Interpretando a dissidência contra o Papa Francisco

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19 Outubro 2016

Existe uma "moderna" patologia eclesial que pode ser diagnosticada como "síndrome do irmão mais velho", aquele da única parábola do Pai misericordioso de Lucas 15, que não consegue se alegrar com o tipo de acolhida que o Pai manifesta ao irmão errante e, de certo modo, também calculista. Jesus, como o Pai, vai em busca de todos: a ovelha se perde fora, o dinheiro se perde dentro, assim como seu irmão mais novo se perde fora, e o maior está perdido dentro.

A análise é de Giovanni Chifari, professor de teologia bíblica no Instituto Superior de Ciências Religiosas (ISSR) de Foggia, Itália, em artigo publicado no sítio Vatican Insider, 17-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Há um universo da web, da mídia impressa e de certas zonas do variado mundo eclesial muito crítico sobre tudo o que diz respeito ao Papa Francisco. Palavras, obras, escolhas pastorais e "geopolíticas", tudo submetido a um escrutínio rigoroso, em busca de visões, potenciais ideologias ou subserviências variadas, que, nos intérpretes desse mau humor, oscilam de um obstinado modernismo até o conspiracionismo.

O belo texto da investigação publicada nesse domingo, 16 de outubro, pelo jornal La Stampa retrata essa intolerância que circula particularmente via web, tentando sistematizar as linhas mais recorrentes e os fatores de maior recorrência.

Aqui, tentamos oferecer algumas breves chaves hermenêuticas, em um marco de tipo teológico eclesial. Acima de tudo, é bom registrar que, evangelicamente falando, a dissidência em torno do Papa Francisco é um bom sinal. Valem para todos as palavras de Jesus, em Lucas: "Ai de vocês, se todos os elogiam, porque era assim que os antepassados deles tratavam os falsos profetas" (Lc 6, 26). Uma página que os homens de Deus entendem a sério e tratam com cuidado. A ela recorreu Dossetti quando retirou o prêmio do Archiginnasio d’Oro que a cidade de Bolonha lhe conferiu em 1986. O bem-aventurado padre Pino Puglisi também evocou muitas vezes essa passagem evangélica, que aqui reportamos a partir da sua "viva voz", tomando-a da coleção feita pelo padre Giuseppe Bellia para a editora Città Nuova:

"O justo certamente encontrará obstáculos. O próprio Lucas diz: ‘Ai de vocês, quando todos os homens falarem bem de vocês. Do mesmo modo, de fato, agiram os seus pais com os falsos profetas’ (Lc 6, 26): isso significa que o nosso agir não inquietou ninguém, enquanto as palavras de Cristo são perturbadoras, inquietantes, a ponto de colocar dentro de nós uma aflição que, depois, se transforma em sofrimento que leva à alegria e à conversão" (Il coraggio della speranza. 100 pagine di don Puglisi, p. 67).

Em suma, os obstáculos e as dissidências são positivos, especialmente quando surgem de uma "contemporaneidade" com o Evangelho, nas palavras de Von Balthasar. Isto é, trata-se de dizer novamente o Evangelho às pessoas do nosso tempo, como Jesus teria feito. E, portanto, levar em conta que se trata de "palavras perturbadoras" que geram inquietação e uma certa aflição, revelando aqueles caminhos ainda incompletos de corações que não se deixaram alcançar pelo amor e pelo perdão de Deus.

Um fator evidente naquela "moderna" patologia eclesial que podemos diagnosticar como "síndrome do irmão mais velho", aquele da única parábola do Pai misericordioso de Lucas 15, que não consegue se alegrar com o tipo de acolhida que o Pai manifesta ao irmão errante e, de certo modo, também calculista. Jesus, como o Pai, vai em busca de todos: a ovelha se perde fora, o dinheiro se perde dentro, assim como seu irmão mais novo se perde fora, e o maior está perdido dentro.

Assim, hoje, são muitos os que veem com um certo medo e, talvez, até mesmo com ciúmes a possibilidade de viver o Evangelho na sua totalidade e, portanto, de se abrir aos irmãos sofredores e feridos de várias formas. No retorno da Geórgia e do Azerbaijão, o Papa Francisco, no avião, querendo oferecer um modelo de opção moral pelos últimos disse: "O que Jesus faria?", sugerindo, depois, alguns critérios, os mesmos presentes na Amoris laetitia: acolher, acompanhar, discernir (portanto, também estudar), integrar.

Outro mérito da panorâmica oferecida pela investigação é o de contar o feedback dos sujeitos narrados no universo web. Recebendo o método sugerido, é possível identificar mais dados. Se levarmos em consideração comentários e respostas diversos dos leitores aos abaixo-assinados, leituras e reconstruções oferecidas e sugeridas pelos jornalistas, teólogos e religiosos entrevistados, será possível observar que a reação mais recorrente das pessoas é dizer: "Bravo!"; ou "Obrigado"; ou ainda comentários que culpam a situação em que a Igreja teria caído, a perda de uma fé católica compartilhada e tudo o mais; todos fatores que retratam aqueles que lhes forneceram tal consciência ou iluminada compreensão dos fatos como um intérprete de autoridade da verdade católica, como um ponto de referência para se olhar, como um baluarte em um mar tempestuoso. Em suma, os gurus de uma "paróquia virtual".

No entanto, tal resultado exige uma reflexão sobre o tipo de serviço de mediação que é oferecido e sobre a responsabilidade de poder guiar e orientar outras pessoas para um certo tipo de escolhas. Portanto, não se trata apenas do direito inalienável à informação ou da expressão de uma opinião pessoal, mas sim daquele "a mais" que pode surgir, até mesmo involuntariamente, de um modo ou de outro, quando se influi no caminho de fé das pessoas e na própria comunhão eclesial.

Portanto, deveríamos poder nos perguntar que frutos produz tal abordagem que remete fortemente ao tema da verdade. O Apóstolo, em Gl 5,21ss, oferece um exame sobre os frutos do Espírito e sobre os do maligno que cada um poderá verificar por conta própria, de acordo com a consciência.

Eu gostaria de fazer a última referência sobre os jovens e sobre os idosos. As novas gerações "veem" com simpatia o Papa Francisco, o papa fora do protocolo, de uma Igreja pobre para os pobres. E muitos deles estão se aproximando da fé. Sobre os idosos, tais também na fé, bastará citar o seu "fato" pela autenticidade e pela veracidade. O Bento XVI de Friburgo (25 de setembro de 2011) não é diferente do Francisco de hoje.

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