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09 Setembro 2016

"Esta situação não é inteiramente diferente do cinismo daqueles que enxergam a coalizão contra Francisco como estando focada somente em manter os privilégios, enquanto ignoram o fato de que existe, realmente, um profundo racha teológico e cultural em torno da eclesiologia e, em particular, sobre o papel do Vaticano II na eclesiologia prática do catolicismo hoje.  Este cinismo não só é uma prova do racha na Igreja concernente à pauta deste pontificado. É um sintoma de algo mais profundo e mais sério. O real problema é que, a julgar com base no membro mais destacado de sua hierarquia, os membros da Igreja aparentemente não sabem mais como ser obedientes e como ser dissidentes", escreve Massimo Faggioli, professor de teologia e estudos religiosos na Villanova Universty, em artigo publicado por Global Pulse, 06-09-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

O período de férias deste ano de 2016 não tem sido um momento de tranquilidade para o Papa Francisco. Mas, aparentemente, também não o vem sendo para alguns de seus colegas bispos. Alguns Ordinários de dioceses de todo o mundo têm proferido palestras e anunciado decisões que devem ser consideradas com atenção não só pelo que disseram, mas também pelo ambiente eclesial em que foram recebidos.

Em primeiro lugar, Dom Mark Coleridge, da Arquidiocese de Brisbane (Austrália), declarou sua intenção de celebrar um sínodo nacional para a Austrália no ano de 2020. Em entrevista publicada no Catholic Leader – informativo arquidiocesano –, o arcebispo, que foi membro ativo (e usuário assíduo do Twitter) na última assembleia do Sínodo dos Bispos em Roma, falou da inspiração advinda do evento eclesial mais importante dos últimos cinquenta anos.

“Foi ouvindo a alocução do papa sobre sinodalidade na Igreja, na manhã de 17 de outubro, que comecei a perceber, de um modo claro e poderoso, que era chegado o momento para a Austrália”, disse.

“Espero que a pauta deste nosso Sínodo seja o resultado de uma consulta genuína dentro da Igreja, a acontecer entre hoje e 2020. Todo aquele que quiser terá vez e voz, assim como aconteceu com o Sínodo em Roma”, enfatizou Coleridge.

Em seguida, um outro prelado australiano, Dom Vincent Long, da Diocese de Parramatta, assumiu uma postura pública clara em favor da intenção do papa de reposicionar a Igreja no mundo moderno.

“Se pudermos detectar a direção do pontificado do Papa Francisco, veremos que ela tem a ver com um movimento que vai da segurança à ousadia, de um olhar para dentro de si a um olhar para fora de si, da preocupação com o nosso status quo, salvaguardando privilégios, a aprender a sermos vulneráveis, aprender a transmitir a compaixão de Deus aos que se encontram às margens da sociedade e da Igreja”, declarou durante uma palestra em 18 de agosto.

Dom Vincent Long, franciscano conventual e ex-“boatperson” [como eram chamados os refugiados vietnamitas na década de 1970 que abandonavam o seu país usando botes para serem pegos por embarcações de outros países], ressaltou a ligação entre o atual papa e o Vaticano II. Também listou uma série de prioridades para uma Igreja mais inclusiva e falou sobre um novo kairos na Igreja.

Por fim, em entrevista ao National Catholic Reporter em agosto deste ano, o arcebispo canadense Donald Bolen, da Arquidiocese de Regina (Saskatchewan), delineou uma visão de Igreja “que esteja em diálogo com a cultura em geral, que seja respeitosa com a cultura, uma Igreja com uma mensagem a proclamar, porém que escuta profundamente também”.

Não sabemos ainda o que estas falas e entrevistas indicam sobre a postura do episcopado mundial em relação ao Papa Francisco (o que acredito ser um dos temas cruciais para o sucesso ou fracasso deste pontificado e do catolicismo neste século). Mas esse não é o foco aqui. É mais interessante notar que aqueles que fazem oposição a Francisco têm interpretado o apoio que estes bispos têm manifestado pelo papa jesuíta como um realinhamento cínico, puramente político de prelados que estão tentando ganhar visibilidade no radar papal e conquistar uma chance de receber um solidéu na próxima vez que ele, o papa, criar novos cardeais.

Esta situação não é inteiramente diferente do cinismo daqueles que enxergam a coalizão contra Francisco como estando focada somente em manter os privilégios, enquanto ignoram o fato de que existe, realmente, um profundo racha teológico e cultural em torno da eclesiologia e, em particular, sobre o papel do Vaticano II na eclesiologia prática do catolicismo hoje. 

Este cinismo não só é uma prova do racha na Igreja concernente à pauta deste pontificado. É um sintoma de algo mais profundo e mais sério. O real problema é que, a julgar com base no membro mais destacado de sua hierarquia, os membros da Igreja aparentemente não sabem mais como ser obedientes e como ser dissidentes.

Verdade seja dita: os chamados progressistas há tempos têm um problema com a obediência. Mas agora que o Papa Francisco vem abrindo nossos espaços, eles precisam aprender como serem criticamente obedientes sem ceder ao silenciamento neo-ultramontano daqueles que são desobedientes. 

Por outro lado, os assim-chamados conservadores há muito têm um problema com os dissidentes. Neste momento eles precisam aprender como serem fiéis na dissidência sem declarar ou insinuar que o problema é um papa que não conhece teologia católica. Mas existe uma grande diferença entre esses dois lados do catolicismo ocidental. Nos anos entre 1978 e 2005, os progressistas nunca pensaram ou insinuaram que João Paulo II ou Bento XVI não eram católicos ou, o que é pior, que eram hereges.

A arte perdida da obediência crítica e da dissidência fiel pode ser parte da transição de um catolicismo de massa, onde todos são em princípio católicos e, portanto, podem lidar mais facilmente com a diversidade, para um catolicismo “minoritário”, onde a diversidade interna é mais desafiadora para a coesão sociológica da Igreja. Em outras palavras, a polarização e a incapacidade de lidar com a dissidência é uma consequência da perda de hegemonia do cristianismo na civilização ocidental.

Contudo, o fato é que o catolicismo é a antítese do sectarismo. Max Weber ofereceu um argumento bastante convincente para isso em um importante congresso realizado em 1910 em Frankfurt (aliás, esta é a cidade de onde escrevo neste momento).

Uma posição sociológica profundamente mudada dentro da sociedade secularizada não deveria ser o suficiente para alterar radicalmente a forma como a Igreja lida com as diferenças de opinião que estão dentro do domínio do que é aberto ao debate e pode mudar. A raiz verdadeira desta mutação não está na transição da maioria para a minoria, mas na “ideologização” do catolicismo, onde a cultura de debate e dissidência é reprimida. Isso se deve ao fato de que a Igreja não está imune ao tribalismo multifacetado de hoje; ela se tornou demasiado preocupada com a cultura (mais cultural, menos espiritual e teológica); e tem um problema com a liberdade.

A questão profundamente subjacente é eclesiológica, e não é coincidência que existem diferenças dentro do catolicismo. O emprego implacável do poder por parte de alguns bispos de países de língua inglesa em pôr fim a iniciativas eclesiais ou em silenciar teólogos/as individuais, padres ou freiras é praticamente uma incógnita em muitas partes do mundo. Isso é especialmente verdadeiro nas menores e mais jovens igrejas da Ásia, por exemplo, onde o catolicismo nunca foi a maioria sociológica, política ou cultural.

Não tenho plena certeza de que é uma boa ideia ter o Papa Francisco mantido na Cúria Romana cardeais que não só o contradizem ou o ignoram, mas também que o representam equivocadamente e, às vezes, mentem sobre o que ele está fazendo. Por outro lado, talvez esta seja apenas mais uma das formas que o papa jesuíta está tentando nos ensinar sobre como lidar – e não lidar – com a dissidência na Igreja.

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