Novo cardeal da Bélgica pronto para ser um importante aliado papal na Europa

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14 Outubro 2016

Em vários sentidos, Dom Jozef de Kesel, de Bruxelas, na Bélgica – um dos novos cardeais do Papa Francisco –, relembra o próprio pontífice: um grande sucesso nos círculos progressistas e seculares, mas ambivalente entre colegas, que se preocupam com onde o diálogo termina e onde começa a capitulação.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 11-10-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O Papa Francisco tem repetidamente insistido que os prelados da Igreja Católica não deveriam se sentar ao redor de suas mesas e exigir que o mundo venha até eles. Em vez disso, precisam “sair da sacristia e irem para as ruas” conhecer as pessoas onde elas estão e envolvê-las no diálogo.

Se o diálogo com a pós-modernidade é o que Francisco está à procura, ele certamente parece ter encontrado um bom companheiro em Dom Jozef de Kesel, da Bélgica, nomeado para o cargo atual por Francisco em 2015 e agora prestes a se tornar um dos 17 novos cardeais a serem criados por Francisco em 19 de novembro.

Algumas das polêmicas que por vezes circundaram de Kesel, ele próprio bem parecido com Francisco, podem provavelmente ser explicadas pela incerteza em alguns setores católicos sobre onde o diálogo termina e onde começa a capitulação.

Por mais de trinta anos, os católicos da Arquidiocese de Maline-Bruxelas foram liderados pelo renomado Cardeal Godfried Danneels, um grande herói progressista de praticamente todos os debates dentro do catolicismo e um favorito nas casas de apostas sobre quem poderia se tonar papa um dia.

As coisas, porém, não terminam bem para Danneels, quando se revelou que ele aparentemente havia recomendado um silêncio temporário a uma vítima de abuso sexual nas mãos de um bispo belga. Embora tenha insistido que o conselho se destinava a ajudar ambas as partes em um momento difícil, vindo na esteira de uma forte onda de casos de abuso em toda a Europa, o que ele disse desferiu um duro golpe contra a sua imagem pública.

Danneels foi sucedido por Dom André-Joseph Léonard, prelado com muitos contrastes em comparação. Onde Danneels lembrava o Concílio Vaticano II, os pontos de referência de Léonard eram claramente os papas João Paulo II e Bento XVI; onde Danneels mostrava-se como uma pessoa de espírito progressista e com diálogos francos com a cultura secular, Léonard lembrava um tipo de prelado fortemente fechado em sua “identidade católica”.

Onde Danneels era espirituoso e encantador, Léonard por vezes era explosivo, mal-humorado e severo.

De Kesel está com 69 anos. Passou oito anos trabalhando em Bruxelas como bispo auxiliar até ser nomeado para a Diocese de Bruges em 2010. Uma de suas primeiras decisões foi fechar o órgão tradicionalista chamado “Fraternidade dos Santos Apóstolos”, fundado por Léonard.

De Kesel sugeriu abertamente que o celibato sacerdotal no catolicismo deve ser opcional, afirmando em setembro de 2010 que “as pessoas para as quais o celibato é humanamente impossível deveriam também ter a oportunidade de se tornarem padres”.

Em novembro de 2015, pouco depois de Francisco designar de Kesel para assumir a Arquidiocese de Malinas-Bruxelas, ele identificou-se com chamado do pontífice nos dois Sínodos dos Bispos sobre a família que ia no sentido de permitir que os fiéis divorciados e recasados pudessem receber a Comunhão.

Curiosamente, de Kesel disse em uma entrevista na época que não justificaria uma abertura aos divorciados e casados novamente no civil sob a rubrica de “misericórdia”, dizendo que, na verdade, considera esse termo um pouco “condescendente”.

“Gosto de ter palavras como ‘respeito’ e ‘estima’ como pontos de partida”, disse ele. “Essas coisas podem ser um valor que nós, como cristãos, compartilhamos com a cultura dominante”.

Quando perguntado em uma coletiva de imprensa sobre a sua atitude em relação à homossexualidade, de Kesel respondeu: “Eu tenho um grande respeito pelos gays”, incluindo “a maneira deles de viver a sexualidade”.

Enquanto esse tipo de linguagem agrada aos católicos e leigos progressistas, ela também assusta os críticos mais tradicionais. Um grupo belga chamado Pro Família, por exemplo, sugeriu publicamente que a sua nomeação para Bruxelas havia sido um “erro”. Membros do grupo fizeram protestos durante a sua missa de instalação.

Por outro lado, de Kesel também vem insistindo em uma legislação para os hospitais católicos da Bélgica diante de casos da eutanásia, defendendo leis que permitam optar nestes casos, ao mesmo tempo decepcionando alguns progressistas do país que esperaram algo mais incisivo.

“Ficamos felizes quando ele chegou. Ele parecia um homem aberto e eu tinha grandes esperanças com sua vinda”, disse Jacqueline Herremans, presidente da Associação para o Direito a Morrer com Dignidade, entidade pró-eutanásia. “Eu não esperava comentários como este”.

Também houve críticas a de Kesel quanto ao seu histórico em casos de abuso sexual, especificamente na forma como ele lidou com alguns deles. Os críticos também dizem que de Kesel não erradicou a cultura da corrupção na diocese.

Ele também é acusado de nomear um abusador para um cargo pastoral na diocese.

Pessoalmente, como disse Geert De Kerpel, editor da revista católica romana Tertio, de Kesel tem a reputação de ser “cortês” e “afável”, o tipo de homem traz uma face pública positiva para a Igreja.

Em certo sentido, de Kesel é talvez uma versão belga da mesma dinâmica que muitas vezes circunda o próprio Papa Francisco: aclamado em círculos fora da Igreja, frequentemente com uma boa imagem nas bases, mas com certa ambivalência entre seus colegas.

O que parece indiscutível é que, no futuro, de Kesel vai ser um católico peso-pesado na Europa, juntando-se às fileiras de figuras como o Cardeal Reinhard Marx, de Munique, e o Cardeal Christoph Schönborn, de Viena, como aliados-chave na implementação do plano do papa no Velho Continente.

Por essa razão, de Kesel é alguém que vale a pena acompanhar não só durante o consistório de 19 de novembro, mas nos próximos meses e anos.

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