A obsessão papal em ser próximo e concreto

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25 Janeiro 2017

A entrevista do Papa Francisco concedida ao El País foi sobre várias coisas, mas principalmente sobre uma: a necessidade de a Igreja estar próxima do povo e ser concreta. Francisco está convencido de que a maior ameaça à era contemporânea é o gnosticismo, que se mostra na Igreja como um fundamentalismo e um legalismo.

O comentário é de Austen Ivereigh, publicado por Crux, 23-01-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A entrevista do Papa Francisco ao jornal espanhol El País publicada este fim de semana foi uma das mais longas e, ao mesmo tempo, cheia de conteúdo, que cobriu um grande número de temas. Mas há um que percorre toda a entrevista, de modo quase obsessivo.

Este tema não é, para ele, uma ideia nova. Várias vezes Francisco já insistiu, tanto como papa quanto como arcebispo, que a Igreja deve ser próxima do povo e da realidade concreta, e não se refugiar em ideologias, estruturas burocráticas e no mundanismo.

Mas, na entrevista, ele ficou voltando a esse ponto de uma maneira tão insistente, e com um tom tão apocalíptico, que se pode concluir que o pontífice percebe haver uma batalha se desenrolando no coração da Igreja.

Por exemplo:

• Perguntado sobre se a hierarquia estava “dormindo”, o papa disse que o que mais temia nos agentes pastorais da Igreja (sejam leigos ou religiosos, sejam padres ou bispos) era que eles “se anestesiam com o mundanismo”. Os primeiros cristãos estavam em permanente movimento e em contato com as pessoas, enquanto “os anestesiados não têm contato com as pessoas. Defendem-se da realidade”. Neste caso, a anestesia, explica ele, é um “mundanismo espiritual”, que transforma os pastores em funcionários públicos e que produz o clericalismo.

• Perguntado sobre as suas maiores preocupações com relação à Igreja, Francisco responde: “Eu diria que a Igreja não deixe de estar próxima das pessoas. (…) Uma Igreja que não é próxima não é Igreja. (…) Mas o que identifica a Igreja é a proximidade”. Proximidade, segundo ele, significa “tocar no próximo a carne de Cristo”.

• “O cristianismo, ou é concreto ou não é cristianismo”, diz ele depois de falar sobre esperar e ver o que acontece com Trump. A primeira heresia, continua o papa, foi o gnosticismo, que representava “a religiosidade spray (…), do não concreto”. E do que é concreto, complementa o papa, “tiramos as consequências”, advertindo: “Nós perdemos muito o senso do concreto”.

• Perguntado sobre a parábola do Filho Pródigo, Francisco identifica o ressentimento do filho mais velho como sendo parecido com aqueles que “têm posturas que os protegem do contato” e que “se sentirão incômodos com qualquer mudança, com qualquer proposta do Evangelho”.

• Referindo-se ao risco de as pessoas desaparecerem nas “cavernas ideológicas”, Francisco disse que elas sempre se sentem mais confortáveis com um sistema ideológico “porque é abstrato”. No “restaurante da vida, nos oferecem pratos de ideologia. Sempre”, diz, acrescentando que “estes são os refúgios, que o impedem de tocar a realidade”.

• Sobre a comunicação, Francisco observa que quando ela “perde o carnal, o humano, e se torna líquida, é perigosa”. A comunicação digital, com todas as suas possibilidades, é arriscada se não abre caminho para “uma comunicação humana, normal, de tocar”. A parte não tangível da comunicação é o que é concreto, diz ele, acrescentando: “Não somos anjos, somos pessoas concretas”.

• Por fim, quando perguntado sobre os puxões de orelha dados aos burocratas vaticanos, padres e religiosos, Francisco responde: “No que mais insisto é na vizinhança, na proximidade”. Observando como sempre há grupos que são “um pouco mais fundamentalistas”, o papa diz que eles são “são gente boa, que prefere viver assim a sua religião”, mas “eu prego o que sinto que o Senhor me pede para pregar”.

Na cabeça do papa, a maior doença e tentação que a Igreja enfrenta é um desejo de fugir das realidades humanas concretas para dentro do conforto estático da ideologia e das estruturas que mantêm as pessoas distantes. Estas tentações produzem o clericalismo, o fundamentalismo, uma distância entorpecente da realidade e uma tendência a se escandalizar pelo Evangelho.

O caminho da santidade ou da resistência para estas tentações é permanecer no concreto, no real, no carnal, no humano.

Nenhuma dessas ideias é exatamente novidade; o papa vem expressando temas semelhantes desde pelo menos o começo dos anos 90. A sua insistência neles, porém, é notória. É como se, na leitura diária de Francisco dos sinais dos tempos, ele visse uma luta cósmica entre o Cristo da encarnação e o surgimento de um novo gnosticismo contemporâneo: “Nós perdemos muito o senso do concreto”.

É a tentação da nossa era tecnológica, tecnocrata, capaz, como ninguém mais, de criar cápsulas autocontidas de autorreferencialidade. Os novos eufemismos para o erro – “pós-verdade”, “fatos alternativos” – mostram o quão pouco da realidade objetiva há para tantas pessoas.

A ilusão gnóstica do ocidente rico é que a tecnologia fez possível a construção de quase tudo sem uma referência às realidades externas: quem, quando, ou mesmo se as pessoas deveriam nascer e morrer; qual deve ser o nosso gênero; o que a nossa vida significa.

Na política ocidental, o gnosticismo é bipartidário: ele é tão visível nas abstrações bonitinhas dos tecnocratas progressistas quanto nas asserções desafiadoras da realidade dos populistas nascentes.

Há tempos Francisco percebe, nesta emergência do gnosticismo, uma característica da nossa era – ela ancora a crítica dele ao paradigma tecnocrata em sua ecoencíclica Laudato Si’. Mas ele a enxerga também, mais perto de casa, bem no coração da Igreja, entre os que se refugiam da realidade de carne e osso, preferindo permanecer no reino das ideias, dos princípios, das teorias e leis.

É uma atitude que não parte da complexidade intrínseca da vida das pessoas, mas dos sedutores da abstração.

O gnosticismo católico, sugere Francisco, funda-se no clericalismo, no legalismo e no fundamentalismo. Ele é especialmente forte entre os guardiões do conhecimento, os doutores da lei, que são mais inclinados a confiar no poder do mundo – conceitos, doutrinas, normas – do que na pobreza carnal de Cristo tornada visível naqueles que sofrem.

Quando o gnóstico católico fala, é difícil captar a realidade carnal de Deus – Jesus Cristo, visível nos vulneráveis e sofredores – porque Ele foi enterrado nas camadas da ‘gnōsis’ ou conhecimento especial. A verdade não é uma pessoa, uma experiência, um ato concreto de misericórdia, mas algo remoto e nebuloso, que só pode ser apreendido via conhecimento especializado, via iluminação.

É difícil não pensar nas reações furiosas ao documento Amoris Laetitia e na insistência contra a uniformidade, a doutrina inflexível e a universalidade objetiva imutável da lei.

A insistência da exortação, segundo a qual casos individuais, complexos – realidades humanas concretas – podem ser oportunidades para que a graça divina seja discernida e reconhecida, é constantemente descartada como um mero subjetivismo, súplica especial por pecados daqueles que desejam evitar o que lhes é pedido.

Na entrevista do El País, não se fez nenhuma pergunta sobre Amoris Laetitia e nenhuma referência às “dubia” dos quatro cardeais. Mas talvez Francisco esteve comentando sobre ambas o tempo todo.

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