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27 Setembro 2016

“Nos tempos da URSS nos queixávamos da falta de liberdade, criticávamos, maldizíamos... Mas a nossa vida tinha um sentido: acreditávamos no projeto de sociedade a ser construído, embora os nossos dirigentes fizessem isso tão mal. Com a queda do comunismo temos a liberdade, mas perdemos o sentido das nossas vidas. E sem o sentido da vida, a liberdade transforma-se em uma coisa bastante imbecil”, escreve José Ignacio González Faus, SJ, teólogo espanhol, em uma carta aberta publicada por Religión Digital, 24-09-2016. A tradução é de André Langer.

Eis a carta aberta.

Amigo Pablo: escreve-lhe alguém que é admirador de um papa que disse que nosso sistema econômico “mata” e que ele “nunca foi de direita”: você pode supor que concordamos muito em ideais de ética sociopolítica.

Mas eu suspeito que discordamos na nossa análise da realidade à qual devemos aplicar essa ética. E aplicar um remédio a um diagnóstico equivocado seria como proceder a uma transfusão de sangue com sangue de um grupo sanguíneo incompatível.

As sociedades costumam ser conservadoras, e a nossa atual mais ainda: está claro que desejam melhorar; mas não esperam messias e temem sobretudo perder o que já têm. Suspeito que uma das razões do milhão de votos que vocês perderam foi porque as pessoas não confiavam em tantas promessas; não que estas não fossem boas.

A raiz dos nossos muitos males não é apenas a maldade de tantos corruptos, mas um sistema de desigualdade estabelecida ou de “injustiça estrutural” (expressão de João Paulo II, que não creio que fosse populista, nem comunista, nem venezuelano...). A injustiça estabelecida impede, no momento, uma infinidade de coisas que muitos desejaríamos mudar: porque, além disso, é uma injustiça não reconhecida pelos meios de comunicação.

Dizer: “vamos fazer com que os corruptos tenham medo”, me parece, infelizmente, uma ingenuidade: porque, ao que nos expomos é que os corruptos assustem a nós. Você deveria, pois, explicar como vocês pensam em enfrentar este obstáculo estrutural que, por outro lado, não é exclusivo de um único país, mas é mundial: como vai enfrentar a Europa, as multinacionais, a fuga de capitais, os impostos aos milionários, os paraísos fiscais e quase todos os meios de comunicação.

Por outro lado, é muito normal que, diante de tamanha complicação, surjam diferenças entre vocês: essas diferenças desaparecem apenas quando “quem se mexer não sai na foto”. Mas, vocês devem contar com o fato de que essas diferenças, por mais normais que sejam, serão desfiguradas e excitadas pelos meios de comunicação, porque eles não estão interessados na verdade, mas na carniça: pois a verdade dói e a carniça engorda. E não digamos nada se essas diferenças se convertem em rivalidades pessoais e lutas de poder, como parece que está acontecendo com vocês.

Que tarefa super complexa! E quão ingênuo é aparecer no plano de “Tejero democrático”,     dizendo convencidos: “isto nós vamos resolver na sequência”. Essa é a impressão que vocês dão a muitos, aumentada por todos os que os temem: que querem operar um doente sem saber nem se é diabético nem como está o coração. Daí a crise de vocês.

Quero com isto dizer que não há nada a se fazer e que é preciso resignar-se ao doloroso poder dos milhões privados? Deus me livre! Como cristão, isso seria para mim um pecado grave. Mas, deixe-me fazer agora um pequeno parêntese.

Se não conhece, recomendo-lhe um livro de Svetlana Alexievich, último Nobel de Literatura, intitulado O fim do homo soviéticus. Essa reportagem inacabada sobre a queda do comunismo gira em torno deste dilema: nos tempos da URSS nos queixávamos da falta de liberdade, criticávamos, maldizíamos... Mas a nossa vida tinha um sentido: acreditávamos no projeto de sociedade a ser construído, embora os nossos dirigentes fizessem isso tão mal.

Com a queda do comunismo temos a liberdade, mas perdemos o sentido das nossas vidas. E sem o sentido da vida, a liberdade transforma-se em uma coisa bastante imbecil. Ter um carro maior, roupas de cama e mesa mais sofisticadas ou algumas calças jeans rasgadas (que, além disso, são mais caras), não dá sentido à vida. Antes importava pouco usar toda a vida a mesma roupa e não ter dois casacos, mas tínhamos que ler na íntegra Pushkin ou M. Gorki. Agora só importa ler imprensa esportiva.

O drama que todas estas páginas transpiram é impressionante. E é um testemunho de pessoas de todas as classes: militares, civis, técnicos, escritores, varões, mulheres, idosos, jovens... Não passaram do mau ao bom, como reza a propaganda oficial, mas do mau ao absurdo. Que sofrimento!

Pois bem: comento-lhe esta obra (que todo ocidental deveria ler sem pensar no título, que é um canto à queda do comunismo) porque, para mim, o seu discurso não deveria consistir em prometer paraísos em que ninguém pode acreditar, mas em mostrar que tem um grande sentido lutar, embora seja apenas para passar do mau ao menos mau. Esse sentido é uma fonte de satisfação muito maior que todas as drogas ou as pílulas azuis de Matrix que o nosso sistema assassino administra.

Você deveria comunicar essa profunda experiência de sentido e de humildade. Porque, no longo prazo, essa luta não é nada fácil. O sábio provérbio castelhano (Quem se mete a redentor, sai crucificado) não pode ser esquecido hoje. Eu já disse que tento ser cristão. Sem essa referência Àquele que deu origem a esse provérbio e que, efetivamente, é para nós um Redentor crucificado, vejo inevitável o engano de acreditar que podemos o impossível, em vez de viver a satisfação de lutar pelo pouco que se pode. Alguma coisa sempre é possível.

Podemos pouco. Mas vale a pena tentar esse pouco, e deixar a vida nisso: porque, os mesmos criminosos que há 40 anos mataram Yoyes [apelido de María Dolores González, dirigente da ETA, famosa por ter sido a primeira mulher dirigente desta organização e por ter sido morta pela própria organização, acusada de traição], acabam defendendo o que ela queria... E assim, e só assim, é que a história avança.

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