A Igreja escolhe a não-violência porque a de Francisco é uma verdadeira guinada (pouco percebida)

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07 Janeiro 2017

“A paz se constrói dizendo ‘não’ – com os fatos – ao ódio e à violência e ‘sim’ à fraternidade e à reconciliação” declarou em 1º de janeiro de 2017 o Papa no Angelus, por ocasião do “Dia mundial da Paz” pelo qual havia recém celebrado uma missa solene em São Pedro. E mais: “Na Mensagem deste ano em virtude do Dia de hoje, propus assumir a não-violência como estilo por uma política de paz”.

A reportagem é de Luigi Accattoli, publicado na Corriere della Sera Digital Edition, 01-01-07. Tradução de Luisa Rabolini.

Falando da janela para cinquenta mil pessoas reunidas na praça, Francisco associou essa sua mensagem pela não-violência ao turbilhão assassino que sacode o planeta: “A violência foi também perpetrada nesta noite de felicitações e esperança”, falou com referência ao atentado de Istambul, que causou pelo menos 39 mortes; e fazendo um apelo mais geral: “a chaga do terrorismo e esta mancha de sangue que envolve o mundo com uma sombra de medo e desânimo,”.

A guinada da Igreja

É importante aprofundar a “Mensagem do Papa pelo Dia da Paz” que foi publicada em 12 de dezembro com o título “A não-violência: estilo de uma política pela paz”, porque constitui uma guinada na postura da Igreja católica no controverso tema da não-violência. Com esta, Francisco colocou um fim às hesitações dos seus predecessores e posicionou-se sem temores e distanciamentos ao lado dos não-violentos. “Em 2017 – escreve Francisco com todas as letras naquele documento - comprometamo-nos, através da oração e da ação, a tornar-nos pessoas que baniram dos seus corações, palavras e gestos a violência, e a construir comunidades não-violentas, que cuidem da casa comum”. Sobre a não-violência já haviam reiteradamente tratado João Paulo II e Benedito XVI: contudo, nunca antes de hoje, um Papa havia convidado a Igreja e toda a humanidade a fazer da “não-violência ativa e criativa um estilo de vida”, ou seja, uma escolha programática. Francisco apresenta tal escolha como necessária neste “nosso mundo dilacerado”, atravessado por uma “terceira guerra mundial aos pedaços”, por importantes fluxos migratórios e pela crise ambiental.

O engajamento com a caridade

“Desejo deter-me na não-violência como estilo de uma política de paz, e peço a Deus que nos ajude, a todos nós, a inspirar na não-violência as profundezas dos nossos sentimentos e valores pessoais” é a afirmação central da mensagem, que propõe – com ousado engajamento – a caridade e a não-violência como luzes para iluminar o futuro da humanidade: “Sejam a caridade e a não-violência a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas relações interpessoais, sociais e internacionais”. “Quando sabem resistir à tentação da vingança – escreve ainda Francisco - as vítimas da violência podem ser os protagonistas mais credíveis de processos não-violentos de construção da paz. Desde o nível local e diário até ao nível da ordem mundial, possa a não-violência tornar-se o estilo característico das nossas decisões, dos nossos relacionamentos, das nossas ações, da política em todas as suas formas”.

Um ideal plenamente católico

O Papa ressalta o quanto seja utópico confiar que o recurso à violência possa ajudar a resolver os problemas planetários que hoje a humanidade tem que enfrentar: “Responder à violência com a violência leva, na melhor das hipóteses, a migrações forçadas e a atrozes sofrimentos, porque grandes quantidades de recursos são destinadas a fins militares e subtraídas às exigências do dia-a-dia dos jovens, das famílias em dificuldade, dos idosos, dos doentes, da grande maioria dos habitantes da terra. No pior dos casos, pode levar à morte física e espiritual de muitos, se não mesmo de todos”. Em ambientes cristãos frequentemente a não-violência foi entendida como um ideal laico e mesmo vista com desconfiança, e eis que o Papa Bergoglio rebate esta ideia como já havia acontecido na “Lautado si’” (2015), quando havia argumentado contra a crença difundida de que a preocupação ecológica deva ser necessariamente distinta ou concorrente em relação ao amor cristão pela Criação. A contestação de tal ideia é desenvolvida por Papa Bergoglio relembrando o ensinamento de Jesus sobre o amor pelos inimigos e pelo oferecimento da outra face, o exemplo de Francisco de Assis, o discurso proferido por Madre Teresa quando recebeu o Premio Nobel da Paz em 1979. É lindo o parágrafo 3 da mensagem que faz referência a Cristo e ao ensinamento dos Papas e conclui solenemente: “Hoje, ser verdadeiro discípulo de Jesus significa aderir também à sua proposta de não-violência”.

Os “apóstolos” não cristãos

Mas Francisco recorre também aos apóstolos não católicos e não cristãos da não-violência e relembra “os sucessos alcançados por Mahatma Gandhi e Khan Abdul Ghaffar Khan (muçulmano paquistanês que defendeu a escolha não violenta de Gandhi) na liberação da Índia, e por Martin Luther King contra a discriminação racial”. Entre as mulheres que se tornam “líderes da não-violência”, Francisco lembra “Leymah Gbowee e milhares de liberianas, que organizaram encontros de oração e protesto não-violento (Pray-ins) conseguindo negociações de alto nível para a conclusão da segunda guerra civil na Libéria”. O Papa, por fim, referiu-se à transição não-violenta que se realizou na Europa oriental por ocasião da queda dos regimes comunistas, à qual “as comunidades cristãs deram a sua contribuição através da oração insistente e a ação corajosa”, ajudadas também pela “influência especial” exercida sobre aquela transição por João Paulo II com o seu magistério de paz.

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