''Uma Igreja separada do mundo é uma Igreja que se adapta ao mundo''

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02 Julho 2012

O discurso do Papa Bento XVI à comunidade católica de Friburgo, Breisgau, em sua última viagem à Alemanha, gerou muita discussão pelo uso de uma palavra, Entweltlichung der Kirche, desmundanização da Igreja. Muitas intervenções surgiram, reunidas em um livro publicado pela editora Herder na coleção TheologieKontrovers, justamente com o título Entweltlichung der Kirche? (Ed. Herder, 2012).

Entre as várias intervenções, destacamos o comentário do teólogo dominicano alemão Tiemo Rainer Peters, professor emérito da Faculdade de Teologia da Universidade de Münster e representante também da teologia política na Alemanha. Ele é autor, em colaboração com Johann Baptist Metz, do breve livro Passione per Dio. Vivere da religiosi oggi (Queriniana, coleção Meditazioni 99).

Sobre o assunto, podem ser feitas algumas observações:

1. O papa, no seu famoso discurso de Friburgo recomenda uma "separação do mundo por parte da Igreja", evidentemente no sentido de uma "desmundanização" da Igreja. Para usar a expressão de Kasper, em Chiesa catolica, a Igreja deve sempre retornar à sua "essência", que certamente deve ser vivida na "realidade" do mundo. Essa é uma tarefa perene da Igreja, a qual discurso do papa faz referência.

2. A "separação do mundo por parte da Igreja" não pode ser interpretada, como sempre advertiu a teologia política, como uma privatização da fé sem referência ao mundo, no sentido de que, na encarnação, o Filho assumiu o mundo, e por isso a Igreja se torna instrumento de redenção. Uma Igreja separada do mundo, no sentido de viver na privatização da fé cristã, torna-se uma Igreja que se adapta ao mundo, que pede que a Igreja não interfira no mundo.

3. Uma Igreja que pratica a "separação do mundo" é uma Igreja que, na recuperação da sua essência, se expõe ao mundo e pratica um múltipla crítica com relação à sociedade secular.

O sentido da discussão sobre o discurso do papa ressaltou que é preciso que nos mantenhamos afastados tanto do fundamentalismo (uma Igreja que vive a sua fé na privatização da comunidade), quanto do secularismo (uma Igreja que se mundaniza no contato com o mundo). O discurso do papa em Friburgo, breve mas intenso, ofereceu a oportunidade, como se percebe no artigo abaixo, para uma reconsideração da relação Igreja e mundo no tempo da secularização.

O artigo foi publicado no Münsteraner Forum für Theologie und Kirche (www.theologie-und-kirche.de) e republicado no sítio Teologi@Internet, 29-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quem contestaria ao Papa Bento XVI o fato de que um cristianismo mundanizado não pode prometer muito? Os simples conceitos de modernização, com os quais em todo o país se pede para reformar a Igreja cristã, conduzem, como norma, a um cristianismo que se adapta e se adaptou, mas não a um cristianismo necessário – necessário porque oferece e exige algo que há muito tempo não é feito por outros não só antes, mas muitas vezes até melhor.

O que pode ter levado o papa a ver a solução de tais problemas na "separação" da Igreja e da fé do mundo? É tempo, disse ele no discurso proferido no Konzerthaus de Friburgo diante das cristãs e dos cristãos comprometidos, de encontrar "verdadeira separação do mundo, de tirar corajosamente o que há de mundano na Igreja". Se isso fosse levado a sério e não se tratasse apenas de uma afirmação destinada a ouvidos modernistas, se deveria, apenas para começar, fechar o Vaticano e eliminar todos os privilégios da Igreja, começando pelos impostos para a Igreja. Mas do mesmo modo que essa palavra de ordem, repleta de história, da "desmundanização" for entendida, ela marca uma tendência e se tornará autônoma. É necessário confrontar-se seriamente com ela.

A situação é realmente dramática como o papa a percebe e a descreve com palavras enérgicas. Para uma teologia contemporânea, no entanto, que passou conscientemente pelo iluminismo e pela "maioridade", a solução pode consistir apenas em uma secularidade ainda mais profunda e mais radical, e não em uma retirada do mundo, embora bem feita. É possível verificar as ideias do papa e esclarecer as próprias abordando três questões: a questão da secularização moderna, a do risco da autoprivatização do cristianismo e a da necessidade de uma interpretação secular da fé.

A secularização não é divisível

Bento XVI parte da secularização (entende-se, antes, a mundanização) como "profunda libertação da Igreja de formas de mundanidade", que agora "volta a abraçar plenamente a sua pobreza terrena", e assim, de fora, é remetida à sua realidade mais íntima. Enquanto a teologia da secularização dos anos 1950 ainda via na fé cristã o fundamento propriamente dito da liberdade e da secularização do mundo – o princípio da encarnação como princípio de secularização –, em Bento XVI, quase ao oposto, é a secularização que irá libertar a fé em si mesma.

E a Igreja sabe absolutamente o que é essa fé, sem o mundo e os seus pressupostos de pensamento. Ela simplesmente precisa "mergulhar" no processo da encarnação do Filho, que assumiu o mundo; ela deve ser apenas "instrumento de redenção".

Friedrich Gogarten
, pioneiro da teologia da secularização, em 1953, havia enunciado a seguinte tese: "Se a secularização se pusesse a reivindicar para si o que é próprio da fé, ela não permaneceria na secularidade, mas se tornaria secularismo" (Verhängnis und Hoffnung der Neuzeit [Destino e esperança da era moderna], 1953, p.139). Bento XVI diz objetivamente algo semelhante, apenas ao oposto: se a fé se pusesse a reivindicar para si o que pertence ao mundo, ela não seria mais fé, mas se tornaria aquela moderna pseudofé, que, do ponto de visita do papa , obscurece tanto a imagem da Igreja nas sociedades ocidentais. Apenas a fé que se distanciou do mundo pode, por isso, ser realmente fé.

Aqui entra em campo a crítica da nova teologia política. Para ela, um cristianismo que não se expõe ao mundo, fica sob suspeita de ser nada mais do que ideologia, repetição simbólica do que acontece em todos os casos. Max Frisch, na sua lição de poética de 1981, havia expressado isso assim: "Quem não quer saber nada de política já deu a sua contribuição política: ele se põe a serviço do partido dominante de vez em quando". Consequentemente, seria necessária uma fé aberta ao mundo, politicamente sensibilizada. Ela permitiria considerar as situações de forma tão objetiva a ponto de podê-las reconhecer nos seus potenciais liberalizadores e de forma tão crítica a ponto de poder ver também os lados de sombra da sua emancipação. Em todo caso, uma fé separada do mundo pode ser, em última análise, apenas acrítica.

Igreja em autodefesa

Na argumentação de Bento XVI, a Igreja poderia, no entanto, dever a sua nova liberdade ao processo de secularização que ela não aprova. Livre do fardo mundano, ela se tornaria capaz de transformar o mundo e, ao fazer isso, não deveria excluir nada da "verdade do hoje". A sua hipótese é realista, ou ele se esquece ou remover o fato de que o próprio mundo secularizado é o que causa essa retirada da Igreja – e, precisamente, não por querer ser ensinado por ela, mas sim para se livrar dela? Bento XVI, com a sua mensagem sobre a separação do mundo, pode parecer um defensor corajoso de uma Igreja crítica com relação ao mundo e à modernidade. Substancialmente, nos seus discursos recentes, ele se adequa justamente a esse mundo e às suas exigências de privatização. Ele representa uma Igreja que se tornou insegura, que parece ter medo de não estar mais à altura do mundo moderno.

Dietrich Bonhoeffer, em 1944, deixou ao seu afilhado uma palavra que faz um balanço da situação, mas que, ao mesmo tempo, poderia ter sido escrita para hoje: "A Igreja, que nestes anos lutou apenas pela sua própria autoconservação, como se fosse um fim em si mesma, é incapaz de ser portadora da palavra de reconciliação e de redenção para a humanidade e para o mundo" (Werkausgabe 8, 1988, p.435). Johann Baptist Metz completa esse documento crítico com relação à Igreja: enquanto o protestantismo, segundo ele, corre o risco, com a "autossecularização", de tornar o cristianismo quase supérfluo, ele considera a Igreja católica suspeita de trabalhar, com a "autoprivatização", constantemente, para o seu desaparecimento da esfera pública pluralista. No entanto, quando a Igreja e o cristianismo se ocupam apenas de si mesmos, aí o mandamento divino é enfraquecido e as verdades da fé perdem importância.

Na condição de uma secularização cada vez mais falimentar, todos os interessados, inclusive as Igrejas, deveriam saber que precisam uns dos outros. Também por isso as disputas sobre a retirada, como soam ao menos no apelo à separação do mundo por parte da Igreja, não parecem ajudar. Particularmente para a Igreja, cuja tarefa, aliás, não está apenas no cuidado do seu próprio patrimônio de fé. Ela também é responsável por aquilo que foi feito, no mundo, com essa fé: em primeiro lugar, por parte dos cristãos, que se adequaram acriticamente à sociedade moderna, depois e sobretudo por parte dessa própria sociedade, que notoriamente usurpa o religioso e o instrumentaliza para os seus próprios interesses.

O problema da mediação

As diferenças e as tensões entre fé e mundo, entre Igreja e sociedade não devem ser apenas demonstradas, mas também mediadas e tornadas produtivas. Inclinar-se categoricamente por uma das duas partes teria como consequência para a fé o fundamentalismo e, para o mundo, o "secularismo". Quando o papa se fixa nesse segundo perigo, ignora o primeiro: o de uma fé privada do mundo, que, no fundo, dá lugar a um mundo secularizado.

"As palavras divinas", lê-se em Gregório Magno, "crescem com o leitor". A fé cresce apenas onde é vivida e "lida" sempre de novo no testemunho. Por isso, não é sensato, diz Bonhoeffer, interpretar os conteúdos da fé cristã exclusivamente em sentido "religioso", e portanto em uma retomada dos seus próprios modelos de pensamento e de explicação. Seria um contínuo girar sobre si mesmos. Esses conteúdos devem ser interpretados levando-se em conta o "mundo", e, portanto, inclusive as posições de fundo e as problemáticas daquele mundo pós-cristão no qual, por isso, eles devem ser mediados: do nosso mundo de hoje, que busca sentido e consolação, e não é inacessível a um encontro com aquilo que promete ser algo mais do que ele mesmo.

O papa tem um medo fundamentado da adaptação ao mundo secular. Mas a retirada por ele recomendada, embora possa ser claro, é a adaptação muito mais perigosa e duradoura. A Igreja separada do mundo compreenderia cada vez menos – ficando no seu mundo à parte – as leis do mundo e não as tocaria mais nem mesmo com a sua crítica. Com efeito, a Igreja, como o papa assegura crivelmente no Konzerthaus de Friburgo, quer "dedicar-se melhor e de modo verdadeiramente cristão ao mundo inteiro". Mas ela não aproximaria assim o seu mundo da fé, de fora, às experiências e às necessidades dos seres humanos, ou não o verteria simplesmente sobre eles, como já aconteceu? No primeiro caso, ela não alcançaria os seres humanos; no segundo, estes, a longo prazo, seriam perdidos por ela. As duas situações caracterizam há muito tempo a não-relação entre a Igreja e o mundo secular. Isto o papa, com a sua visita, absolutamente mudou em nada, positivamente.

No longo prazo, o ser humano não pode viver em um mundo religioso aparente sem adoecer. A fé é um "ato vital", afirma Dietrich Bonhoeffer novamente, e, portanto, algo global e indivisível, não uma província religiosa, na qual possamos nos retirar. A esperança de Bento XVI, de poder transformar o mundo através de uma "separação" da Igreja do mundo, dificilmente se realizará, portanto. O papa não pode nem esperar reforçar assim de modo durável a fé dos cristãos. De fato, o seu cristianismo não se encontra com o mundo de modo convincente, não o leva apaixonadamente a sério, nem parece aprovar sem dúvidas "a Igreja no mundo contemporâneo", como o Concílio Vaticano II a descreveu na sua Constituição Pastoral.

Resta constatar: a fé cristã requer uma compreensão secular e uma interpretação correspondente da sua verdade – não para falsificar a verdade ou para tentar agraciar-se com a modernidade, mas sim para reconhecer no mundo e reconhecer o mundo em si mesmo e nas suas convicções. Podemos acreditar apenas naquilo que se deixa compreender e expressar nos conceitos da nossa experiência e só podemos compreender aquilo que nós também estamos dispostos a fazer no meio do mundo, não na separação de uma Igreja sem mundo.

Quem poderia contestar que esse é um projeto extremamente exigente, que nos provoca e muitas vezes até supera as nossas forças?

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