times trazendo múltiplas histórias e o Washington Post publicando uma coluna assinada por Emma-Kate Symons em que pede que o Papa Francisco ponha os “elementos reacionários tais como Burke e seus companheiros de volta em seus lugares”.

De fato, eles são “elementos reacionários” no Vaticano. Mas o problema maior pode estar aqui com a Igreja Católica nos EUA, especificamente naqueles círculos não tão pequenos do conservadorismo teológico, cultural e político extremo dentro das chancelarias dos bispos, nos seminários e nas faculdades católicas. Pode ser tentador traçarmos um paralelo com o grupo católico nacionalista Action Française, que Pio XI condenou em 1926. Mas não existe um único grupo nos EUA que se tornou tão significativo. Mesmo assim, o “catolicismo tradicionalista radical” incorporado por Bannon e Burke é representativo de algo maior do que aquele em que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, grupo cismático, cresceu na década de 1970, ele próprio descendente do catolicismo francês reacionário, anti-Vaticano II, com raízes profundas na direita política francesa neofascista.

Desde que vim para os EUA quase nove anos atrás, tenho me surpreendido não só com o patriotismo dos católicos americanos, mas também pelo nacionalismo diferente que católicos de outros lugares no mundo demonstram – uma combinação ao mesmo tempo complicada e delicada. O que dizer, por exemplo, de católicos trumpianos (como Mark Bauerlein, editor de First Things, por exemplo), que parece mais próximo dos cristãos ortodoxos russos putinistas do que da cultura política não só do Papa Francisco, mas do católico médio no mundo? Ou o que dizer de Pat Buchanan, que tem elogiado Putin como o real “defensor” do cristianismo hoje? Verdade seja dita, há nacionalistas católicos franceses, mas a “laicité”, o espírito secular da República Francesa, permanece uma salvaguarda; os Estados Unidos não possuem um equivalente. A separação da Igreja e o Estado nos EUA é constitucionalmente diferente dessa separação na França. G. K. Chesterton brincou dizendo que a América “é uma nação com a alma de uma igreja”.

O problema que o americanismo católico tradicionalista-neoconservador tem com o Papa Francisco não é a sua teologia sistemática ou espiritual, mas sua visão da Igreja no mundo e sua mensagem sociopolítica – em outras palavras, a sua eclesiologia política. O que eles parecem querer é o tipo de religião cruzada que, incorretamente, creem ter sido lhes dada pelos antecessores de Francisco, algo que os tradicionalistas radicais viam (de novo, incorretamente) como muito mais americanista do que Francisco. Eles não estão errados em que Francisco deixou explícita, mais do que os seus antecessores, a noção de que a Igreja não pode se reduzir simplesmente ao único pilar da civilização euro-norte-americana, judaico-cristã. No discurso aos jesuítas da Civiltà Cattolica em 9 fevereiro para o texto publicado no sítio, ele reiterou: “Vocês [da Civiltà Cattolica] mostram as descobertas recentes, dão nomes a lugares, fazem conhecido o significado de ‘civilização católica’, mas fazem também conhecido aos católicos que Deus está a trabalho mesmo do lado de fora dos confins da Igreja, em toda verdadeira ‘civilização’, com o sopro do Espírito”.

Papa algum está acima das críticas, incluindo obviamente Francisco. Mas a crítica “rad trad” [tradicionalista radical] neoconservadora católica americana é realmente excepcional. Em nenhum outro lugar do mundo a oposição a Francisco é tão militante e extremada. Pode não haver uma coordenação estratégica entre Burke e Bannon, mas as tentativas de normalizar o que está acontecendo como “o choque costumeiro de ideologias e cosmovisões concorrentes” não soam muito convincentes.

Até agora, os sucessos tradicionalistas radicais têm sido mais políticos do que teológicos. O que não se poderia imaginar em 2013 ou durante o Sínodo dos Bispos de 2014 e 2015 era ter a Casa Branca de Donald Trump do seu lado. Agora, nem todos os opositores de Francisco alinham-se com Trump. Mas não há dúvida de que um grupo bem-organizado vê, na presidência de Trump, uma oportunidade para de retaliação a um papa que claramente vêm desafiando o complexo militar-industrial-teológico que consideram essencial na defesa do Ocidente judaico-cristão contra o Islã global, ou qualquer coisa que desafie a supremacia americana. Trata-se de um extremismo apocalíptico que deveria dar uma pausa à oposição católica moderada, neoconservadora a Francisco.

Ainda sim, a notícia do alinhamento aparente do governo com elementos extremos da oposição a este papado poderia, de fato, fortalecer o comando do papa frente à Igreja. A revelação do contato entre Bannon e Burke (e Burke e o xenófobo italiano e líder da Liga do Norte, Matteo Salvini, que gosta de dizer: “O meu papa ainda é Bento XVI”) mostrou, creio eu, o extremismo perigoso do seu representante mais destacado, bem além de sua conhecida paixão por luvas coloridas, pela “cappa magna” e todo o resto: Burke.

Se Burke ficar com a “opção Lefebvre” (cisma formal já), isso seria feito sob a bandeira do catolicismo “trumpiano” – islamofobia e fanatismo – e não pela defesa do ensino tradicional sobre o matrimônio, ou sob as prerrogativas da Soberana Ordem Militar de Malta. Até o Sínodo de 2014-2015 o Cardeal Burke ainda podia dizer representar uma oposição católica respeitável, “tradicional” a Francisco. Hoje, não mais. O projeto de Bannon e seus companheiros ideólogos católicos de forma alguma é tradicional; não é nem mesmo tradicionalista. O Monsenhor Lefèbvre estava chocado com o Vaticano II, que ele via como o equivalente católico da Revolução Francesa, e tentou restaurar uma cultura católica contrarrevolucionária, antimodernista do século XIX. Mas inexiste um “passado católico” nas imaginações de Bannon e do Dignitatis Humanae Institute, somente uma supremacia americana – que nunca fez parte do tradicionalismo católico.

A influência de Burke, porém, continua sendo um fator poderoso no catolicismo americano. Por um lado, muitos dos bispos deste país nomeados por João Paulo II e Bento XVI saíram da Congregação dos Bispos, com a qual ele teve, durante anos, um envolvimento próximo (Francisco o tirou da Congregação em dezembro de 2013). Por outro lado, a sua oposição ideológica sobre o significado do Vaticano II possui muitos adeptos. Ela brota diretamente da posição anunciada por Richard John Neuhaus num livro de 1987 intitulado The Catholic Moment: “A competição sobre as interpretações do Vaticano II constitui uma frente de batalha fundamental nas guerras culturais continuadas de nossa sociedade”. (Neuhaus voltou a este tema várias vezes, inclusive em artigo de 2003 publicado em First Things). Portanto o catolicismo de Burke e Bannon é também um subproduto da guerra cultural, em si baseada em parte na rejeição do Vaticano II.

Estas compreensões fundamentalmente diversas do catolicismo na América contemporânea estavam em vigor antes de Francisco. Porém este pontificado tornou a fenda mais visível, enquanto a eleição de Trump providenciou-lhe um novo elenco político, formado pela excentricidade teológica do catolicismo americano anticonciliar. Resta saber se esta cisão intraeclesial irá se curar, crescer ou se desenvolver em algo mais.

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