Assessor de Trump, Bannon cita pensador italiano que inspirou fascistas

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14 Fevereiro 2017

Os que tentam adivinhar as origens da visão de mundo sombria e, por vezes, apocalíptica de Stephe K. Bannon trazem em geral um discurso que ele, o guru ideológico do presidente Trump, proferiu em 2014 num congresso no Vaticano, onde explanou sobre o Islã, o populismo e o capitalismo.

A reportagem é de Jason Horowitz, publicada por The New York Times February 10-02-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Mas apesar de toda essa análise do que disse Bannon, uma referência de passagem feita por ele a um filósofo esotérico italiano recebeu pouca atenção, exceto talvez por acadêmicos e seguidores do pensador associado profundamente ao nazismo, Julius Evola.

“O fato de Bannon conhecer Evola já é significativo”, diz Mark Sedgwick, destacado pesquisador do tradicionalismo na Aarhus University, da Dinamarca.

Falecido em 1974, Evola escreveu sobre todos os assuntos, desde as religiões orientais à metafísica do sexo, passando pela alquimia. Porém é mais conhecido como um destacado proponente do tradicionalismo, visão de mundo popular em círculos de extrema-direita e em círculos religiosos alternativos que crê que o progresso e a igualdade são ilusões perniciosas.

Evola se tornou uma pessoa querida pelos fascistas italianos, e os terroristas pós-fascistas da Itália nas décadas de 1960 e 1970 olhavam para ele como um padrinho espiritual e intelectual.

Chamavam-se de “Os filhos do Sol” em alusão à visão que Evola tinha de uma nova ordem burguesa denominada por ele de a Civilização Solar. Hoje, o partido neonazista grego Aurora Dourada inclui as obras deste autor em sua lista de leituras sugeridas, e o líder do Jobbik, partido nacionalista húngaro, admira Evola, tendo escrito uma introdução às suas obras.

E o que é mais importante para o atual governo americano: Evola também chegou aos EUA com os líderes do movimento “alt-right” (“alternative right”, ou direita alternativa), que Bannon alimentou na qualidade de presidente do Breitbart News e, em seguida, ajudou a emparelhar para o atual presidente, o Sr. Trump.

Julius Evola é uma das pessoas mais fascinantes do século XX, afirmou Richard Spencer, líder nacionalista branco, figura importante no movimento alt-right, que tem atraído supremacistas brancos, racistas e membros contrários aos imigrantes.

Nos dias após a eleição, Spencer realizou uma conferência do movimento alt-right em Washington com gritos de “Hail Trump!” (Viva Trump). Mas ele também evocou a ideia de Evola de uma espiritualidade pré-histórica e pré-cristã – remetendo-se ao despertar dos brancos, a quem o autor italiano chamava de os Filhos do Sol.

Spencer disse que “possuía um significado tremendo” o fato de Bannon conhecer Evola e outros pensadores tradicionalistas.

“Mesmo se ele não estiver completamente embebido por estes autores e mesmo se não ficou transformado por eles, no mínimo Bannon se mostra aberto a eles”, disse. “Pelo menos, reconhece que eles estão aí. Eis uma diferença gritante do movimento conservador americano que era ou ignorante dessas figuras, ou tentava suprimi-las”.

Bannon, que não respondeu a um pedido para comentar sobre o presente artigo, é um ávido leitor. Tem falado com vigor sobre tudo, desde “A arte da guerra”, de Sun Tzu, até “The Fourth Turning”, de William Strauss e Neil Howe, que vê a história como ciclos de cataclismo e uma mudança de ordem obliterante. O seu conhecimento e a sua referência e Evola em si apenas refletem a leitura desta obra. Mas alguns da alt-right consideram Bannon como uma porta através da qual as ideias de Evola, de uma sociedade hierárquica governada por uma casta espiritualmente superior, podem entrar em um período de crise.

“Os evolistas veem o seu barco se aproximando”, diz o professor Richard Drake, da Universidade de Montana, quem escreveu sobre Evola no livro “The Revolutionary Mystique and Terrorism in Contemporary Italy” (O místico revolucionário e o terrorismo na Itália contemporânea, sem tradução ao português).

“Esta é a primeira vez que um assessor do presidente americano conhece Evola, ou talvez tenha uma formação tradicionalista”, afirma Gianfranco De Turris, biógrafo de Evola e defensor de suas ideias de Roma, cidadão italiano que administra de seu apartamento a Fundação Evola.

“Se Bannon tiver essas ideias, teremos de ver como ele vai influenciar a política de Trump”, disse ele.

Um artigo de março, intitulado “An Establishment Conservative’s Guide to the Alt-Right”, publicado no Breitbart Newspara (sítio eletrônico de notícias administrado por Bannon), incluiu Evola como um dos grandes pensadores em cujos escritos podemos encontrar “as origens da direita alternativa (alt-right)”.

O texto foi assinado também por Milo Yiannopoulos, provocador de direita amplamente popular entre os conservadores nos campi universitários. Recentemente Trump defendeu Yiannopoulos com um símbolo da liberdade expressão depois que manifestantes protestaram com violência contra uma palestra dele que seria dada na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

O artigo celebra os jovens que dão ao movimento alt-right toda a sua energia e que, motivados por um senso de humor comum e questionável, fazem uso de memes semitas e racialmente carregados “de um modo tipicamente juvenil, mas inegavelmente histérico”.

“É difícil imaginar estes jovens a ler Evola”, continua o artigo. “Eles podem estar inclinados a simpatizar com as causas, mas principalmente porque simpatizar com elas irrita as pessoas certas”.

Evola, quem tem mais do que irritado pessoas a praticamente um século, parece estar tendo o seu momento de glória.

“Quando comecei a estudar Evola, tive de me virar com o idioma italiano”, diz Sedgwick, que mantém registros dos movimentos e pensamentos tradicionalistas em seu blog, “Tradicionalists”. “Agora a sua obra está disponível em inglês, alemão, russo, sérvio, grego e húngaro. Primeiro vi Evola estourar, e depois percebi o número de pessoas interessadas naquelas ideias que estavam em alta”.

Nascido em 1898, Evola gostava de se chamar de “barão” e, mais tarde, apresentou-se com um monóculo no olho esquerdo.

Aluno brilhante e artista talentoso, Evola voltou para casa depois de lutar na Primeira Guerra. Ele se tornou um destacado expoente na Itália do dadaísmo, que, como Evola, negava as instituições católicas e burguesas.

As primeiras investidas artísticas de Evola eram expressão do seu amor pelo filósofo Friedrich Nietzsche, para a revista sobre o tema tendo desenvolvido uma visão de mundo com certa animosidade primordial para com a decadência da modernidade.

Influenciado por obras místicas e pelo ocultismo, Evola começou a elaborar uma ideia sobre a capacidade da pessoa de transcender a própria realidade e “ser incondicionalmente o que quiser”.

Sob a influência de René Guénon, metafísico francês e convertido ao Islã, em 1934 publicou a sua obra mais influente – “Revolta contra o mundo moderno” (Irget, 2010) –, que caracteriza o materialismo como uma influência corrosiva aos valores antigos.

Evola considera o humanismo, a renascença, a Reforma Protestante e a Revolução Francesa como desastres históricos que afastaram o homem da verdade perene transcendental.

Mudar o sistema, sustenta Evola no livro, “não era uma questão de protestar e polemizar, mas de explodir tudo”.

A ordem ideal de Evola, escreve o professor Drake, baseava-se na “hierarquia, na casta, na monarquia, na raça, no mito, na religião e no ritual”.

Isso fez Benito Mussolini virar um fã.

O ditador já admirava os primeiros escritos de Evola sobre raças, obras que influenciaram as Leis Raciais de 1938 que restringiam os direitos dos judeus na Itália.

Mussolini gostou tanto do livro de 1941 de Evola, “Síntese sobre a doutrina da raça”, que advogava uma forma de racismo espiritual, e não meramente biológico, a ponto de o convidar para uma reunião em setembro do mesmo ano.

Evola acabou rompendo com Mussolini e com os fascistas italianos por considerá-los excessivamente mansos e corrompidos pelo compromisso. Em vez disso, preferiu os oficiais nazistas da SS, vendo nesses algo mais próximo de um ideal mítico. Eles igualmente compartilhavam do seu antissemitismo.

No discurso ao congresso citado acima ocorrido no Vaticano, Bannon deu a entender que o movimento fascista havia surgido das ideias de Evola.

Quando Bannon expôs as motivações intelectuais do presidente russo, Vladimir V. Putin, ele mencionou “Julius Evola e escritores diferentes do começo do século XX que são, realmente, os apoiadores do que se chama de movimento tradicionalista, que de fato acabou ‘metastizado’ no fascismo italiano”.

A realidade, dizem os historiadores, é que Evola buscou “se infiltrar e influenciar” os fascistas, no dizer de Sedgwick, como um veículo poderoso para difundir suas ideias.

Em seu discurso, Bannon sugeriu que, embora representasse uma “cleptocracia”, o presidente russo compreendia o perigo existencial posto por um “novo califado potencial” e a importância de se usar o nacionalismo para se pôr em defesa das instituições tradicionais.

“Nós, o Ocidente judaico-cristão”, acrescentou Bannon, “realmente temos de olhar para o que ele está falando quando se trata do movimento tradicionalista – em particular no sentido em que apoia os fundamentos do nacionalismo”.

Ainda segundo Bannon, o pensador mais influente de Putin é Aleksandr Dugin, ultratradicionalista russo e escritor antiprogressista às vezes chamado de “o Rasputin de Putin”.

Intelectual descendente de Evola, Dugin propunha um “fascismo fascista, genuíno, verdadeiro, radicalmente revolucionário e consistente” e advogava uma teoria baseada na geografia do “eurasianismo” – que forneceu um quadro filosófico para o expansionismo de Putin e sua intromissão na política da Europa ocidental.

Dugin vê os tradicionalistas europeus como pessoas que necessitam da Rússia, e de Putin, para se defender do ataque da democracia progressista ocidental, da liberdade individual e do materialismo – todos “bêtes noires” evolianas.

Esse apelo aos valores tradicionais de eleitores populistas e contra as elites intocáveis, a “União Pan-Europeia” e o “governo centralizado dos EUA”, para usar as palavras de Bannon, não se perdeu no guru ideológico de Trump.

“Muitas das pessoas que são tradicionalistas”, disse ele em seu discurso no evento ocorrido no Vaticano, “se sentem atraídas por esse apelo”.

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