O 20 de setembro do Papa Francisco em Assis. Artigo de Massimo Faggioli

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22 Setembro 2016

"O espírito do encontro de Assis não é mais apenas uma das tantas escolhas possíveis no menu da Igreja Católica e do papado hoje: aquela que, em 1986, ano do primeiro encontro, era uma profecia da Igreja no mundo, em 2016 tornou-se uma autodefesa da Igreja em relação àquilo que a religião parece ter se tornado."

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado no sítio L'Huffington Post, 20-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O dia 20 de setembro é o aniversário da Brecha da Porta Pia [1] que, em 1870, pôs fim ao Estado da Igreja e ao poder do papa rei. No dia 20 de setembro de 2011, George W. Bush declarava "guerra ao terror", em resposta aos atentados do 11 de setembro. No dia 20 de setembro de 2016, abria-se em Nova York a Assembleia Geral das Nações Unidas.

Nas mesmas horas, o Papa Francisco ia para Assis, para o quinto dia de oração das religiões pela paz. É um dia que diz muito sobre o seu pontificado, sobre a Igreja Católica e sobre relação entre as religiões e o mundo de hoje.

Há 30 anos os papas vão a Assis para confirmar a intuição de João Paulo II sobre o vínculo entre diálogo inter-religioso e paz no mundo contemporâneo. Em 2011, Bento XVI também foi para Assis, ele que, há 30 anos, não guardou segredo ao Papa Wojtyla sobre as suas perplexidades teológicas sobre o evento de Assis (como ele lembrou no livro com as suas Ultime conversazioni [Últimas conversas] publicado há poucos dias).

Era o dia 27 de outubro de 1986: era o mundo da Guerra Fria; eram três anos antes da queda do Muro de Berlim, 15 anos antes do 11 de setembro de 2001; era antes que (quase) todos percebessem que, no mundo da "revanche de Deus" (assim definido pelo estudioso francês Gilles Kepel), as teses sobre a inevitável secularização estavam destinadas a declinar ou a valer apenas para aquela pequena parte de mundo que é a Europa ocidental.

Nesse sentido, em Assis, Francisco fala de paz junto com as religiões, e é uma batalha interna para a Igreja e para as religiões. Ainda em 1986, João Paulo II teve que enfrentar as contestações daqueles que o acusavam de sincretismo ou de ambiguidade. Mas o pontificado do Papa João Paulo II teve a sorte de poder agir livremente não só das contestações dos teólogos e bispos dissidentes, mas também e sobretudo daquele magistério católico paralelo que age no mundo virtual da internet.

De uma era da Igreja – a do fim do século XX, em que a dissidência contra o magistério papal e vaticano estava disperso e limitado a poucas vozes de autoridade (como Hans Küng e os teólogos da libertação) – passamos para uma dissidência mais marginal, mas também midiaticamente mais visível. Não é por acaso que as oposições teológicas e ideológicas ao Papa Francisco são ativas naqueles países em que um catolicismo forte tentou se inserir, nas últimas décadas, em uma cultura política e religiosa forte, como a dos Estados Unidos.

O catolicismo de hoje é mais global e mais fragmentado, mas em que as perplexidades teológicas sobre Assis permaneceram circunscritas ao tradicionalismo.

A verdadeira mudança epocal está no papel das religiões no mundo contemporâneo. As religiões vão a Assis também porque reconhecem que o papa é o porta-voz de uma religião em que o divino não exige o tributo do sangue. O problema não é só que o fronte da "terceira guerra mundial em pedaços" atravessa todas as fronteiras e todas as tradições culturais e religiosas. No cenário do mundo contemporâneo, a religião se senta, simultaneamente, no banco dos réus e no do advogado de defesa.

Assis deve ser entendida como resposta à mudança epocal do nosso tempo: "Deus fazia parte da civilização e agora parece ter passado para o lado da barbárie", como disse eficazmente há alguns anos o crítico literário britânico Terry Eagleton.

O mundo do Papa Wojtyla era um mundo em que a religião se apresentava como advogada da liberdade e dos direitos humanos. Era uma Igreja em que o papel dos ativistas democráticos católicos (como na Polônia e nas Filipinas) e cristãos não católicos (como na África do Sul) prometia uma nova aliança entre Igrejas e uma certa ideia de cidadania e de civilização.

Mas os últimos anos de história global nos contam uma história diferente. A tarefa do Papa Francisco é muito mais difícil, porque está claro que a religião é não apenas parte da solução, mas também parte do problema.

Nesse sentido, o espírito do encontro de Assis não é mais apenas uma das tantas escolhas possíveis no menu da Igreja Católica e do papado hoje: aquela que, em 1986, era uma profecia da Igreja no mundo, em 2016 tornou-se uma autodefesa da Igreja em relação àquilo que a religião parece ter se tornado.

A Igreja Católica levou quase um século para definir o dia 20 de setembro de 1870 como um dia providencial: foi preciso esperar por Paulo VI, que afirmou que o fim do poder temporal dos papas tinha tornado a Igreja mais livre para cumprir a sua missão.

Este 20 de setembro de 2016, aniversário do encontro de Assis de 1986, é uma das provas de que a Igreja Católica aprendeu rapidamente. Bastaram muitos poucos anos para fazer de Assis um dos ícones do mundo religioso contemporâneo.

Nota do IHU:

1. A Brecha da Porta Pia, também conhecida como Tomada de Roma, ocorreu no dia 20 de setembro de 1870, evento final do processo de unificação italiana, que culminou na criação do Vaticano, com o estabelecimento do Tratado de Latrão durante o governo de Mussolini.

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